O pombo e o poeta

Meu nome é Floco. Achei gozado esse nome. Mais gostei. Minha mãe me disse que sou leve como floco e que voarei livre como uma pluma. Ah, sim, eu sou um pombo. Atualmente moro com minha mãe em um pequeno ninho em frente a uma janela. Meu pai aparece as vezes, sempre com alguma desculpa. Onde estamos sou observado o tempo todo. Não me importo, acho intrigante aqueles olhares diversos. Eles não possuem asas. São feios, alguns bem redondos. Acho que gostam muito de comer como eu.

Minha mãe me contou que devo ter muito cuidado com eles.Queria compreender bem essa matemática. Nem mesmo aprendi a voar. Fico aqui de cima, assim como eles observando. Queria não acreditar em tudo que mamãe me conta sobre eles. É muito triste!

Outro dia, na inquietude da madrugada, olhei para baixo e percebi que talvez ela estivesse certa. Eles maltratam a si mesmos. Machucam os seus, sem nenhuma piedade. Cada um traz sua história refletida na janela.

Hoje abri minhas asas pela primeira vez. Foi uma sensação estranha. Olhei a minha volta e percebi que poderia abraçar tudo. Deu medo. Não entendo determinados sentimentos que surgem em mim. Mamãe disse que tudo isso passa, que o tempo ira me mostrar o quanto poderei ser grande. As vezes as palavras soam forte e depois se calam diante do silêncio. Então fecho os olhos e fico escutando a canção do vento.

“As vezes doí existir”. “Somos uma multidão de sozinhos”. Escutei essas palavras de pessoas que passavam. Uma imensa lacuna ocupou todo meu espaço. Como eles poderiam deixar de perceber as belezas do horizonte. Não sentir o toque da brisa sem pudor ou embaraço.

Eles não estão prontos ao ponto de observar as grandezas que os cercam. Desfilam pelas avenidas de seu próprio ego e morrem perdidos e sozinhos.

Por que é que não podem voar juntos? Aceitar os mais fracos, respeitando seus limites. Julgam tanto e, lá no fundo, não percebem e não entendem nada.

Dona Celestina, minha mãe, tem razão. Do outro lado da janela, entre botões e papeis, eles correm, se atropelam. Desconfio que um dia romperão o casulo de todas as suas indiferenças e, como nós pássaros, abrirão suas asas e partirão rumo ao desconhecido. Porém felizes, pois descobrirão o valor da verdadeira liberdade.

Meu nome é Floco! E você ai do outro lado da janela, sabe qual é o seu?

WederSoares

Weder Soares
Enviado por Weder Soares em 30/09/2014
Reeditado em 30/09/2014
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