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A correntes visíveis que ninguém percebe

Perguntei o que havia acontecido, e eu já estava decidido que iria procurar o culpado. Não poderia jamais tolerar aquela cena absurda, o homem simples e não moderno - na designação Ac hoc sociológica - permanecia embernado. Preso ao poste pelas correntes, seu semblante passeava não pelas nuvens, mas pelas pessoas. Imaginem como é doloroso ver um cidadão acorrentado ao poste numa democracia representativa constitucional? Menos estranho, porém, é quando nesse mesmo regime temos o direito de sacar nossos óculos escuros e ofuscar nossa última ponte que nos levaria ao outro.

Nada disso era novo para mim. Eu tinha a plena certeza de que aquela cena se tratava de um abuso, como também sabia que não contaria com a ajuda de ninguém, pois haviam óculos escuros de todos os preços. Minha mente e meu coração transbordavam; se começara com um discurso constitucional não iludido, agora já estava envolto de uma revolta revolucionária. Pensava apenas se recrutaria um contingente às pressas ou se começaria uma luta guerrilheira desesperada, provocando o fim da minha cólera e a surpresa dos desavisados.

Questionava a submissão daquele homem. Afinal, que diabos de cabeça era aquela que não se sentia impelida à quebra das correntes? Isso ia contra minha concepção social, de trato científico, que explicava a apatia pela ignorância, preservando assim a revolta essencialmente humana, gerada em qualquer homem que vê através de seus olhos as correntes que o prendem. Por um instante, imaginei que não estudávamos o homem em si, mas apenas uma idéia dele. Era o mundo das idéias de Platão invertido, pois a nossa idéia de homem só era modelo para nós mesmos, era a primeira vez que eu sentia o filosofo Platão rindo de mim, rindo da razão tola que criamos nesse mundo moderno.

O responsável por aquele episódio certamente é um verme. Contudo, não nós iludamos, sabia também que a crueldade é polida. Esperava que qualquer um daqueles engravatados poderia ser o responsável por esse ato inóspito. Era costume a crueldade travestida, aquela que se olha no espelho e ela mesmo se convence da sua bondade. O porquê disso? Ora, sua consciência não era capaz de pensar, mas apenas de refletir a imagem do belo que enfeitava o espelho. Se enganam os que acreditam que os cruéis não se acham bonzinhos de alguma maneira.

Essa análise da situação me permitia a elaboração de um plano com poucos erros. Entretanto, isso não me tirava o direito de esfolar o responsável por aquele ato, ainda que eu pudesse ser julgado não por uma discussão filosófica da justiça dos homens, mas por aquele conjunto de leis constitucionais que ratificam as injustiças primárias e invisíveis da democracia representativa.

Nesses poucos instantes, a realidade me avalia e pergunta avidamente, provoca-me. Quer saber, de uma vez por todas, por que eu existo? Explico ou não explico? Resolvo ou não resolvo? Não há avaliador mais ferrenho para um homem das ciências sociais que a própria realidade. O olhar daquele homem resignado me esfaqueia enquanto penso, discuto, replico e amo dentro de mim.

Finalmente, estou pronto para ajudá-lo. Depois de fitá-lo, volto a usar meus sentidos e repito a pergunta. O que está acontecendo meu senhor? Ele diz - meio para dentro - que é protesto. Eu pergunto contra o que ele protesta. Ele diz que é lavrador e quer aposentar e por isso se acorrentou na frente do INSS. Tento ser útil e lhe sugiro que coloque uma faixa em cima de si mesmo dizendo que ele está ali protestando. Ele apenas responde que a televisão já passou por lá. Saio anestesiado, triste e feliz por mais uma aula. Ingenuamente, torço para que ele consiga vencer sua luta contra a burocracia weberiana que nunca irá funcionar.
Thiago Marx
Enviado por Thiago Marx em 17/09/2005
Código do texto: T51146
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Sobre o autor
Thiago Marx
São Paulo - São Paulo - Brasil
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