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Ponto de Ônibus

    Ele saía do trabalho todo dia às cinco e meia da tarde, para tomar o ônibus apenas às seis e quinze e nesse intervalo de esperar o ônibus chegar, Marcos ficava olhando revistas e jornais de uma banca que ficava próxima ao ponto. Numa terça feira de um mês de novembro ele acabou saindo mais cedo do serviço e quando estava indo a direção ao ponto viu o ônibus das cinco e quarenta chegando, ele começou a correr, porém não conseguiu toma-lo. O ponto estava cheio e ainda era horário de pico, Marcos nem ficou no ponto e foi logo para a banca ver as revistas cientíicas que ele tanto gosta de ver, mas nunca as comprava.
Ficara um bom tempo olhando as revistas, quando percebeu que seu ônibus estaria quase chegando. Foi para o banco e sentou-se já que a grande maioria já tinha tomado o seu ônibus.     Ainda havia três pessoas esperando Um senhor de idade, uma mulher com um bebê de colo e outra mulher que aparentava ter a sua mesma idade, por volta de trinta anos. Como tem feito calor ultimamente – dizia Marcos sozinho, mas em voz alta para tentar chamar a atenção da moça que estava ao lado. De princípio ninguém comentou o que ele dissera, nem a moça, nem a mãe da criança e nem o senhor que talvez nem tenha escutado.
Marcos viu que a moça não lhe dera atenção, tentou outra vez de outra maneira.
_ Que situação, eu, um engenheiro tendo que pegar ônibus? Onde já se viu? É por isso que esse país não vai pra frente – reclamava Marcos. A mãe do bebê olhou e fez uma cara de negação querendo dizer que ele perdeu uma ótima oportunidade de ficar calado. O senhor novamente nada expressou e a moça fingiu que não ouviu. Marcos que sempre conseguia arranjar uma conversa em ponto de ônibus não estava tendo sucesso naquele dia. Então resolveu ser mais direto no que queria:
_ Que ônibus você vai tomar?
A moça de momento não respondeu, mas depois de uns segundos virou o rosto e perguntou ao invés de responder.
_ Falou comigo?
_ Falei sim, estou perguntando que ônibus que você vai tomar.
_ Vila Cruzeiro, por quê?
_ Por nada, só pra saber. Marcos fez uma pausa, mas logo retomou o pequeno diálogo.
_ Seu ônibus vai demorar?
_ Não, daqui a pouco ele está chegando, e o seu?
Marcos ficou feliz, porque ela deu oportunidade de continuar a conversa.
_ Logo ele chega. Você trabalha?
_ Sou secretária de uma empresa e você?
_ Trabalho na produção de uma empresa de alimentos.
_ Mas você não disse que era engenheiro?
_ Sou engenheiro de produção, eu sou responsável pelo controle do que está sendo produzido.
_ E pra isso precisa de engenheiro?
_ Na verdade eu posso fazer mais que isso, mas é o meu primeiro emprego.
_ Ah entendi. Que ônibus você ia tomar mesmo?
_ Jardim Espanha. Por quê?
_ Porque ele acabou de passar.
_ Eu não acredito, perdi de novo!
_ Perdeu de novo?
_ É que tem dia que eu me atraso pra sair e acabo perdendo o ônibus.
_ Eu pensei que você tinha perdido por estar conversando comigo ou com outras pessoas em outros dias.
Marcos ficou sem jeito, pois é esse o motivo dele perder o ônibus. A conversa continuou um pouco mais, porém ela acabou indo embora, nessa hora ele já estava sozinho no ponto e eram seis e vinte da noite. O próximo ônibus só viria às seis e cinqüenta.
Não ficou muito tempo sozinho e logo apareceram mais pessoas. Dessa vez apareceu um adolescente que devia ter uns dezoito anos, talvez um estudante indo pra sua escola ou faculdade. A outra pessoa era um homem que devia ter seus quarenta anos e para sua sorte havia uma mulher, ou melhor, uma jovem de vinte e três anos. Marcos pensou uma maneira de chamar a atenção para começar a conversa, mas não iria ficar reclamando em voz alta sobre o dia ou sobre a sua profissão. Ele que estava com camisa de manga comprida cobriu o relógio que estava no pulso direito perguntou as horas para a jovem.
_ Que horas são fazendo favor?
_ São seis e vinte e cinco.
_ Vai demorar esse ônibus. Ah obrigado. Agradeceu depois do seu breve comentário que poderia continuar caso ela quisesse.
_ Que ônibus o senhor irá tomar?
_ Jardim Espanha e você?
_ Vila Nova.
_ Seu ônibus já está chegando?
_ Sete horas ele vai chegar.
_ E você, trabalha, estuda?
_ Os dois. Faço administração de manhã e trabalho a tarde e você?
_ Vidinha dura a sua enh?! Eu só trabalho.
_ É dura, mas logo eu me formo, esse é o meu ultimo semestre.
_ Ah legal – Marcos dizia isso já quase sem mais ter o que dizer. Pelo menos estava com sorte, pois a jovem que ele acabou perguntando nome e ela respondeu dizendo Letícia e o seu? Marcos prazer. A conversa parecia descontraída e demorada, mas não porque a pergunta fatal veio novamente.
_ Que ônibus o senhor toma mesmo?
_ Jardim Espanha. Por quê?
_ Porque ele está quase saindo.
Marcos saiu desesperado atrás, mas era tarde e a porta já tinha fechado e o motorista nem fez questão de abri-la novamente. Ele voltou para o banco quando Letícia reclamou:
_ Você nem disse tchau.
_ Desculpa, é que eu já perdi esse ônibus hoje. O chefe demorou pra dispensar.
_ Ah é. Pensei que você tinha perdido por ter conversado com alguém, sabe você tem cara de quem fica no ponto só conversando e ainda por cima perde o ônibus.
_ Como é que você sabe, quer dizer, como você pode dizer isso? Disse Marcos atropelando as palavras e se confundindo.
O ônibus de Letícia chegaria em cinco minutos, mas ela nem reparou as horas e continuou conversando com Marcos. No final das contas ela acabou perdendo o ônibus também e ficou brava com Marcos.
_ Olha o que você fez, perdi o ônibus e eu nunca perco esse ônibus. Era só o que me faltava perder um ônibus por causa de um peão.
_ Peão? Você ta falando com o engenheiro de produção da Vedras Produtos Alimentícios.
_ Engenheiro de produção? Desde quando um engenheiro de produção faz isso? Você é o cara que põe os produtos na esteira e nem vê eles prontos
_ Olha como você fala?! Eu não tenho culpa que você se interessou por mim.
_ O que você disse? Repete se for homem. O que você disse?
_ Eu não tenho culpa se você continuou a conversa e por que não ficou atenta com o horário? Eu até disse que o meu ônibus chegaria as seis e cinqüenta e o seu chegaria às sete, deveria ficar mais atenta menina!
_ Menina uma ova! Eu já tenho vinte e três anos. Você que deve ta com os seus quarenta anos e reclamando da vida e ainda pensando que qualquer mulher mais nova é menina
_ Calma, não precisa gritar e mais, eu tenho trinta anos.
_ Calma nada, você me fez perder o ônibus. E pra quem tem trinta anos você está bem acabado. O meu pai que tem quase cinqüenta parece ter uns quarenta.
_ Como você mente enh?!
_ Cara você nem me conhece e já vem chamando de desatenta e agora mentirosa. Ainda acha que eu me interessei por você?!
_ Não foi isso que eu disse. Você está nervosa e ta dizendo coisa sem pensar.
_ Pra sua sorte vem um ônibus chegando ali, eu vou embora e te deixar aqui sozinho.
_ Pro seu azar esse também serve pra mim.
_ Como?
_ Isso mesmo, eu vou pegar esse ônibus.
_ Então eu não pego.
_ Ta bom então, tchau. Marcos estendeu os braços pra chamar o ônibus.
_ E você vai me deixar aqui sozinha? – Disse Letícia fazendo cara de choro.
_ Mas você não disse que por nada nesse mundo você não pega o mesmo ônibus que eu?
_ Eu estava brava. Desculpa.
_ Desculpa peço eu.
_ Vocês vão demorar muito ai? – disse o motorista ameaçando a fechar a porta.
_ Calma já estamos indo. Os dois resolveram pegar o mesmo ônibus.
_ Esse ônibus passa na Rua Barcelona? Perguntou Marcos ao cobrador que logo lhe responde que não.
_ Esse ônibus passa na avenida Osvaldo Lopes? – pergunta Letícia ao cobrador que logo lhe responde que não. Como assim não? Insistiu Letícia. Esse ônibus vai pra Vila Estrela bem longe do Jardim Espanha e bem longe da Vila Nova.
O ônibus já tinha partido e ela voltou a brigar com Marcos.
_ Além de me fazer perder o ônibus, me faz pegar outro errado. O que eu faço com você?
_ Não sei. Mas foi você quem viu o ônibus primeiro.
_ Agora você é o santinho, né?
Marcos levanta-se do banco e puxa a corda.
_ Onde você pensa que vai? Pergunta Letícia.
_ Embora oras! Esse não é meu ônibus.
_ Vai então!
Marcos já estava na porta do ônibus quando Letícia grita no meio do ônibus acordando o cobrador e outras pessoas que estavam no seu cochilo.
_ Você vai me deixar aqui sozinha, num ônibus que eu nem sei pra onde vai.
Marcos já tinha descido e Letícia dentro do ônibus gritava
_ Para o ônibus! Para o ônibus!
O ônibus parou um pouco a frente de onde tinha saído Marcos, ela correu atrás dele gritando no meio da rua e já era oito horas da noite, num lugar que eles não sabiam.
_ Marcos! Me espera.!
_ O que foi que você ta gritando?
_ O que foi? Você me faz perder um ônibus, depois eu pego o ônibus errado e agora paro num lugar que eu nem sei onde é.
_ Calma, é só andarmos uma meia hora que já vai estar no meu bairro, ai você dorme lá em casa e amanhã você volta pra sua casa.
_ Você fala isso como se fosse a coisa mais fácil.
_ É fácil sim. Minha mulher nem vai perceber e você dorme no quarto do meu filho que está na casa da avó dele.
_ O quê? Além de tudo isso você é casado e tem filho? Eu até pensei que nós... Fazer o quê nada é perfeito mesmo.
_ Você é muito jovem pra ficar estressada desse jeito.
Letícia andava chutando as pedrinhas que via pelo chão e reclamava pensando consigo mesma “naquela hora que vi aquele cara e que ainda falou comigo, eu achava que seria a minha companhia pra aquela noite, justo hoje que eu terminei com o meu namorado e achando que já ia começar algo novo. Eu menti feio quando disse que ele ta acabado, eu até perdi o ônibus por causa dele e agora me aparece essa: Casado e pai. Eu mereço mesmo”.
_ Vamos logo Letícia, minha mulher vai desconfiar que eu estou chegando tarde. Disse Marcos sem se sequer imaginar o que passava pela cabeça da pobre Letícia.

05/11/02
Miguel Rodrigues
Enviado por Miguel Rodrigues em 19/09/2005
Código do texto: T51837
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Sobre o autor
Miguel Rodrigues
Barueri - São Paulo - Brasil, 33 anos
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Miguel Rodrigues