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Kátia Alexandra Sofia da Silva retirou sem sombra de pejo aparte de cima do seu biquini e esparramou-se na relva, de modo a ser atingida pelos respingos, já que era tarde tardezinha e o Manel Jaquim jardineiro, regava o toro de uma ameixoeira, que o empresário da construção civil, Silva pai, não era de desperdiçar terreno nem despesas com coisas que não dessem fruta ou, ao menos, umas hortaliças.



O Caldo verde da D. Birgolina tinha fama, feito com as tenras couves que adornavam as alamedas.



Boné para a nuca, testa meio calva meio grisalha reflectindo o fulgor do sol que declinava, o Manel Jaquim, declinando dos ossos e de outras miudezas de que a gente não fala, nem olhou para a moça, que se virava e revirava na toalha turca dum lado e aveludada do outro.

Olhava enfastiada os restos da revista Caretas que folheava, molhando a ponta do dedo mindinho na ponta da língua, ficando as páginas coladas com uma mistura de saliva e cola... nada a fazer senão mirá-las, remirá-las, e arrancá-las, lançando-as por cima do ombro, que a brisa se encarregava de levá-las a passeio para onde não a incomodassem.

Aproveitavam a frescura da água do tanque a que chamavam
Piscina, quando se reuniam lá em casa as Tias.

...Modelos, príncipes, artistas... caim na placidez das águas e vogavam deliciados, habituados que estão a
frescuras.

Ela, Kátia Alexandra Sofia, à água... só vê-la!

Ou senti-la morninha, debaixo do chuveiro de uma das três casas de banho da moradia recoberta de azulejos.

Os banhos de sol junto da Piscina eram pretexto para se apresentar bronzeada nas festas, dizendo que acabara de chegar de férias nas Caraíbas.

Rebolava-se a inconsciente adolescente, impaciente vá-se lá saber porquê, os olhos postos no ondear das páginas...

Eis senão quando algo no meio do tanque, com o fundo pintado de azul turquesa, começa a emergir, a emergir, a emergir... e os olhos castanhos, delineados, de Kátia a aumentar, a aumentar, a aumentar...

Sacudiu a loiríssima cabeleira escadeada por três vezes e benzeu-se:

- Ai! Então não querem lá ver que o sol me fez mal?!

Da água, uma cabeça, depois uns ombros musculosos, um tronco de atleta, abdominais firmes, foram surgindo... a Katia ia-se soerguendo... seguindo o lento caminhar do jovem que passo a passo se dirigia para o bordo, o agarrava com as mãos poderosas e se içava para fora de água.

Pisou a relva.

Kátia olhava hipnotizada.




O Manel Jaquim, depois interrogado, jura ter visto um sapo,apenas um sapo.

- Juro pela minha mãezinha que Deus lá tem, ó Patroa!

E cuspia nas palmas nas mãos, que limpava aos fundilhos das calças de bombazina.



... Mas a Kátia via um jovem aproximar-se, a inclinar-se suavemente sobre ela, olhando-a bem no fundo nos olhos, a boca em botão, pedindo um beijo.

Em pasmo, retroflectida, a cabeça em pé-de-vento, Kátia Alexandra Sofia da Silva, esticou-se toda, seios à vela, que importava... lembrava-se lá de quem era ou onde estava!...A aproximação foi um filme em câmara lenta... um momento mágico, um parar do tempo.



Levantou-se de um pulo!

- Ai que nojo!

Num repente, agarrou a toalha meio-de-veludo e esfregou, o baton dos lábios, repugnada.

- roaaac - roaaac - roaaac ...



Tanto um quanto outro desataram aos saltos, desatinados.

A moçoila desatou aos berros.

O Manel Jaquim deitou a mangueira ao chão e desatou a fugir caminho abaixo,
metendo a mão no bolso traseiro das calças, atropelando as couves, sem atinar com o telemóvel muito menos com o número do serviço nacional de emergências.

De dentro, a D. Birgolina acudiu de facalhão em punho, que estava a cortar o chouriço.

Passada hora e meia vieram os polícias, os bombeiros a protecção civil.



Postados em fila no sofá da sala, foram interrogados por repórteres
cépticos, os únicos que colocaram algumas dúvidas na veracidade dos
factos narrados.

A história foi notícia de abertura no Notiário da Noite do canal oficial da TV.

Uma fotografia da bela desnuda saiu nas páginas centrais da revista Caretas.

O Silva, todo engravatado, compareceu nos estúdios ao lado da filhinha, nas entrevistas.

Foi abordado por uns senhores graúdos do mundo do futebol, discretos e circunspectos bicharam-lhe ao ouvido que lhes sobraram uns materiais da construção dos estádios e que já que se conheciam em tão íntimas circunstâncias poderiam fazer... o que fizeram.


Meses depois, os Silva
venderam a moradia e compraram um palacete na Linha do Estoril,com piscina verdadeira, filtros e tudo, onde se dão as melhores festas da Socialite, com espumante e pastelinhos de bacalhau.

Nadam em euros e dão grandes sardinhadas aos domingos.



... E agora, já acreditas em contos de fadas?


Lisboa, 25/4/2004



Maria Petronilho
Enviado por Maria Petronilho em 23/09/2005
Reeditado em 16/02/2007
Código do texto: T53075
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Maria Petronilho
Almada - Setúbal - Portugal, 64 anos
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