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O Óscar, um tipo calmo, via o tempo passar tranquilo.
Sozinhez de quando em vez, sim, mas quem a não tem, digam lá?!
Chegava na esquina, puxava conversa, dormia uma sesta e pensava que bem lhe sabia a liberdade que tinha.
Com isso se contentava.
Sentava-se junto à janela, às tardes, a ver quem passava.
Conhecia a Ana da Praça, o Zé Joaquim da Taberna, o Manuel da Hortaliça, a Joana da Mercearia.
... Mas um dia prendeu-se na saia dela!
Na saia e na bundinha, que ao andar rebolava...
E no pedaço de perna torneada que aparecia, depois da bainha da saia, até sumir na chinela.
Um dia e outro ainda, quase sempre à mesma hora, lá ia a moça e o Óscar marcava ponto, no peitoril da janela.
Subiu os olhos à cinta, subiu pelas costas acima, e demorou-se na nuca.
Santo Deus, que coisa linda!
Ansiava ver-lhe a cara.
Passou a ir ao quiosque, a comprar uma revista, ficando a lê-la na rua.
A lê-la!
Fingia! E esperava. Da primeira vez que viu aquele palminho de cara, o Óscar até tremeu, ficou corado e de olho arregalado.
Ai minha nossa senhora, tinha de saber quem era a moça morena que há tanto tempo fazia que andava de olho nela!
Virou-se num só impulso, como se fosse segui-la, esquecido de onde estava, do cavalheiro que era... sentindo subir-lhe um viço, um arrepio, que era?!
De repente apercebeu-se, puxou o lenço do bolso e assou-se com estrondo, tentando disfarçar o embaraço com o alarido.
A vizinhança olhou e, à socapa, sorriu.
E ele, de novo composto, foi-se embora rua abaixo, enfiou-se porta dentro, foi tomar um duche fresco.
Naquela altura, passou. Passou-lhe uma coisa, veio-lhe outra: um catarro mesmo a sério, que o manteve no recato por três dias, de resguardo.
Ao quarto, saiu do quarto e voltou para a janela, à espera dela.
E ela passou, donairosa, abanando a saia, rebolando a anca, os ombros a dar a dar... ai o Óscar, que arrepios sentia!
Se era febre ou o contrário, quem saberia?!
Voltou a comprar revistas, às vezes repetidas, a ser fiel cliente do Janeca do Quiosque e foi metendo conversa.
Uma coisa leva a outra e lá descobriu que a moça tinha por nome Jacinta.
Jacinta... ai que flor de moça, pensava!
Ja-cinta; Já-sinta... já sentia o cheiro dela, mesmo ao longe, da janela, quando passava na rua...
Mais adiante não ia. Isto é: querer, quereria! Mas é que não se atrevia a pisar ao mesmo tempo que ela as pedrinhas da calçada.
De noite é que eram elas!
O pobre já tinha olheiras, sonhava, que não dormia.
Sonhava com tantas coisas que nem posso descrevê-las!
Um dia a linda moça não é que lhe bate à porta?!
Truz-truz-truz!
- Quem vem lá? – Perguntou ele, arrepiado que nem um gato.
- Sou a Jacinta, senhor Óscar, faça favor de chegar à janela, que quero dizer-lhe uma coisa!
Ai quer-me dizer uma coisa... pensou o Óscar e ia-lhe dando outra, ali mesmo, enquanto abria a vidraça.
- Ora viva, menina Jacinta, que já sei a sua graça! Que me quer a senhorita?

E todo ele se curvava, as mãos convulsas agarradas ao peitoril, os nós dos dedos brancos, com medo de cair, com medo de saltar, de alçar a perna esquecendo-se da altura... não era muita; mas para quem o único desporto era comprar revistas, a queda era certa.
- Sabe, senhor Óscar?! Sei que o senhor comprou um folheto de modas que eu muito procuro e era o último que o Janeca do Quiosque lá tinha... tinha o feitio de uma blusa com folho na golinha... será que o senhor que me o empresta?
- Ó menina Jacinta, até lha faço, ora essa!
Entre, entre, faça obséquio! Não repare na modéstia da casa, já vê, sou um homem solteiro...
E tremia-lhe a mão no trinco, afastava-se para o lado só uma fresta, convidando a moça a entrar por ela... e a moça, que não se ralava com frestas, entrava, um pouquinho à força, roçando o peito de repente atrevido do Óscar, que escutava o coração lá dentro, ecoando em toda a casa
Tum-tum-tum-tum!
- A menina sente-se na sala, que eu vou buscar a revista.
- Ora muito agradecida! – Retorquiu ela – e assomou-se à janela.
- Com que então é daqui que tu me comes com os olhos todas as tardes, e nem os tens para me dizeres bons-dias!
Ele apareceu com folhas várias, dispersas, nas mãos trémulas.
- Veja! Veja à sua vontade! Escolha qual é a tal que procura,
ia dizendo, porque não se achava, perdido de todo, numa hesitação desvairada, com vontade de ser folha desfolhada.
- E já escolheu o tecido, a menina?!
- Porque pergunta? Sua mãe é costureira?
- Eu vivo sozinho, menina. É que ia buscar a fita métrica, fazia-se o molde à medida...
- Está bem lembrado, sim senhor! Vá buscar a fita, vá lá, senhor Óscar, e tenha cuidado não caia, olhe que tropeça!
Tropeçava. Tropeçava em tudo: na esquina da mesa, na ponta do tapete, na biqueira da bota, malvada! Até a bota conspirava contra ele nesta hora, quem diria!
A fita métrica... ora onde teria ele uma bendita fita métrica, que se enrolasse à volta de uma cintura?!
Tinha uma de alumínio... serviria?!
Revirou a caixa das ferramentas e veio de lá com uma fita extensível.
- Ó menina Jacinta, acha que presta, esta fita?
Ora se me permite... e espero que me permita!
- Permito, sussurrou ela, levantando ambos os braços: Ora meça!
- Ora meça... Homessa, se meço!
- Meço e não só!
- Meço, teço, ai que desta é que me atiro!
E foi-se chegando, chegando... ela esperando, esperando... ah como é infinito às vezes o tempo...
Mas chega sempre o momento de dar o primeiro beijo!





Maria Petronilho
Enviado por Maria Petronilho em 03/10/2005
Reeditado em 06/12/2006
Código do texto: T56243
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Maria Petronilho
Almada - Setúbal - Portugal, 64 anos
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