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O NAMORADO DA FÁTIMA.


      O nome era Clayton, mas todos o conheciam por Clay, assim mesmo com y no final. Lembro bem da figura. Cabelos claros,olhos azuis, um tipo assim meio grandalhão, puxando para o alemão. Sequer cheguei a conversar com ele.Não obstante, ele sim  era tema de nossas conversas de adolescentes, uma espécie de ídolo, exemplo de alguém de sucesso.Não obstante, o que se conhecia dele era bem pouco.Tratava-se de um tipo calado, enigmático, fechado mesmo.

      Sabia-se, por exemplo, na época que ele era namorado da Fátima, moça belíssima que morava no bairro. O irmão dela era nosso conhecido e amigo do meu irmão mais novo. Quase tudo que sei dele foi através dos papos e comentários “pescados” das conversas entre os dois. O resto é pura fantasia, imaginação.

     Segundo eles, o Clay trabalhava em S.Paulo, executivo na  área de investimento e finanças. Bem de vida, dedicava-se ao automobilismo como “hobby”, pilotando no fim de semana no autódromo de Interlagos. Alguns dias da semana, porém, vinha para Santos onde desfilava nas ruas do bairro com seu carro, um belíssimo Chevrolet Bel-Air, vermelho e branco, modelo 1957.

      Tivera no início um quase profissionalismo como piloto de Fórmula Turismo, chegando mesmo a disputar um campeonato paulista da modalidade, com relativo sucesso. Fizera  também incursões pelo Kart, categoria onde se formam a maioria dos pilotos de sucesso. Para o Clay foi também onde tudo começou.

      Até que um dia aconteceu o acidente, que o fez  retirar-se das pistas para sempre. Pura fatalidade.  Ocorreu  num treino recreativo, uma brincadeira entre pilotos que resolveram disputar um “racha” no kartódromo. Durante a disputa, um dos karts bateu numa pedra solta  na pista que, resvalando foi  lançada diretamente contra o rosto do Clay, atingindo-o em uma das vistas, perfurando-a. Uma tragédia que mudou totalmente a vida dele.

     Passou a utilizar óculos escuros do tipo "ray-ban"
 mesmo durante a noite, visando ocultar a prótese que fora obrigado a usar para preencher a cavidade ocular. Parcialmente cego, tornou-se amargo, irritadiço, chegando mesmo a romper por uns tempos o seu namoro com a Fátima.
O problema afetou até sua vida profissional, acabou perdendo o  emprego que tinha  numa financeira da Capital. Tempos depois, tentando continuar na área,  abriu uma firma de assessoria de investimentos, que bem ou mal tocava daí  pra frente.
     
      Ah! Eu ia me esquecendo, casou-se com a Fátima.

      O tempo passou e também a adolescência. Nunca mais o vi , nem sequer ouvi falar mais dele. Até que recentemente, passando por acaso numa das ruas do bairro onde morei, encontrei-o. Estava num ponto de Táxi. Não me reconheceu. O Clay - piloto de corridas - agora é taxista! Passei devagar pelo local, não deixando de relembrar o passado, ao ver  aquela figura grisalha, sofrida e alquebrada. Mesmo sem querer  não pude deixar de comparar com o jovem executivo, piloto de sucesso, que um dia invejara...
EMILIO CARLOS ALVES
Enviado por EMILIO CARLOS ALVES em 04/10/2005
Código do texto: T56407
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Sobre o autor
EMILIO CARLOS ALVES
Santos - São Paulo - Brasil, 69 anos
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EMILIO CARLOS ALVES