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bala na agulha

Bala na agulha

Era visto como um periculoso. Refletia o retrovisor do carro um gesto automático, subir o vidro imediatamente. Na fila pro Metrô prendiam firme a bolsa ao subaco. Queria uma ou duas moedas. – Hoje eu como sanduíche de mortadela! Queria ter um carro e um tênis de marca. Quantas as vezes na madrugada pulava o muro. A mão estendida dedos curtos unha suja, ofegante.

Todos os dias a perseguição, guarda, segurança, vigilante. Não agüento mais. Para baixo e pra cima aprontando, com o dom de dar pião nas autoridades. “Atrevido! Até na Vila faz isto!” O terror da bomboniere.
Não, jogar bola nem pensar, escola jamais, não sabe o significado da palavra brincar. Seu negócio era aprontar, assustar a nobreza. Uma perua branca o cruzava quase todos os dias no Centro da cidade, hora do almoço. Grudava a bolsa de coro ao corpo tremendo os lábios finos e rosados. Apressada feita mula manca equilibrando-se ao Luis quinze. O suor gelado queimava a maquiagem. Rotineiros cinco minutos de inferno astral. Quase morre de congestão. -Não é para tanto, resmunga o transeunte. Uma velhinha triste de pele escura com profundas olheiras largada ao pontilhão, na mão uma canequinha de alumínio. Uma moedinha de dez centavos, plimm, o som da penitência. A perua respirou aliviada.

No dia de Natal levou para casa um panetone de meio kilo, foi uma festa. A mãe faxineira de uma escola pública assistia ao banquete pensativa. Todos os filhos com menos de quatorze anos. Sem auto estima não se atreve a degustar, sabe muito bem donde vem a presa. Ele rapidamente engoliu um pedaço, tomou um gole de suco, se despediu com sorriso amarelo.

Queria sair desta dura rotina. O cheiro do frango assado na padaria causa-lhe sensações adversas aquelas do Metrô, Centro da Cidade, a careta da tiazinha da bomboniere. Sempre retorna tarde ao lar, o sereno da noite arrepia os bracinhos desprotegidos. Desce a ruela escorregadia, segue uma viela de terra. O latido do cachorro mistura-se a sinfonias dos gafanhotos e sapos, o vento gelado no rosto provoca espirros, entra pelo corredor entre madeirites, pula o muro para encurtar o caminho. Com voz rouca pede a benção. – Hoje rendeu! Recebeu da mãe um prato de arroz e uma blusa limpa, sentou-se no colchão, descansa em cima da mesa uma caixa de papelão, deliciosas balas de goma.
Góes
Enviado por Góes em 10/10/2005
Código do texto: T58483
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Sobre o autor
Góes
São Paulo - São Paulo - Brasil, 42 anos
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