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Suave toque das sombras

Encontrei uma pedra:
dura, fria;
e ali me sentei, esperando e pensando:
como demora a luz do amanhecer!
Pe. Francesco Cavazzuti
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Hoje é pura festa. Eu e meu irmão conseguimos juntos um grande triunfo. Passamos no vestibular! Justo nós, os ‘pobres’ renegados pelos (des) conhecidos, que desacreditaram em nosso potencial. Estão todos reunidos na sala de estar. Ouço vozes, gargalhadas, música... Tio Pedro conta vantagem para seus cunhados que fingem que acreditam em seus desvarios. No sofá minhas primas circulam na tríade homens-colégio-televisão. E por cada pessoa que passo me cumprimenta admirada com aquela expressão de quem engoliu a seco. Meu irmão, como sempre fazendo a festa das crianças. Ele sempre foi criativo com as brincadeiras. Tem um trato com os pequenos que ora parece um deles, ora parece a mãe de todos. Paro e observo meu irmão. Ele está no meio conduzindo a roda. Faz mímica, as crianças tentam adivinhar. Logo descobrem e todos caem na risada. Nossa como ele é bom com as artes! Eu adoraria poder ter um único feixe de luz para contemplar uma única apresentação que seja. Como é gostoso quando ele se aproxima de mim e faz mímica à minha frente, de forma que posso tocá-lo. Ah! O que seria de mim sem meu irmão? Trevas sem alegria. Certamente. Sua sabedoria me fascina. Ele parece não sofrer com sua doença. Sempre diz que teve sorte de possuir um cromossomo a mais. Isto o torna especial. Especial! Odeio este eufemismo barato para expressar incapacidade. Mergulhada em meus pensamentos, sinto o aroma de fragrância cítrica. Tia Flor chegou, mais uma vez encantando o ambiente. Nunca vi alguém combinar tanto com o nome como tia Flor. Ela é elegantemente colorida, irradiando vida por onde passa. Fora uma das pessoas mais importantes de minha vida. Devo muito a ela, inclusive o fato de ter chegado à universidade. Meus pais sempre nos apoiaram desde o começo. Porém sentiam-se abalados por não terem dado a saúde que queriam para seus filhos. Desde pequena percebo o sentimento de fracasso que assola os dois. E tia Flor nunca os deixou fraquejar. E juntos, nós quatro batalhamos duro para que eu e meu irmão nos desenvolvêssemos de forma mais normal possível.
Já é cedo, enfrentamos mais uma vez o horário de verão para ir à aula. A primeira do Ensino Superior! Papai e mamãe estão juntos conosco. Sinto a delicada mão de minha mãe a retocar meus cabelos. Ela questiona sobre meu material, caderno, caneta, dinheiro ... Acho que ela ainda não percebeu que cresci! Agora é a vez de Lucas a passar pelo interrogatório. Finalmente chegamos! Nós dois entramos juntos no campus, de mãos dadas, eu com minha bengala e ele com aquele sorriso que ouço sempre que ele está muito feliz. De repente o seu sorriso cessa. E sinto suas mãos suarem. Questiono o que acontecera e ele responde de súbito “Não é nada!” Mas eu sei que algo está errado. Nós dois devemos ser o centro da unidade. E sinto algo de negativo no ambiente. Aperto sua mão. Agora é minha vez de dizer “Eu estou contigo!” Ele se acalma e caminhamos para a sala de aula.
Todos já na sala de aula esperamos o professor, todos estão se conhecendo e conversando. Ainda alguns comentam e apontam para nós disfarçadamente. Sinto o movimento de alguém que se aproxima. Usa um perfume madeira muito sedutor. Ele se aproxima e puxa conversa. Chama-se Daniel e conversamos muito até a chegada do novo professor que se apresenta grosseiramente. Ele vira para mim logo de cara e reclama dos óculos escuros. O cara pergunta ainda com ironia se pretendo laçar alguém com os óculos. Vê se pode! Me senti ameaçada. Mas respirei fundo, pensei em meu irmão e todo apoio que ele me dera e respondi a altura: “Não, é cegueira congênita mesmo! Algum problema?” Desconcertado ele entra em choque por alguns segundos e tentando conter a situação. Simplesmente retorna à aula como se nada tivesse acontecido. Porém aconteceu.
Finalmente chega o intervalo e Lucas vai ao banheiro deixando-me sozinha. Daí o Daniel se aproxima e recomeçamos a conversar. Ele põe suas mãos sobre as minhas. Posso sentir sua firmeza e calor. E me convida para sair. Ele sugere o Bosque dos Buritis. E eu aceito o convite.
Ao chegar no bosque, sinto novamente o perfume amadeirado. Num sorriso digo seu nome e ele assustado me pergunta como sei. Com ar misterioso lhe pergunto se quer mesmo desvendar os meus segredos. Daniel sorri lindamente. Caminhamos pelo bosque e ele comenta que sou muito bonita. Retruco dizendo que ele também o é. Daniel sorri e diz que não posso vê-lo, daí não poder falar sobre beleza. Sinto-me novamente encurralada. Tenho que compreender que é uma realidade desconhecida para ele. Sorrio e digo que vejo melhor do que ele, pois meus olhos são mais variados. Abro meus braços e digo: “Meus olhos estão aqui!” Toco meu nariz e digo eu vejo pelo odor. Toco meus ouvidos e digo eu vejo pelo som e erguendo as mãos num movimento de “louvor” e em seguida tocando com carinho o rosto de Daniel, digo: eu vejo com o toque. Ele pára, pensa e devolve dizendo que deve ser triste ser cego por não poder ver o mundo, por não poder sonhar. Digo então que vejo o mundo sim e posso sonhar. Mas o mundo dele é diferente, talvez mais colorido, mas eu sinto coisas que alguém com uma retina perfeita jamais sentiria. Sinto um ar de dúvida nele. Ele me observa pensativo. Talvez esteja dividido entre a piedade e a admiração. O convido a conhecer meu mundo e peço para que ele feche os olhos. Acho que ele não fechou. Levanto-me e passo por trás dele. Com as duas mãos cubro seus olhos bem devagar até tapá-los por completo. “Bem-vindo ao mundo das sombras!” Novamente sinto suas mãos sobre as minhas. Ele ri. Pergunto o que sente e ele responde que está num imenso vazio. Digo para esquecer a luz e as trevas. “Você não tem olhos agora! Sinta o ambiente com o que possui!” Ele pára novamente. E levantando sua fronte ele se silencia e busca o som. “O que sente agora?” “Eu sinto o vento bolinando meu rosto, ouço o barulho dos carros logo a frente e anus cantam à esquerda. Parece que o vento está sacudindo a copa das árvores e uma criança acabou de passar por nós correndo. Sinto o cheiro da grama aparada e o seu perfume. Sinto sua mão sobre a minha face! Ele se vira para mim e solto seus olhos. Se levanta e posso sentir o calor de seu corpo, o seu perfume e o seu desejo. Suas mãos firmes tocam suavemente meus ombros e num convite doce, me puxa suavemente para um abraço e um beijo quente em seus lábios molhados. Entrego-me à luxuria do prazer no toque quente e recatado. Ele olha para mim e diz “Obrigado por existir! E ser excepcionalmente você!” Dou-lhe outro beijo, na face, e sussurro ao seu ouvido “Obrigado a você!” E sorrimos em cumplicidade. Nos conhecemos a poucas horas mas nos confidenciamos como velhos companheiros.
Ele me convidou a sentar e com minhas mãos aninhadas entre a sua ele me perguntou: “Como é viver na sociedade? Você sofre com o preconceito?” Sorri pela ingenuidade da pergunta e pela sinceridade da preocupação. Parei, pensei até começar a falar: “Ainda hoje os cidadãos que pertencem a minorias da sociedade sofrem toda sorte de discriminação por sua origem étnica, preferência política, orientação sexual, por sinais particulares ou por suas patologias e limitações físicas. A verdade é que a maior parte desta discriminação ocorre camuflada, inserida na cultura, nos olhares, na falsa piedade de forma até quase imperceptível. Somente as vítimas desta pressão silenciosa pode perceber sua grandiosidade invisível. Sentindo na pele o drama vivido pelos insólitos humanos. Apresentando um novo olhar para o outro, aquele que é meu diferente, porém meu semelhante.
Se as pessoas deixassem seus palácios de espelhos e procurassem vislumbrar valores que ultrapassam o sentido da limitação. Percebendo assim que todos vivemos na mesma cidadela dos imperfeitos e que as diferenças não são defeitos e sim peculiaridades, teríamos um mundo mais gostoso para se viver.” “É! Seria realmente bom! Mas isto é impossível. Acho que nunca alguém poderia mudar a mente de todas as pessoas!” Realmente! De todas as pessoas não é possível, mas se conseguir mudar sua própria já será um grande triunfo. Meu irmão compôs um poema que me fez acreditar nos sonhos. Imagine todas as pessoas à sua volta/Uma cuidando da outra,/Respeitando-se mutuamente;/ Cada uma podendo ser igualmente diferente/ Sem medos, sem máscaras, sem ofensas./ Amigos e desconhecidos dando-se as mãos,/ Defendendo o bem comum,/ Formando juntos a Sociedade do Amor./ Uma sociedade em que um apóia o outro/ Crescendo todos juntos./ Consolidando a autoconfiança de cada pessoa/ Sendo você o primeiro a enamorar-se de si./ Mas não deixará de amar o outro (e os outros)./ É fácil se você tentar./ Isto parece utópico,/ Mas é ideal e real./ Tente, em seu meio ao menos/ Semear o amor./ E você sentirá os benefícios./ Terá alguns obstáculos,/ Mas não será difícil. Não precisa mudar o mundo, Mas mude a si mesmo. Assim os seus também mudarão/ E a paz e o amor prevalecerão.
Paulo Marques
Enviado por Paulo Marques em 23/08/2007
Código do texto: T619668
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Sobre o autor
Paulo Marques
Goiânia - Goiás - Brasil, 35 anos
50 textos (20095 leituras)
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