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ÚLTIMOS DIAS

07 de Janeiro de 2007

Acorda sobressaltado, ao som dos caminhões de lixo que estão passando pelo local. Não sabe como tinha ido parar ali, em meio às latas de lixo, fedendo e cheirando mal, como toda aquela sujeira acumulada há dias devido a última greve dos lixeiros. Aliás, todos estavam em greve, naquele momento, dos médicos dos hospitais, que faziam os serviços mais urgentes e deixavam os corredores apinhados de pessoas acometidas pelas mais variadas doenças, como também feridas à bala ou com facas enfiadas pelo corpo, até serviços mais simples, e nem tão necessários hoje em dia, como os correios. O país estava praticamente parado. Então ninguém se importava se um bêbado sujo e estúpido havia passado a noite na rua, até porque sabiam que não haveria lugar para ele nos poucos abrigos de miseráveis existentes na cidade e já entulhados de infelizes.
Levanta-se do chão, limpa-se da poeira e dos restos de alimento azedo e fedorento que tinham se espalhado por todo seu corpo. Arruma o cabelo com as mãos e segue, arrastando sua mizéria e podridão pra quem quisesse ver.
As pessoas nem ligam. Apenas se afastam pra não correrem o risco de se "contaminarem" com tamanha chaga em forma de pessoa e continuam impassíveis caminhando em direção às suas diversas obrigações, bem mais importantes que um vagabundo qualquer perambulando pela rua.
Continua andando por ali, sem destino certo. Precisa comer alguma coisa. Está se sentindo fraco e não sabe quanto tempo ainda vai aguentar....
Passa uma senhora de idade, apertando sua bolsa com toda a força contra os peitos murchos, bem do seu lado. "Só se eu..." pensou, mas logo desistiu da idéia, ao constatar que estava fraco demais pra uma ação daquela natureza e poderia ser facilmente pego pelos malditos "bombados" que rondavam pelo local e tinham ordens expressas da Prefeitura da cidade pra espancar até a morte qualquer malandro que se metesse à besta com eles.
Senta-se num quiosque qualquer da Lagoa. Assim era conhecido aquele ponto turístico e cartão postal da cidade, local bastante frequentado por casais apaixonados de namorados e ilustres pais de família que dividiam à contragosto o local com todo tipo de escroques marginais e prostitutas. Eram dois lados da mesma moeda. Um precisava do outro pra sobreviver e se alimentavam mutuamente.
Ele gostava daquele sabor das manhãs que traziam consigo uma certa nostalgia, só não sabia de quê. Quem sabe já tinha sido feliz algum dia. Ou tudo não passava de uma grande ilusão.
Catou as moedas. Pediu uma dose. Ela desceu queimando pela garganta. Repetiu a dose, depois se levantou e partiu. Tinha muito trabalho a fazer antes que anoitecesse. Quem sabe não poderia comemorar mais tarde e convidaria até uma puta pra participar (Se arrependeu logo da idéia porque sabia que elas faziam questão de gastar todo o seu sofrido dinheirinho e geralmente sempre ficava lhes devendo algum tipo de favor). Dessa vez ia se diferente. Se ele quisesse alguma coisa, elas teriam que implorar. E ele sabia muito bem como convencer uma puta...

09 de Fevereiro de 2007

Foi visto perambulando por uma feira da cidade. Estava mais magro que de costume. No seu rosto só se via ódio e ressentimento contidos. Poderia muito bem atacar aquelas pessoas que faziam compras no local. Currar aquelas velhas senhoras, ali mesmo, na frente dos seus maridos, enquanto eles olhavam impotentes, porque era disso que eles não passavam: uma cambada de impotentes. Impotentes pelo excesso de dinheiro que lhes deixavam com tantas opções do que comprar que ficavam indecisos e saiam sem nada, impotentes pelo excesso de mulheres que tinham de sobra e já não sabiam a que escolher e impotentes pelo conhecimento que esbanjavam com livros inutéis, revistas e jornais chatérrimos enquanto deixavam de viver a vida ao extremo como ela merecia e deveria ser vivida.
Saiu quase correndo de lá antes que fizesse uma besteira.

10 de Março de 2007

Ficou por ali mesmo, deitado. Inerte horas e horas, naquele imenso deserto que era aquela praia, em plena segunda-feira (aonde as pessoas estavam? - pensou - tomara que fiquem por lá.) a desfrutar aquele grande pedaço de terra que ainda não foi tombada pela iniciativa privada. Ali podia ficar sossegado sem que um guardinha filha da puta viesse mostrar serviço e se exibir às suas custas. Ali se sentia quase igual a todo mundo. Pelo menos enquanto não havia ninguém.
Viu um cachorro correndo pela praia. Gostava deles. Apesar de alguns serem agressivos, ele acreditava que eles só faziam isso pra se defender, provavelmente devido à experiências anteriores de surras e maltratos. Assistiu outro dia a uma reportagem que falava das matanças dos golfinhos. Puta que pariu!- pensou- o golfinho não é aquele bichinho meigo e carinhoso, protagonista de filmes bestas e açucarados pra crianças retardadas mentais, que a bicha do Michael Jackson sempre apoiou com unhas ( no caso dele: garras de baitola) e dentes? E porque agora a porra do ser humano tava decretando guerra contra essa espécie? (Imaginou, no futuro, variações de espécies de golfinhos super-agressivas, bem mais sanguinárias e com dentes mais afiados que os dos tubarões).
O cachorro se aproximou dele. Começou a lamber-lhe uma ferida que não cicratizava há uma semana. Sentiu-se o Lázaro dos mizeráveis e bêbados. Quando aquele animal deitou-se ao seu lado, passou a pensar na sua vida em retrospectiva. Como um filme tão ruim e sem graça que só valia a pena recapitular algumas partes.
Quando foi expulso da sua casa por envolvimento com drogas; quando encontrou amigos que o acolheram e principalmente uma família em espécial que lhe fez reavaliar o seu conceito de amizade, já há muito tempo destruído pelas porradas da vida e quando perdeu o emprego, aquele maldito emprego em que lhe exploravam e o faziam trabalhar mais do que 18 horas por dia, mal dando tempo pra engolir o almoço e ainda tachando-o de mal funcionário quando, na verdade, não davam a menor chance pra ele crescer naquela porra de empresa. Em parte achava que a terrível gastrite crônica que tinha e que o fez afundar tanto nas drogas, devido às dores que sentia, tinha começado a se desenvolver naquele ambiente de trabalho mesquinho e aproveitador.
Depois disso voltou a si. A realidade. Já tinha deixado o passado pra trás a muito tempo. Junto com todo fracasso e auto piedade que ele continha.
Agora era o rei dos bêbados e dos miseráveis. Aquele que fazia o que queria e não importava o que os outros pensassem. Sempre se saia bem das situações mais inusitadas. E era um verdadeiro líder de um bando de bêbados e marginais fracassados iguais a ele. Disso se orgulhava. Era com quem queria estar. Com quem se sentia a vontade. Sentia-se ele mesmo.

23 de Abril de 2007

O cachorro não lhe deixou mais, depois daquele dia. Abandonado em seus pensamentos, ainda foi visto na praia, inúmeras vezes, sempre com uma garrafa de vodka na mão, ou uísque, quando lhe davam, com seu fiel escudeiro ao lado, com o olhar perdido na imensidão do horizonte. Tornou-se parte da paisagem local. Assim como as palmeiras, que balançavam ao sabor do vento, e os bustos horrendos, com aquelas figuras tristes e melancólicas, que haviam em quase todos os lugares, e que reproduziam os rostos de pessoas que haviam feito alguma coisa, a gente só não sabia o quê.
E ficava lá, a passear com seu cão. E, no seu olhar, já não havia ódio, apenas uma espécie de tristeza, que era dissimulada com um sorriso, poucas vezes, quando alguém lhe fazia gentilezas lhe trazendo um prato de comida ou alguma garrafa de bebida.
Alguém lhe sugeriu que escrevesse um livro, contando suas andanças e todos os seus pensamentos, pois certa vez, quando houve um luau na praia, sentaram-se ao seu lado e pediram-lhe para que ele contasse alguma história, o que de início lhe aborreceu, mas depois resolveu dar um desconto (talvez pela quantidade de bebida que havia tomado).
E começou a contar uma história, usando seu cachorro como exemplo. Disse que o ser humano corria demais, e se achava muito esperto, mas que na verdade, o segredo estava em ficar parado e deixar a coisa rolar... Enquanto ele falava, algumas pessoas gargalhavam, mas um jovem em especial, ouvia, atento, a cada palavra que saia daquela boca desdentada e que só exalava álcool.
Parece que o tal rapaz era poeta e a muito tempo buscava uma inspiração para publicar uma espécie de antologia pela editora da universidade que frequentava.
Não sei porque razão, o jovem se interessou pelo pobre mizerável, mas colocou na cabeça que, de alguma maneira, tranformaria aquele bêbado anônimo e imprestável, numa espécie de poeta marginalizado. Quanto a ele, só queria que os jovens parassem de falar e de tocar aquela música irritante e, se quisessem ajudá-lo de alguma maneira, comprassem mais uma garrafa de bebida pra ele.
Atendido o pedido do velho, eles finalmente se retiraram, prometendo, o jovem, que voltaria um dia, com papel e caneta em mãos, pra anotar algumas coisas e pôr a sua idéia em prática.
Quando já se retiravam o jovem deu meia volta e perguntou:
-Ei, meu velho! O senhor nem me disse qual é o seu nome!
-Ah, meu filho, a essa altura do campeonato você acha que eu me lembro? Me chama do que quizer, porra! - Disparou o ébrio, feio e taciturno velho.
O jovem retirou-se decepcionado.

07 de Maio de 2007

Manhã fria de verão. O vento sopra com violência na praia, deixando os turistas e frequentadores assíduos, em casa, o que a deixavam ainda mais deserta. O cachorro passeava por ali como de costume. Tinha um playground enorme à sua frente. O mundo era seu. Não precisava ler livros, estudar, trabalhar, ter responsabilidade com filhos, apenas transava com quantas cadelas quisesse, depois ia embora, sem ter problemas com relacionamentos amorosos nem com amigos. Já vinha com tudo pronto. Nascia e arrastava sua existência lentamente sem se preocupar com compromissos e obrigações. Talvez fosse feliz.
Quando voltou do passeio encontrou tudo como sempre estava: os trapos velhos de roupa encardidos e fedorentos que não viam um sabão há dias, um colchão fino e todo rasgado, algumas roupas surradas e a velha caneca de alumínio do seu dono. Até ele estava igual, sempre deitado a uma hora daquelas, de bruços, rosto virado para o lado , com exceção de um liquido estranho e vermelho que escorria em grande quantidade pela sua boca.
O cachorro ficou lá. O tempo inteiro deitado ao lado do seu dono. E foi com grande esforço que os funcionários do IML conseguiram retirá-lo do local.
Geraldo Castro
Enviado por Geraldo Castro em 24/08/2007
Código do texto: T622503

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Sobre o autor
Geraldo Castro
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 38 anos
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