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BOCA MALDITA

-Levanta-te, em nome de Jesus!
E é com essa ordem dos céus que o Pastor, aos berros, tenta me levantar da cama naquele dia.
A minha mãe havia chamado o pastor da igreja universal com o intento de exorcisar o seu pobre filho dos inúmeros "espíritos" que há muito tempo lhe atormentavam.
Esses "espíritos" eram zombeteiros pois gostavam de rock e bastante anti-sociais porque já fazia semanas que eu me encontrava num quadro de depressão profunda.
Na época a minha aparência não deixava nada a desejar em comparação a um bom filme de terror: eu era extremamente magro, beirando a desnutrição; o cabelo estava tão grande e desgrenhado que daria para esconder pequenos objetos dentro dele; e, como um grande pomar regado diariamente, ele só crescia verticalmente.
Foi nessa situação que o Pastor me encontrou, deitado de bruços, naquela cama.
Um pouco de gelo seco e um pouquinho de vômito verde era o que faltava para deixar aquela cena mais assustadora.
-Levanta-te, eu já disse! É o próprio Deus que, usando de seu servo humilde e obediente, te ordena!
Diante desse imperativo divino foi com muita dificuldade que eu consegui me levantar tentando vencer a sonolência que ainda me dominava.
Quando já estou em pé diante dele, ele começa com os procedimentos de praxe:
-Eu te ordeno, Satanás! Em nome de Jesus abandone esse corpo que não te pertence!
É aí que eu começo a sentir uma das piores sensações da minha vida: se não bastasse a pressão violenta com que o Pastor apertava minha cabeça, ele agora começava um novo ritual que acompanharia todo resto daquela sessão: a cada palavra que ele emitia, eu recebia com grande nojo e aversão uma saraivada de cuspes de uma boca imunda cujo mal-hálito já se fazia sentir à distância, desde que ele havia entrado no meu quarto.
Foi cuspe pra tudo que é lado: nos braços, nas pernas, na barriga, mas na sua grande maioria, atingia aos turbilhões o meu rosto e só me restava proteger a boca, como último reduto inatingido pela chuva ácida e fedorenta daquele esgoto imundo e abissal.
Vendo que eu não esboçava nenhuma reação sobrenatural às suas preces como levitar, vomitar um líquido verde e gosmento, mover objetos, virar a cabeça pra trás ou coisa que o valha, ele iniciou uma série de perguntas de cunho espiritual e religioso às quais eu respondia com a maior presteza sempre com um "sim" ou "eu aceito" com a única intenção de abreviar o mais rápido possível aquela sessão de tortura.
Conformado, tranquilo e ciente do seu feito e com aquela sensação de missão cumprida o Pastor olha pra mim com aquela cara de gozo espiritual e me pergunta:
-E agora irmão, se sente melhor?
-sim, Pastor.
-Se sente mais leve agora?
-Muito, Pastor.
E dispara a sentença:
-Agora, irmão, a casa tá limpa. Agora você só precisa continuar varrendo com a vassoura do espírito, que é a bíblia, que a casa vai continuar limpa.
Enquanto isso, eu pensava comigo mesmo: "A única coisa que precisa de uma limpeza completa e urgente é a boca do Pastor. o que seria pior do que um bafo podre e fétido e uma torrencial chuva de cuspe?
Ele continuou com um discurso chato e enfadonho que eu vou fazer o favor de não transcrever aqui e assim que terminou me fez prometer:
-Você vai pra igreja hoje à noite não vai, irmão? (A sua voz tinha um certo tom de autoridade e ameaça).
-Claro que vou, Pastor. Consenti. (Minha voz era um desânimo só. Ele não percebia ou não se importava com isso. Daria um jeito pra me livrar dessa promessa de uma maneira ou de outra).
Despediu-se da minha mãe com um efusivo aperto de mão e foi-se abruptamente, da mesma maneira que chegou, deixando um mal-cheiro insuportável no quarto tal qual esgoto a céu aberto que talvez nem o melhor dos perfumes poderia amenizar.
E lá fiquei eu em pé, no quarto, completamente encharcado e humilhado depois de horas e horas de uma sessão em que eu não vi, nem imagino que ele tenha visto, nada. Me perguntando o que havia de errado comigo ou se quem precisaria de ajuda de verdade não seria o Pastor: uma boa escova de dentes, ou um tratamento odontológico completo.
A única manifestação sobrenatural que eu havia sentido foram as exalações diabólicas, de tão fedorentas que eram, emanadas daquela verdadeira vala entupida repleta de toneladas de merda.
Fiquei, ainda por um tempo, ali em pé, só depois voltei a me deitar. O rádio embaixo da cama, botei uma música legal pra tocar e voltei a me sentir em paz. Não precisava de pastores, não precisava de igrejas, só precisava ficar ali quieto comigo mesmo. Só o som do rádio atravessando suavemente o estrado da cama...
Enquanto isso o Pastor e seus obreiros já haviam colocado sal grosso na calçada de toda vizinhança (mal-olhado nunca fez bem pra ninguém, não é verdade?) e faziam os preparativos para a grande noite.
As ovelhas, por sua vez, tocavam suas vidas em casa, nos hospitais, nos colégios e escritórios ou matavam o tempo como podiam, só aguardando a grande hora em que se confrontariam com seu destino: seriam sacrificadas, tosquiadas ou caminhariam cegamente sempre em linha reta e atrás do seu grande Pastor.
Eu aconselharia, antes de tudo, que elas nunca se esquecessem de levar uma coisa... um guarda chuva.
Geraldo Castro
Enviado por Geraldo Castro em 24/08/2007
Código do texto: T622512

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Sobre o autor
Geraldo Castro
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 38 anos
10 textos (1612 leituras)
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