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BALDE DE MERDA

O pai dele disse:
-Acorda, vagabundo, você tem que ir pra escola! ou você quer ser um ninguém a vida inteira?
Então Tibúrcio levanta sonolento, à muito custo, esbarrando pelos móveis do quarto e tentando engolir alguma coisa que mal desce pela garganta porque o seu sistema digestivo ainda está dormindo.
Sai na rua e ainda está amanhecendo, milhares de pessoas se matando para chegar aos seus objetivos, ele está lá entre elas só que, ao contrário delas, ele bem que adoraria não chegar aonde estava indo...
Qunado chega no colégio, encontra uma centena de retardados mentais tão animados e dispostos a aprender alguma coisa quanto ele: alguns até babam, dormindo profundamente, sobre suas carteiras, outros desenham figuras disformes nos cadernos e os mais legais inventaram alguma doença pra ficar em casa.
Não sei se isso acontece normalmente com outras pessoas, mas com ele era tiro e queda: sempre que chegava num novo colégio parece que haviam enviado, como de encomenda, uma pessoa direta do inferno, ou de um desses filmes de gângsteres, ou quem sabe da máfia italiana, pra lhe atanazar.
Era só bater o olho no cara e já sabia: seria esse o infeliz que o atormentaria por todo ano.
O ódio que Tibúrcio nutria no seu coração era tamanho que podia, facilmente, arrebentar, desmembrar, esquartejar, destruir rápidamente com aquele palhaço que o ameaçava, mas não sabia porque motivo tanta raiva e desprezo não conseguiam ser transmitidos do seu cérebro para seus punhos.
E ficava lá xingando o desgraçado, chamando de toda sorte de nomes, mas sabia que se não fosse a menina, que tinha pena e grande amizade por ele, seria facilmente massacrado, ali mesmo, na frente de todos.

-Acorda, seu preguiçoso - Disse sua mãe - Já são 05:00 hs! Levanta, que eu vou fazer teu café.
Era assim que Tibúrcio se levantava todas as manhãs tentando se recuperar do dia anterior, cheio de ressaca e com aquele característico gosto de cabo de guarda-chuva na garganta.
Quando conseguia tomar alguma coisa, geralmente era um copo de água, pois sabia muito bem, das suas experiências anteriores, que qualquer alimento sólido seria prontamente rejeitado pelo seu estômago inflamado, castigado pelas inúmeras cervejas do dia anterior, e terminaria sendo expelido completamente no vaso sanitário.
Saia na rua se sentindo leve, até demais, quase chegando à tontura, com suas mãos gélidas e formigando achando que poderia desmaiar a qualquer momento. Por falar nisso, essa sensação já o acompanhava a alguns dias.
Ficava na parada de ônibus desejando ardentemente que ele não viesse tão lotado como de costume e tivesse ao menos condições de ficar nem que fosse no batente da entrada, sufocando e sendo apertado por dezenas de pessoas contra a porta, pois sabia que só assim poderia chegar ao trabalho.
Já tinha passado por vários apuros nos ônibus, por isso passou a adquirir verdadeiro pânico só de pensar em tomar um coletivo.
Certa vez, quando fazia um tratamento de gastrite, Tibúrcio teve que tomar antibióticos fortíssimos para combater uma determinada bactéria que havia no seu organismo e que no futuro poderia lhe causar uma úlcera.
Um desses medicamentos funcionava como uma verdadeira bomba-relógio cujos efeitos, após tomá-lo, evoluiam progressivamente até atingirem um patamar impossível de ser controlado e o seu final era certo: merda pra tudo que é lado.
Tibúrcio tomou o tal comprimido antes de sair de casa mas os seus efeitos só se fizeram sentir fortemente quando já estava na br 230 à quilômetros e quilômetros de casa, na estrada de Cabedelo.
O que começou como um gás silencioso e fecal, foi evoluindo e formando pequenas explosões seguidas de merda que queimavam como ácido e começaram a sujar a sua cueca por inteiro.
Tinha passado de um supermercado, portanto deu meia volta, tentando se dirigir rapidamente ao banheiro masculino.
Por azar ele estava lotado de funcionários da limpeza que estavam dando uma verdadeira geral no ambiente, então teve que se retirar.
Voltou para estrada apressado, mas já era tarde demais: não conseguiu controlar quando o primeiro jato de merda desceu em profusão pela cueca e começou a invadir a calça pela virilha, chegando às pernas e, por fim, até o seu sapato ficou cheio de bosta liquida.
Foi quando, num último gesto desesperado, Tibúrcio tomou o primeiro ônibus que passou pela sua frente, pois não podia ir ao trabalho daquele jeito, como se não bastassem as ressacas, os porres, a barba mal feita, as olheiras eternas que mais pareciam a máscara do zorro e o mal jeito com que se vestia, chegar todo sujo de merda seria a gota d´água que com certeza lhe faria assinar o aviso prévio.
E foi assim que ele entrou no ônibus. Estava relativamente vazio. "Ainda bem!" Pensou. só com algumas pessoas que se alternavam nos bancos da frente.
Lá atrás só tinha ele. Ele e o cobrador.
Foi quando o cheiro começou a se alastrar.
De repente um vento leve, que mais parecia uma brisa, fez o cheiro ruim do ambiente se confundir com o das bostas de cavalo que havia pela estrada.
Depois ficou nítido. Não tinha pra onde correr. Existia alguma coisa de muito podre ou estragada naquele ônibus e fosse o que fosse estava ali, parada, inerte, imunda e fedorenta a compartilhar o seu mal-cheiro com todos os passageiros do ônibus.
Por sorte o vento forte e a velocidade do ônibus não permitiam identificar com precisão o foco de tamanha imundície.
Foi aí que o cobrador, já sufocado, fungando feito louco, igual a cachorro quando sente um cheiro estranho no ar, cansado de rejeitar como podia o mal cheiro que insistia em penetrar nas suas narinas, fez o seguinte apelo desesperado:
-PUTA MERDA, TÁ CAGADO! TEM GENTE CAGADO DENTRO DO ÔNIBUS! PELO AMOR DE DEUS, MEU AMIGO! PONHA A MÃO NA CONSCIÊNCIA! DESÇA DO ÔNIBUS E TERMINE DE CAGAR NO BANHEIRO PÚBLICO MAIS PRÓXIMO!
Então, tomado de vergonha, Tibúrcio deixou seu lápis cair, o que fez com que rolasse pelo batente de entrada do ônibus passando por uma pequena fresta na porta e se espatifasse na rua. Foi quando o cobrador se virou pra olhar que ele tomou coragem e se levantou em direção à roleta, passou apressado sem nem olhar o cobrador, puxou logo o fio e desceu na próxima parada, deixando pra trás um cheiro terrível de carniça talvez apenas comparável a um corpo em adiantado estado de decomposição.
Quando desceu na rua, Tibúrcio já se sentia mais aliviado, embora ainda suscitasse olhares apressados e rostos fazendo careta ao passarem por ele, como se houvesse uma grande placa luminosa com uma seta, ao seu lado, dizendo: "GRANDE BALDE DE MERDA". Ele havia se tornado um caminhão de bosta ambulante.
Foi então que respirou, enchendo de ar os seus pulmões, e decidiu abreviar de uma vez o seu sofrimento correndo até chegar em casa.
E lá se foi: um caminhão de dejetos e excrementos espalhando uma fumaça fétida e imunda por onde passava.
Chegou em casa apressado, abriu o portão e entrou.
Alguém pergunta:
-O que foi que houve?
-Nada, tô cagado.
No bojo, jatos e mais jatos de tolete dão sequência ao ataque fecal que começou na estrada...

-Acorda, Tibúrcio! Tá na hora!
-Cala boca, porra! Eu tô desempregado.
Geraldo Castro
Enviado por Geraldo Castro em 24/08/2007
Código do texto: T622522

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Sobre o autor
Geraldo Castro
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 38 anos
10 textos (1619 leituras)
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