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Grandes Damas

(Esta carta foi escrita há quase dez anos para meu irmão que sofria de câncer e estava em estado terminal. Achei que ela ainda é atual, por isso a trouxe para voces.)


Manaus, 14 de setembro de 1997

Caro Roque

Os meios modernos nos fazem acomodados. Com o telefone perto, a velha e eficiente carta perde seu espaço. Nós então vamos ficando enferrujados até o ponto de nos atrapalharmos seriamente. Este “nós”, evidentemente, é majestático. Eu estou preguiçoso. Tento “dividir” com os demais a minha deficiência.
Ontem, dia 13, fiquei comovido, assistindo os funerais de Madre Tereza de Calcutá. Não em si com a morte de uma anciã, fato por demais  natural e além do mais, neste caso, previsto e esperado. Mas não pude deixar de comparar com outro funeral da Lady Diana. Duas mulheres em extremos opostos. Uma rica, carente em busca do amor. Outra, pobre, espalhando amor para todo o Mundo. São dois exemplos, que nos enriquecem e ajudam a amadurecer a humanidade.
Mas, o que me comoveu não foi isto. O que me tocou foi o comparecimento ao funeral de madre Tereza. O representantes religiosos (que nada tem haver com os católicos) poderiam ter ficado em casa e apresentado condolências formais por escrito. Quem sabe em anúncios pagos em jornais. O que a televisão mostrou não foi isto. Muçulmanos, indus, budistas, xintoístias etc. etc., de viva voz, se despedindo de um espírito que, em vida, talvez tivesse rejeitado estas homenagens. Ao meu ver, isto contém dois pontos positivos. O primeiro. A Igreja Católica, permitir a participação das demais. A Segunda, o próprio comparecimento e a manifestação destas. Isto mostra que o progresso da humanidade, apesar de lento, existe. Se nas Américas, existem cerca de 250 igrejas, ou seitas de  origem cristã; Nos países árabes outro tanto de seitas muçulmanas; Só no Japão, 900 de origem budista; afora xintoístas, confucionistas etc. etc., por este mundo afora. Todas pregando o amor e elevação moral do espírito. Muitas vezes guerreando entre si. Querendo impor o amor pela espada, no velho estilo das cruzadas. Todas tão perto umas das outras, porém separadas por questiúnculas talvez provenientes do egoísmo das lideranças.
Então aparece uma criatura destas. Mulher, pequena e frágil. Não prega nada, mas faz. Provoca uma união que os mais belos discursos ou tratados não conseguiram. Até os muçulmanos. Os budistas então, tidos como ateus, por aqueles que não os conhecem. Unidos em torno do caixão de uma velha mulher, pequena e feia.
Isto tudo acontecendo e ainda tem gente que diz que a humanidade está piorando. Só mesmo para quem não quer ver o bem. Estes exemplos nos fazem crer que no fundo, todos somos caridosos e bons. Precisa sair alguém da miserável Índia para que os bons sentimentos aflorem. As religiões foram transcendidas. Outrora o indiano Mahatma Ghandi também deu exemplo de amor a humanidade. Ele não era cristão. Madre era. Será que faz alguma diferença?  A aproximação entre os povos deve ser mostrada nas regiões pobres, como foi nos outros tempos na pobre Judéia?
Bem, Roque, como você vê, eu também reflito um pouco, as vezes.
Era minha intenção viajar ao sul, agora em outubro. Porém tem tanta coisa no começo que não posso deixar só, por enquanto. Então devo ir somente em janeiro.
Quanto a sua saúde, espero em Deus que não seja tão grave assim. Afinal, nosso corpo, no grande plano, nada mais é do que um uniforme de trabalho. Com o tempo ele gasta e tem que ser aposentado. Espero que isto não precise ser feito já. Mas, há situações em que somos impotentes, e reconhecer a impotência, nos dá forças.

Luiz Lauschner
Enviado por Luiz Lauschner em 31/08/2007
Código do texto: T632895
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Sobre o autor
Luiz Lauschner
Manaus - Amazonas - Brasil, 65 anos
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Luiz Lauschner