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O ADORÁVEL MALUCO

Wilma não reparou no homem que estava sendo atendido ao seu lado no balcão do Banco até quando saíram juntos e caminharam alguns passos lado a lado.

 - Você é viúva, não?
 - Sim!
 - Eu também sou. A viuvez é muito triste, não?
 - É.
 - Faz muito tempo?
 - Três anos.
 - Eu, dois.

Wilma apressou o passo, ele tomou outra direção e ela esqueceu o incidente até quando o telefone tocou:

 - Wilma? É o Edson.
 - Edson? Que Edson?
 - Nós nos encontramos no Banco, lembra-se?
 - Oh, Sim!
(Que será que ele quer?).
 - Eu pensei que talvez você quisesse jantar comigo hoje a noite para a gente se conhecer melhor.
 - Não! Não posso.
 - Outro dia, então?
 - Não. Desculpe mas eu não posso aceitar.
 - É uma pena, pois eu gostei muito de você.
 - Com licença, preciso desligar.

O filho adolescente ouve a conversa e pergunta curioso:
 - Quem era?

Wilma conta tudo a ele. O encontro no Banco e agora esse convite.

Diego protesta:
 - Mãe! Você não vai sair com esse cara, não?

Wilma acha graça na preocupação do filho e fala brincando:
 - Não sei... vou pensar...
 - Você não vai namorar, Mãe!

Wilma zanga-se com ele:
 - Que é isso? Inverteram-se os papeis aqui em casa? Agora é você quem põe os limites?
 - Se você se casar de novo eu vou embora.
 - Vai nada! Deixe de falar bobagem.

Acaba rindo:
 - Estamos brigando por nada. Eu não tenho namorado nenhum nem pretendo me casar de novo.
- Acho bom, mesmo.

Mas, Wilma não esqueceu o tal Edson. Ficou intrigada com ele. Um atrevido, sem dúvida, mas muito esperto. Como é que num simples relance na sua ficha descobriu seu nome, sua condição de viúva e até o número de seu telefone? Quem seria ele? A cidade não era muito grande, não devia haver muitos Edsons. O nome não era muito comum. Ela mesma não conhecera muitos, mas, como ia descobrir quem ele era?

Começou a sentir certo prazer ao relembrar o incidente.
Talvez ele não fosse atrevido, mas determinado, uma pessoa que sabia o que queria e como chegar lá.
 Não conseguia zangar-se com ele.
 Sem saber por que, ele lhe parecera simpático e reencontrá-lo foi se tornando uma obssesão para ela.

No tempo do marido, tiveram muitos amigos, casais que se visitavam com freqüência, faziam programas e viajavam juntos.
Quando ele adoeceu essas relações mudaram, resumindo-se a rápidas visitas e o clássico:
“Se precisar de alguma coisa...”.
Ele faleceu e o Mundo pareceu acabar-se para ela. Só lhe restava o filho. Nada mais a interessava.

Mas, o tempo passa e cicratiza as feridas da alma.
Wilma começou a achar falta dos amigos, dos passeios, porém, já não tinha ambiente.
Sentia-se muito só e as recordações já não a satisfaziam.

Não pensara, até então, em um novo casamento.
Sem querer, foi o Diego que a fez lembrar-se que ainda era muito jovem, podia casar-se novamente, ter outros filhos, voltar a viver.

Diego não ia gostar, mas, até para ele seria bom.
Um dia ia querer ter a sua própria família, sua própria vida e uma velha mãe solitária acabaria se transformando em uma “mala” para ele.

E Wilma determinou-se a encontrar alguém para dividir o resto de sua vida.
Mais precisamente, queria encontrar o Edson, pois por mais que a razão lhe dissesse que ele não passava de um conquistador barato seu coração insistia em acreditar que fora, apenas, meio desajeitado na sua abordagem.

Certa manhã, quando estava no estacionamento de um supermercado acomodando suas compras no porta-malas do carro, alguém se ofereceu:
 - Quer ajuda?
 - Voltou-se.
O homem que estava sorrindo à sua frente como se a conhecesse de longa data pareceu-lhe algo familiar, mas não lembrava de onde o conhecia.

 - Lembra-se de mim? Sou o Edson.
 - Oh! Sim! Parece que nos encontramos no Banco...

Wilma não sabia como portar-se.
Ele era extremamente simpático. Ela gostaria de conhecê-lo melhor, mas não queria parecer uma mulher fácil.

 - Você não se lembra mesmo de mim? O Edson da Áurea?

Wilma lembrou-se então.
Ela e o Henry, a Áurea e o Edson. recém-casados, vizinhos e muito amigos,
Simpatizava muito com o Edson, mas ele era o marido da Áurea e ela estava apaixonada pelo Henry.
Se naquela época um vidente lhe dissesse que um dia receberia uma cantada do Edson, ela acharia que era o maior dos absurdos, e se afirmasse que ela ia se apaixonar por ele, então, nem se fala!
Depois, separaram-se. Henry foi trabalhar em outra cidade, mudaram-se, distanciaram-se dos amigos e acabaram perdendo o contato.
Quando, muitos anos depois voltaram para sua cidade, nem lembraram mais deles.

 - Você disse que é viúvo, então, a Áurea...
 - É... Já faz dois anos. Foi terrível, mas não vamos falar de coisas tristes.
 Meu convite continua em pé. Quer jantar comigo amanhã, no Clube de Campo, um jantar dançante.

Sair com um homem para jantar, dançar! Há quanto tempo não fazia nada semelhante!
Mas, a idéia a fascinava.

O Diego ia chiar, mas que tratasse de baixar a guarda, porque ela ia aceitar o convite, sim.

Riu:
 - Bem, agora você me fez um convite formal e eu vou aceitar.
 Só não sei por que você não contou logo quem era, fez todo aquele suspense...
 - Porque queria testar o meu charme.
 - Você é mesmo maluco!
 - E só agora que você descobriu isso?

Por um momento Wilma lembrou-se de Áurea dizendo:
 - O Edson é um adorável maluco!

Riu consigo mesma:
Adorável, não sei, mas maluco, com toda a certeza!

Maith
Enviado por Maith em 02/09/2007
Código do texto: T635876
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Sobre a autora
Maith
Sorocaba - São Paulo - Brasil
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