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Arreda o Pé



ARREDA O PÉ

Vamos menina! Vamos!Vamos!Já faz um bom tempo que nós não saímos e nada custa ir ao aniversário da nossa amiga. Ela é tão sozinha não é mesmo?E veja que ela vai comemorar nesse barzinho como é o nome mesmo?Arreda Pé! Lá não iremos encontrar ninguém conhecido. E os risos aconteceram... Com esse argumento, fui seduzida a ir até esse bendito aniversário. Juro que não estava afim. Meu ex-marido me ligara durante a semana querendo conversar. Sim! Logo quem! O meu ex, que jogou o nosso casamento para cima por uma ninfeta,segundo o proprio, quinze anos mais nova, coxas duras, cabelos na cintura e uma cara (Deus me perdoe) de puta de segunda,  justificou a mim que fora amor a primeira vista... (Eu sei que amor foi: Buc... a primeira vista!), nasci ontem!...,Além do mais meu filho caçula estava querendo ir morar sozinho nos Estados Unidos, e não me deixava em paz. Em meio a tantas turbulências, nada mais justo que ir a esse aniversário na casa da porra... Sei lá onde ficava o Arreda Pé?O caso era ir tentar arejar a cabeça, a alma e o espírito. Um sim meio arrastado eu respondi. Fui logo esclarecendo: Não tem essa de muita arrumação não! Jeans básico, sapatos baixos e os cabelos soltos... Nada mais... Ouviu? Vou voltar logo, não perdi nada lá. Arreda Pé... Sei não!Vocês me arrumam cada uma!... Que porra é essa?Vocês estão me trazendo para onde? Ta doida é?Indaguei a minha fiel escudeira, meu Sancho Pança, desde infantil sempre fomos muito ligadas. Conseguiu ela se desvencilhar de um casamento, onde como dentista autônoma   sustentava casa, filhos e um marido putanheiro, que usurpava o seu suor com outras, após uma dura batalha na justiça e na cabeça dela conseguiu se livrar daquele negocio chamado doloroso, traumatizado e irritante marido. Saiu viva  e comigo ao seu lado. Mas o tal Arreda Pé não poderia ser denominado de restaurante, bar ou barzinho por mim, nada!Rústico, gente saindo pelo ladrão, um som altíssimo, uma iluminação, iluminação?Não havia presença de luz, homens mal encarados... Meu Senhor ajuda-me!Tive vontade voltar imediatamente, Sancho  percebera o meu desejo, se não fosse a aniversariante que veio nos recepcionar a porta (até hoje me pergunto como ela chegou tão rápido!) teria dado meia volta na hora e ido embora.Amigas!Olá amigas lindas!Sempre espalhafatosa, Noviça Rebelde,o apelido surgiu no colegial e até hoje ficou, também fazia parte do meu circulo de amizade  cuidando de tudo e de todas nós. Nunca havia casado, tínhamos a curiosidade de saber os  seus  reais motivos. Sabíamos que quando fora morar no interior do Estado passou anos noiva,  conversava a respeito de tudo com todas nós, quando tocávamos no assunto casamento Noviça desconversava. Diziam que foi um amor não correspondido, algumas outras achavam que por ser arrimo de família, seus irmãos e sobrinhos não lhe deram oportunidade para alçar vôos mais altos, constituindo a sua família, isso na realidade pouco importava para nós. Quando retornou ao nosso convívio foi uma alegria e um porre só... O bom mesmo que quando estávamos apertadas era só abrir a boca, e Noviça estava lá para cobrir os nossos cheques especiais, cartões, débitos de lojas, não aceitava os nossos juros quando quitávamos os débitos... Para  todas nós era a maezona, era A Rockfeller... Quantas vezes fomos socorridas..., me arrependi em ter pensado em ir embora... Ela não merecia juro que não merecia... Trocamos abraços, lhe dei o seu presente e ela educadamente em meio à escuridão ou o breu total do famigerado Arreda sei lá que porra, conseguiu nos levar até a sua mesa, repleta de parentes, sobrinhos, amigos e todas suas amigas. Um converseiro só, mil abraços, risos, fofocas e nossas vidas colocadas em dia juntamente com o cri e cri: casa e crianças (já grandes). A musica suava como um Forró pé de serra, gostosa de ouvir, em um ambiente menos zuadendo é claro, os casais literalmente levantavam a poeira, pessoas simples vivenciado a riqueza do forró, na simplicidade do ambiente notadamente popular. Pedi uma cerveja sem álcool. Resposta: Aqui não Moça!Então traga água!retruquei. Após as apresentações de praxe e assuntos em dia, passei a observar o movimento das pessoas,sei lá como mais observei. As mulheres vestidas simples e na moda, os homens seguindo o velho ritual de sempre: calças e camisas mangas largas... As vistas se adaptaram ao ambiente e em meio a uma nova visão pude exercer esse senso critico... Você Dança? Vamos Dançar? Como um trovão aquela voz rouca se impôs aos meus tipanos. Que susto!A primeira reação foi a de negar... Senti medo de ser mal interpretada e sem ver a cara ou o indivíduo respondi que sim... As minhas amigas riram e começaram a brincar comigo na linguagem própria de nós mulheres... O cidadão era um homem negro, preto, não!Bem preto! Quase azul?Era bem escuro, negão sim! Negão! De seus um metro e setenta e muitos, careca, um nariz chato, muito chato a lá Michael Jackson antes da fama, com dois anéis nos dedos, um bigode imenso, perfumado e como dizem na Bahia: mais cheiroso que Jegue na lavagem do Bonfim, forte, bem forte, e umas quinhentas chaves na cintura. Meu Deus me ajuda!Pensei! Não tive tempo de concluir os meus pedidos ao todo poderoso, pois em meio à multidão lá já estava eu sendo gentilmente conduzida por ele, bailando no meio do salão. A essa altura a musica fazia estremecer toda a pista, as pessoas tomadas por uma energia diferente estavam plugadas ao som e eu já mexia com as minhas pernas, músculos, cadeiras e ancas como há muito tempo eu não fazia... Era uma pluma, negocio diferente,dançava,rebolava,ia prá cá e prá lá, e eu seguindo os passos dele,gostando, cantarolando musicas esquecidas pelo tempo, destilando antigos velhos passos. Epa?... Que diabos estão fazendo aqui comigo eu hein?Tentei resistir, mas fui domesticada, e com toda a minha posse me deixei envolver, logo quem?Eu! Cheia de posturas, condutas e etiquetas. Não queria mais parar. Intervalo!Não me dei por conta. Fui levada até a mesa pelo ilustre cidadão que educadamente me agradeceu a dança. Risos, sorrisos, gozações e sei mais lá o que. Sancho se contorcia de sorrir, lembrando da minha cara, com as devidas imitações dos trejeitos, Noviça preocupada se eu tinha sido importunada, e as outras com brincadeiras discretas. Respondi que o cidadão era de bom trato e que não tinha visto nada demais... Queria era dançar de novo. Verdade!Eu gostei do traço, do trato e da dança. Estava ansiosa para ir novamente. Busquei o cidadão no ambiente e nada!Que porra!Pensei... Deixa para lá... Decorridos meia hora, quarenta minutos aproximadamente de repente olha o tronco de ébano se aproximando ao horizonte. De despercebida me fiz, e ouvir: Vamos Senhorita?Que alegria... Vamos!Rebati prontamente, mas para meu descontentamento ouço: Ele vai dançar comigo viu! Era uma perua... E com esse tipo de mulher aprendi a não bater boca, não entro em detalhes, o que eu fiz? reagir: O que?Você disse o que? Não se olha não é!Ta pensando o que? Você se ouse a tirá-lo de mim!Você disse o que mesmo? Não se olha não é!Ta pensando o que? Silencio. A Mulher arregalou os olhos, me mirou de cima a baixo  eu pensei: Vou apanhar Aqui... Oh Meu Jesus!E antes do pau quebrar eu ouvi: Tirando onda com  a branca não é?Ela vai voltar de novo espere!...Resmungava a mulher, Saiu devagar, dispensando a mim   um olhar mortal, mas que mortal, sei lá que porra era. Sem dizer uma palavra educadamente comportado o negão, apenas sorriu,e pela primeira vez pude observar o estoque de marfins na boca... Como eram brancos e perfeitos os dentes, impressionante... Eu prontamente: Vamos continuar!Dançando!Dançamos, e dançamos, e dançando. Não percebi qualquer  ato, postura atitude mais insinuante, eu é que me sentia segura naqueles braços fortes, adorando aquele perfume de não sei de onde, e o seu flutuar ao bailar... É bom demais... Nós estamos indo embora! Ta na hora, já pagamos a conta!Era Sancho!Todos estavam sorrindo, e com a cena patrocinada por mim teriam muito assunto a comentar durante a semana... Com dor, chorosa, dor no corpo, sentindo-me como alguém que roubaram o seu bombom... Parei. Agradeci a ele, dizendo que todos já estavam de partida... Fui acompanhada até a mesa. Deu vontade de pedi o seu telefone, saber onde trabalhava o nome... A porra toda. Faltou coragem... Mais uma vez agradeci, ouvindo em resposta: Apareça. Você dança muito bem... Desculpe qualquer coisa, não sei de onde é aquele estrupício que veio  abusar a mim e a senhora doutora... Até um dia. Obrigada. Muito Obrigada senhor. Hoje tenho vontade de voltar ao Arreda Pé sozinha e encontrar o meu negão do nariz chato, dos anéis espalhafatosos, cheiroso que nem jegue com as chaves do purgatorio na cintura,educadamente trajando as sandálias da humildade e postura do saber com se tratar uma mulher de bons costumes, educada, direita, e que nunca sai para dançar porra nenhuma, em lugar nenhum, muito menos no Arreda Pé... Que porra!Mulher de fino trato e nunca do Arreda Pé, boa porra! Não arredo o pé nem prá dançar, fino trato?Eu hein!


Junott
Enviado por Junott em 08/09/2007
Código do texto: T644146

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Sobre o autor
Junott
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