Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

PERDENDO A LUCIDEZ

PERDENDO A LUCIDEZ


                       A vida é uma festa, era a frase predileta de Felipe, um sujeito acanhado, mas que quando bebia, ficava mais a vontade, prendia atenção de todos. Foi numa sexta-feira, em mais um final de tarde, bebendo com os amigos, que conheceu Carmem Léa. Ela estava sentada numa mesa ao lado, bebendo com as amigas, mas com olho comprido para aquele sujeito bonitão, falastrão, ao lado. Quando ele levantou para ir ao banheiro, ela foi atrás. Encontraram-se na antesala dos banheiros, e ele já puxou conversa, falando do calor, do dia ensolarado, e ela só escutando e olhando para os olhos claros, como que enfeitiçada.
-Vem sempre aqui.
-Sempre.
-Nunca te vi aqui, tem certeza?
-Tenho, tu é que nunca olhaste para mim.
     -Pode ser, mas hoje te vi.
-Que sorte a minha.
-Queres sentar comigo e com minhas amigas.
-Gostaria, mas estou com amigos, na outra mesa.
-Eu sei, convide-os também.
-Vou até lá, depois te falo.

                            Felipe ficou pensativo, fazia tempo que não era atropelado assim, estava acostumado ser paquerado, sempre foi um homem que chamava a atenção onde chegava, mas não tinha muito controle do magnetismo que exercia sobre as pessoas, mas essa mulher conseguiu mexer com ele.
                             Enquanto caminhava até a sua mesa, começou a sentir uma euforia muito grande, seu ego foi nas alturas, se bem que já tinha fumado um baseado e tomado uns cinco copos de chope, mas se sentia diferente, era uma sensação desigual. Procurou se acalmar, apesar da adrenalina estar a mil por hora.

                               Na mesa estavam os amigos João e Manfroi, fazendo a festa, chamando Felipe de meloso, bonito, o cara. Felipe sentou-se e sensação estranha aumentou, parecia que a mesa deles estava mais iluminada e mais alta do chão que as demais. Olhava para o João e via outra pessoa no lugar dele,um guri com um boné na cabeça e de bermuda, falando algumas palavras estranhas, do tipo
- A turma está toda lá fora.
-Tu não vens com a gente até a gruta?
 No lugar do Manfroi também via um outro guri, quieto só rindo, não falava nada. Felipe sabia que alguma coisa nova estava acontecendo, mas continuou sentado. Chegou o garçom com mais chopp, serviu-os, enquanto isso a luz parecia mais forte, as pessoas todas olhando para eles, foi aí que a morena sentou-se ao seu lado e perguntou se ele estava bem, pegando em sua mão. Ele consegui respirar um pouco, e as alucinações diminuiram. Falou que queria beber mais, nessas alturas o João se deu conta que Felipe não estava bem e tratou logo de tirá-lo daquele lugar. A morena deu um beijo no rosto de Felipe e deixou um cartão no bolso do paletó. Felipe não queria ir embora, mas João e Manfroi se deram conta que a situação não estava normal. Pagaram a conta e foram saindo com Felipe pelo braço.

                                Ligaram para o filho de Felipe, colocando ele a par da situação, levariam ele a uma emergência de hospital para tratá-lo. Gustavo, seu filho chegou logo ao hospital, e viu seu pai naquele estado, falando coisas desconexas, dizendo que tinha cheirado cocaína de montão, que estava bem, que logo iria passar. Veio a médica e fez uma avaliação, dizendo que ele tinha que ser removido para o Hospital Espírita, inclusive já adiantando sua internação. Isso era uma sexta-feira, quase sábado.

                                  Felipe começou a recuperar a consiência no domingo à tarde, quando Gustavo chegou e abraçou-o, junto estava a ex-mulher Marisa, os amigos João, Manfroi e Julio. A princípio não lembrava de quase nada, só umas vagas lembranças embaralhadas, mas reconhecia as pessoas. Dizia ainda algumas palavras estranhas. Parecia que estava acordando de um longo pesadelo.

                                     Estava com o filho e os amigos quando entrou no quarto o Dr.Eli, que mais parecia um carcereiro. Pediu pras pessoas se retirarem e ficou a sós com Felipe.
-Como vai.
-Não sei ainda, o que aconteceu comigo Doutor?
-Tu não lembras?
-Vagamente.
-Do que tu lembras?
-A última  coisa normal que lembro, é de uma morena muito linda que me paquerou, e me convidou para sentar com ela, fui enfeitiçado por ela.
- Só isso?
-É, depois comecei a ter umas sensações estranhas.
-Causadas pelo que, tu lembras?
-Não.
-Tu bebeste? Consumiste alguma droga?
-Acho que sim.
-Achas?
-Que drogas tu usaste?
-Maconha e álcool.
-Cocaína não?
-Não.
-Tu és dependente químico!
-Mas eu não consumí cocaína, só experimentei umas vezes, nunca continuado, então não tem nada de químico, só cigarro, maconha e álcool.
-E tu achas que essas drogas que tu consomes, não causam dependência química, só a cocaína?
-É doutor, pelo menos eu acho.
-Se tu achas, tu és de sorte, porque eu não acho nada faz tempo.
-É sr. Felipe, precisa te desentoxicar, e saber o que tu queres para tua vida, pois se continuar, fica ruim.
-Tens que te ajudar.
-Quanto tempo vou ter que ficar aqui doutor?
-Estou pensando nuns três anos, que tu achas?
-Mas doutor, é demais, eu não estou preso, estou?
-Claro que não, só estou brincando contigo.
-Quanto tempo doutor?
-O tempo necessário para teu tratamento.
-Tu tiveste uma crise, tens problema de Bipolaridade.
-Alguém da tua familia já teve alguma crise?
-Meu pai já esteve internado aqui no Hospital Espírita.
-É, tu herdaste dele, essa doença é hereditária.
-Depois que saires daqui tens que fazer terapia, e com uma terapeuta mulher, viu, não te esquece, a terapeuta tem que ser uma mulher.

                                 Felipe ficou meio tonto, com tanta informação, mas ficou pensativo
- Claro, a crise foi em função do consumo exessivo de drogas, mas também teve o componente hereditário, o negócio era continuar com a medicação e fazer terapia com uma mulher, após a alta hospitalar. O Dr.Eli, não havia dito o tempo que ele ficaria internado, no outro dia perguntaria.

                                   Também nestes últimos dois anos, a vida de Felipe tinha sido um turbilhão, separação, reconcilhação, brigas, ciúmes, separação. Começou vida nova, morando sozinho, muita festa, muito droga. Nunca havia parado pra pensar o que queria da vida. Sua ex-mulher ainda mexia com seus sentimentos, essa separação estava mal resolvida, seu relacionamento com a nova namorada, a mil, sem muitos questionamentos, acabaram de balançar com sua cabeça.
 
                                     Mas ele sairia dessa, tomaria jeito, faria o tratamento direito, afinal a vida era uma festa, como costumava dizer,e neste momento lembrou da morena feiticeira que havia encontrado no bar, será que ela existiu de verdade ou foi parte das alucinações? Teria que esperar a alta do Hospital para ver se tinha o cartão dela ou não, no bolso de seu paletó.

         
pedro guilherme holz
Enviado por pedro guilherme holz em 11/09/2007
Código do texto: T647930

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
pedro guilherme holz
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 62 anos
11 textos (894 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/08/17 12:24)
pedro guilherme holz