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INOCÊNCIA RECUPERADA

INOCÊNCIA RECUPERADA


Tuca vivia correndo pelo parque da redenção, brincando com seus irmãos. Tomava banho no lago, pulava corda, subia nas árvores e só não gostava quando sua mãe colocava ele com os irmãos a pedirem nas ruas e nas sinaleiras da cidade, mas fazer o quê? Era necessário, pois se não, apanhavam da mãe ou do padrastro, que vivia bêbado.

Tuca tinha uma irmã mais velha que comandava a turma, eram  quatro irmãos. O nome dela era Susi, tinha doze anos e já era calejada da rua. Ela sempre inventava alguma mutreta para angariar mais dinheiro. Tinha uma que nunca falhava. Ela combinava com Tuca o seguinte, ela fingia que estava colocando fogo, com um isqueiro, no pinto dele, que ficava deitado no chão, com os calções arriados, fingindo um choro e pedindo para ela parar, quando algum adulto se aproximava pedindo para ela parar, Tuca se levantava e se agarrava na perna do salvador, pedindo, pelo amor de Deus, um dinheirinho, pois se não ela vai me queimar! Quase sempre as pessoas se compadeciam do pequenino e davam uns trocados, para alegria da turma, que logo saiam pra comprar uns “refri” e bolachas. Mas não podiam gastar tudo, tinham que guardar a cota dos pais.

Susi também ganhava alguns trocos a mais, a noite nos semáfaros, quando alguns ditos cidadãos do bem, dentro de seus carros, pediam para ela dar uma voltinha com eles, pelas ruas escuras de uma Porto Alegre, não muito alegre. Ela também tinha uma tática venenosa, para arrancar uma grana a mais. Eles tratavam o preço antes,tipo cinco reais, mas depois do programa, na hora do acerto, ela com uma agilidade fora do comum, tirava a chave da ignição, ficava com o braço para fora, e dizia, ou tu me dá cinquenta reais, ou jogo a chave longe e começo a gritar pedindo socorro chamando a polícia. Não dava outra, eles ficavam apavorados e acabavam cedendo.
 
A única coisa ruim mesmo era eles terem sido, expulsos da casinha deles, embaixo da ponte da Ipiranga, perto do hospital Hernesto Dorneles. A prefeitura de Porto Alegre, lacrou com concreto, todos os espaços embaixo as pontes, da avenida, para evitar as moradias dos desocupados(ou indesejados pela sociedade dita civilizada). Com isso, eles estavam  perambulando pela cidade, dormindo embaixo de marquises, no centro.

Mas mesmo assim, eles sobreviviam. Foi nessa época que eles foram abordados por um senhor bem vestido, interessado em ajudá-los, com uma casinha numa vila organizada, móveis, mantimentos e até uma colocação para o padrasto. Um sonho para ser verdade, mas tinha uma condição(sempre tem uma, não é verdade) para que essa aspiração se tornasse realidade, ele queria ficar com o Tuca, de papel passado e tudo. Este senhor tinha sido vítima do golpe do isqueiro, e a partir daí ficou interessado naquelas crianças, principalmente no pequenino, que a irmã ameaçava com fogo. Passou a observá-los e tomou a decisão da proposta de adoção.

A mãe de Tuca a princípio disse não. Mas depois de alguns goles de cachaça, com seu companheiro, raciocinaram, estamos nós seis aqui comendo o pão que o diabo amassou(será que foi ele), se for um, para uma vida melhor, os outros cinco vão ficar alojados, então vai o Tuca.

Susi, apesar do embrutecimento, chorou no dia da partida do Tuca, que saiu de mãos dadas com aquele tio, todo sorridente de roupa nova.
pedro guilherme holz
Enviado por pedro guilherme holz em 12/09/2007
Reeditado em 12/09/2007
Código do texto: T649259

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Sobre o autor
pedro guilherme holz
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 62 anos
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pedro guilherme holz