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A missão

Tomei o rumo daquela estrada estreita, chão batido e vegetação rasteira. Cercada de arame farpado com três fios apenas e palanques podres.
Seguia a passos rápidos. Olhar a frente pouco ajudava, e para trás menos ainda. Casas pouco se vêem,apenas algumas pessoas perdidas por essa imensidão.
O sol forte do meio dia distorcia a minha visão e quase me cegava. O suor escorria por todo o meu corpo. A minha unica preocupação era o cantil vazio, a horas não encontrava água para beber.
Que cenário triste e desolador,um quadro sem cor, a simples dedução que vida teima em continuar em meio a tantos desafios. Buscar sonhos ou viver pesadelos, que nunca se acabam e se transformam a cada dia em uma missão diferente.
O fardo mais pesado em minhas costas, não é a tralha que levo comigo,nada de muito valor: apenas roupas velhas e uma pequena panela onde cozinho quando ganho alguma coisa. Não tenho dinheiro, nem documentos,  vivo apenas da caridade das pessoas. O maior peso que carrego é aquele que trago no meu intimo e pesa muito mais do que qualquer coisa em minha costa. Talves tudo isso possa ser loucura,muitos me chamam de louco ou vagabundo, ou até as duas coisas.
Roupas sujas, cabelos e barbas compridos. Banho, só no rio ou de chuva. Vivo da forma mais elementar possível.
Já faz um ano que vivo essa vida de nômade pelas cidades e campos do nosso país. Caminho a pé ou de carona nos caminhões, sempre junto da carga. Já viajei com galinhas, pórcos,madeiras, e tantas outras que não me lembro mais. Indo de cidade em cidade sem nenhum roteiro a cumprir.
Por onde passo, vejo o contraste que divide a nossa sociedade, e cria cenas de puro descrédito em lutar pela sobrevivência com um minimo de respeito e dignidade possível. Vejo prédios luxuosos, mansões gigantescas, cercadas de arvores e lindas piscinas. Vários carros importados na garagem e com os seguranças em seus elegantes ternos pretos e óculos escuros.
Os shopping centers, com suas lojas bonitas e enfeitadas, roupas de grifes e coidas da ultima tendência da moda mundial. Passando por um desses lugares, resolvi entrar. Era final de ano e achei maravilhosos todos aqueles enfeites que simbolizavam o Natal. Mal coloquei os pés para dentro e três seguranças, esses caras fortões, que se acham o máximo por terem tantos músculos, vieram em minha direção e me agarraram pelo braço, botaram-me para fora e ainda falaram: se voltar aqui vai apanhar. E porque isso? Um homem de rua e mal vestido não pode olhar as lojas? Em todas as minhas andanças, jamais roubei um pedaço de pão que fosse, sempre que tenho fome, peço comida e quase sempre as pessoas me dão.
Noto nas pessoas a escravidão pela moda, celulares,fast foods e tantas outras coisas que nos enfiam, e acabam criando o sentimento de consumo cada vez mais forte.
Na contramão da história, na mesma cidade vejo favelas enormes, pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza. Esgoto a céu aberto, barracos de pedaços de madeira e uma coisa impressionante: muitas crianças, estavam por todo lugar,  como um formigueiro. É impressionante notar como em lugares de muita pobreza, as famílias são tão grandes.
E o governo? Ea política social? Beijar crianças em campanhas é muito fácil. Promessas são muitas, e os resultados? A de se convir também que a culpa não é só do governo, tudo isso é um problema de toda a sociedade e só poderá se amenizar com o esforço de toda à população. A distribuição equilibrada de renda deve ser um caminho muito forte a se seguir. Poucos vivem com muito, e milhões com quase nada.
Em virtude de tudo isso é que se aumenta a criminalidade, que é o caminho mais fácil da juventude seguir. Como tráfico de drogas e tantas outras coisas que atormentam á população. Sem contar a falta de uma escola boa e sólida, com condições dignas de estudo, que deixam os alunos muito longe do sonho da universidade, que é muito cara para a maioria da nossa população.
Andando pelos campos, se vê a fuga em massa de pessoas, que sempre trabalharam na terra, e dela tiravam o seu sustento, e agora são abrigadas a vender barato as suas terras para grandes latifundiários, que com seu alto poder econômico, vão engolindo as pequenas propriedades, e o que se vê são grandes fazendas de cana,soja e milhares de bois. Assim as cidades vão ficando cada vez mais inchadas e fica difícil acomodar e dar trabalho  a tanta gente.
Quem vive nas ruas como eu, está sempre em contato com pessoas, que vivem da mesma forma, e assim compartilhamos de nossas experiências, e vivências do dia a dia. Faz parte da minha missão, conversar e escutar a todos sem qualquer preconceito ou outra forma de impedimento. Encontrei pessoas sem família, sem qualquer condições financeiras para viverem de outra forma, crianças que fugiam dos maus tratos dos pais, e outras tantas que sequer sabiam seus nomes ou de onde vieram.
Confesso que estou muito cansado, que as minhas forças estão no fim, mas me alegro porque sei que estou desempenhando com muita convicção a missão que assumi e sei que realizei um bom trabalho, dentro das minhas expectativas.
Hoje acaba aqui a minha missão; disse ao meu editor após ele ter se recuperado do susto ao ver um mendigo entrar em sua sala. Aqui está o livro que você me pediu, e revirando a minha mochila, tirei um monte de papel amassado, todos eles manuscritos. Eu poderia continuar a escrever os meus romances em meu luxuoso apartamente, e continuar a desfrutar do sucesso que consegui como escritor. Porém esta missão que você me pediu, para escrever sobre a realidade do nosso povo, mexeu tanto comigo que resolvi ver pessoalmente, e sentir na pele a realidade das coisas. E isso trouxe uma nova direção para minha vida e minha carreira. Hoje sou um novo homem e um novo escritor.
Carlos Costa
Enviado por Carlos Costa em 18/09/2007
Reeditado em 20/09/2007
Código do texto: T657043

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Sobre o autor
Carlos Costa
Tatuí - São Paulo - Brasil, 48 anos
15 textos (1585 leituras)
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Carlos Costa