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EVANESCENCIA

   Sábado.Era porque se ouvia os passarinhos, assim acordara tão cedo Cibele com sua impressão ainda de bem criança.Só sábado cantava os passarinhos.
   Cibele pulou mesmo da cama, na ansiedade do dia que se ia viver.Ia se viver um grande dia.
   E não adiantava a mamãe dizer:
   -Todo dia pode ser um grande dia Cibele.
   Cibele tão magrinha em um vestido xadrez amarelo, duas Maria xicrinha curtas e um biquinho de criança que era.Fora um aniversário importante aquele: um apartamento grande em Jacarepaguá – e as noites tão claras que era tão bonito ter noite – com móveis que cheiravam a brinquedo novo – é que ela sabia que dali vinha no natal – o apartamento de uma claridade azul.Cibele podia tocar no azul que era claridade de luz.Apenas não podia tocar, ainda, nas bolas verdes penduradas pelo teto.
   Cibele nem queria saber do playground úmido e quente; ela queria o contato doce como Mirabeau com as paredes parecendo azuis.Se as paredes pareciam azuis era por causa da luz.
   As bolas estavam difíceis de alcançar – cibele sentia o cheiro doce delas – verdes como os olhos de Bettina.Verdes como as uvas em cima do enorme bolo branco ao centro da mesa forrada com uma toalha estampada e norteada de docinhos e pirulitos coloridos e redondos.Mas era as uvas verdes que cibele invejava, as bolas verdes.Era do verde-água tão sensual e belo: os olhos de Bettina, a inteligente e avançada Bettina.Os cabelos de um louro dourado que de tão fino dispensava-se o uso de fita.
   -Seja linda como Bettina, Cibele!
   -Aprenda com Bettina, Cibele.
   -Estar vendo os modos de Bettina.Já sabe se portar como moça.
   -É inteligentíssima: pinta quadros, toca piano, faz balé...
   Cibele espreme os grandes olhos negros na vidraça do quarto, embaçada, sua testa recostada na janela.Ela olha para o quintal de cimento invadido pela penumbra de um dia nublado, plantas em vaso pelos cantos do muro que são repouso de passarinhos sempre alegres.E Cibele não sente que as lágrimas descem pelo rosto ao pálido de uma melancolia delicada e inseparável.É seu começo de juventude, e tudo parece tão fechado e desconhecido...Resta mais medo e angustia.
   E uma bola verde estourou ao vento no meio da sala entregue ao azul em que só estava ela deslumbrada.Cibele assustou-se, não houve tempo, todos chegaram espavoridos:
   -Menina que coisa feia, estourar a bola.
   -Assim Bettina não vai te dar nem bolo nem doce.
   Cibele apertou bem a mão fechada em punho, apertou tanto que sentia as unhas querer entrar na carne, os olhos sentiram o dolorido,e as lágrimas desceram bem mais quente.O seu quarto bem pequeno, de repente o olhando assim no modo de quem se sente só, parece imenso.Sentou-se na beirada da cama, convencida que era muito cedo mesmo.O reloginho ao lado do anjinho barroco de gesso, na cabeceira da cama avisava isto: que era muito cedo...
   O que acontecera com os galos? Ali por perto não cantam mais, apesar que cabiam aos passarinhos um chilrear de mocidade.
   Cibele olhou para o guarda-roupa com as quatro portas fechadas, no vidro cristalino dele se podia ver seus vestidos: quase todos iguais.
   Ela não havia estourado a bola verde – mas adiantava dizer – sentiu-se magoada.Quando toda criançada deixara o playground, subindo as escadas no trotar alegre de encontro aos doces e as bolas verdes como mel; ela se refugiou no banheiro daquele apartamento lindo.
   Lá dentro, como uma ostra, ela ouvia a alegoria alegre da criançada num alvoroço, e ouvia-se o estourar de muitas bolas – ela podia até imaginar – e, no entanto, aquela que fora o vento que estourara, que era a que não podia, que a culpa caiu sobre ela, ela que não tinha forças para se defender.Ela que frágil menina, que tinha pai e mãe porém ninguém para defende-la.Todos estavam muito ocupados em se derreter por Bettina. E à essa hora devia ser o centro da atenção.
   Olha o silêncio sendo imposto ao resto da criançada, e estas obedecendo ofegantes ao chiados de ordem.
   Por isso que o piano estava na sacada, com o tamborete, a aguardar.
   Cibele começou a ouvir, espremida num canto do banheiro entre a privada e o Box vidrado.Os dedos longos e delgados de Bettina passeavam pelo teclado com doçura.Ah, os suspiros dos adultos diziam cortando a melodia suave ao meio na noite longa de melancolia para aquela ojerizada.Ela colocou as duas mãos entre a cabeça, tentando tapar os ouvidos, espremendo os olhos até derramassem lágrimas,muitas lágrimas.Sentia o frio dos azulejos nas costas,e o frio do ladrilho nas nádegas e nas coxas, e tudo era muito frio e dolorido.Tudo cortava na alma como o seco gelo de uma terra estranha.
   Sentindo a manhã chegando de verdade, mesmo no dia indeciso, Cibele confortou-se ao lençol ainda cheirando a amaciante, assim como sua camisola discreta.Ficou toda encolhidinha como um feto.Ficava assim às vezes, como agora que enrolava os cabelos em cachinhos e era capaz de se flagrar sorrindo.
   Esquecendo-se que era um grande dia para se viver, abandonou-se, e ouvindo o imaginário som de piano aos encantados dedos de Bettina, abandonava-se assim a preguiça da manhã que a despertara na ansiedade.
   As uvas do bolo, o gosto do bolo, era como o gosto da uva verde.Devia ser como aquele menino tão lindo, de um moreno de fruta madura, sentiu nos lábios ao tocar tão graciosamente e de fugaz os lábios de Bettina.Ela corou, ele não se podia perceber, porque era de um moreno bronze, e os adultos riram a achar muita graça.
   Como os adultos achavam graça de tudo que se dava a respeito da maravilhosa Bettina.
   Bettina, a única.Seus olhos verdes como o verde das uvas daquele bolo branco, como as bolas dependuradas no teto que logo seria repartida com outras crianças.Menos para Cibele.Que era um vaso sem flor no canto daquela sala de ar azulado.
   Da coluna que dividia a grande sala, da pequena copa, escondia-se Cibele, olhando tudo num ar mártir.O azul que lhe cai ali era mortiço, e a sede de se deslumbrar era maior do que a de refrigerante que acho que nem tinha esta sede.
   Eduardo, este o nome do menino moreno, lindo, educado e bem vestido.O perfume dele, Cibele sentia vindo com o vento; a voz dele, o riso dele era suave e doce como o perfume, mais doce ainda que o eflúvio das bolas verdes que ela bem sonhava, ah como sonhava, com as bolas verdes de aniversário, com o perfume que era de Eduardo todos os sentidos.
   Eduardo: como ela sonhava com um olhar que fosse de esguelha.Embebia-se do perfume deste, da suavidade, do brilho em halo que parecia envolve-lo.
   E lá se ia um adulto colocar um outro tamborete, ao lado, da onde se sentava a única.E assim Eduardo fazia dueto com Bettina.Os dois deviam perder as mãos graciosamente pelo teclado até encontrarem-se estas, como se perdiam nos sorrisos.O cabelo dela avulso e lindo na fartura dourada, brilhando ao luar que invadia a sacada; ele reluzindo no seu bronze pardavasco da pele, o mesmo luar que os cabelos dela roubava.
   Os dois roubavam o luar só para eles.Faziam adultos parecerem crianças de tão parvos que ficavam, embevecidos.
   Cibele saboreava a luz mortiça azulada que a copa recebia, ingrata, da sala.
   Ode to Joy, era Ode to Joy, devia ser, repimpava ainda.Eduardo tão empertigado.Riu sozinha, íntima, levando a mecha de cabelo enrolada ao dedo, ao nariz.
   -Acho que vou dizer que não vou.Acho que não posso, é tão mais forte do que eu mas eu não posso.
   A mãe já bate na porta branca-encardida do quarto, chamando-a.Sente o cheiro do café, sendo passado, convidando, animando...é o pai adiantado, animado.Pode ser o cheiro do café o reativante.
   Cibele sente uma picada de vida com o cheiro do café tomando conta da casa.Ainda é mais gostoso quando o pai mexe o açúcar no café com a colher fazendo barulho dentro do bule.
   -Faz dois anos filha que não vamos lá, é preciso – dizia o pai que era mais tio de Bettina que a mãe.
   Sentindo-se moça, quase uma adulta, Cibele achava-se preparada para enfrentar Bettina: a única, e Eduardo tão lindo como um príncipe de Marrocos, namorando a única e a verdadeira.
   Era um espelho embaçado pela fumaça do chuveiro morno, ao ela esfregar a toalha, tudo se tornava nítido.
   Os passarinhos chilram alto nos quintais vizinhos.Avisavam que o dia já nascera,e que a ausência de sol não alterava isto.
   O vento estourara a bola verde que ganhara, e era tarde para chorar, já descia a rua do arrabalde rumo à sua casa com papai e mamãe.Fora uma demonstração de carinho de Bettina – por um instante acreditou Cibele que Bettina não tinha culpa de ser tão endeusada – no entanto ela esperou que Cibele chegasse perto de casa usar sua vingança.E era uma manhã tão fresca, depois de uma noite que lutara para não dormir naquele lindo apartamento, no quarto de Bettina.Para que tudo durasse muito, e o sono veio invadindo um sonho na sua casa, e como podia esquecer o conforto que a rodeava na mesma cama que a linda prima; o quarto ricamente iluminado por um abajur lilás, e cheio de bibelôs e gravuras tão confortáveis espalhados pelos cantos do quarto.
   Pela manhã então se dissipa todo cadinho de ressentimento da noite anterior, é que Bettina dar-lhe a linda bola verde da cor dos seus olhos, e provoca um sorriso no rosto tão melancólico de Cibele.
   Todavia, tudo se estoura no meio do caminho, já quase chegando, e ela querendo acordar aquela recordação o dia todo, por intermédio daquela bola.
   Na ansiedade que tivera de voltar para casa no durante a festa de noite, pela manhã transformou-se num desespero de reviver tudo, voltar, ter uma continuação mas sutilmente doce.
   E provando do café, à mesa, na caneca Cibele tinha recebido o verdadeiro gosto de estar na sua casa, e ainda afastada bem mais de dois anos onde sempre estivera apregoada ao seu íntimo modo de viver.



   As duas sentadas na varanda, cada uma em uma poltrona de vime.Aguardavam que o silêncio terminasse o seu ritual recital cheio de vida alegre par que então começassem.E quem começaria primeiro? As vezes se entreolhavam como que indagando por isto.E cibele constatava, novamente deslumbrada, que os verdes dos olhos de Bettina eram sempre e cada vez mais de uma beleza intensa, como as bolas verdes de aniversário, como as uvas verdes tão bem arranjadas em cima do bolo branco.
   Que delicia não devia de ser existir dentro de Bettina.Tudo ela podia sem precisar fazer muito.
   -Hoje estar um dia delicado – disse Bettina sentindo uma borboleta branca que voava próximo aos seus olhos.
   Cibele poderia acreditar que a voz era da borboleta, de tão delicada a falar no delicado...E ela olhou para o céu de um cinza compacto.Não era como se estivesse nublado, e sim, como se o azul fosse substituído pelo cinza.
   -E acho que não vai chover – disse cibele finalmente.
   O silêncio calara-se.
   -Nem me fale em chover – disse Bettina suspirando pelo dia.
   Cibele bem poderia falar em chover, agourar em juízo para chover, mas ela não cedia o seu ódio ciumento.Cibele preferia viver à margem do que era para ser, e assim conseguia ser feliz.Vendo Bettina ser feliz tão à toa, quase sem motivo, ela era mais feliz do que se tudo tornasse seu como achava que desejava.
   Às vezes a pergunta era: Queria que tudo fosse seu mesmo?Era bem mais delicioso invejar, remoer-se de ciúme.Era como o gosto do bolo branco adornado de uvas verdes que não provara, e o sabor imaginário vinha-lhe, vinha-lhe cheirando...
   Ajeitou-se tanto na poltrona.cibele sentia a tensão voando, voando aos poucos que se sentia na outra época.Não era mais aquela noite, nem mesmo era o mesmo bolo com as uvas verdes.Era uma festa de quinze anos, no playground.Uma festa de jovens.
   E Eduardo...
   O som do piano vinha0lhe a mente, agora, que pensava; vinha distorcido, diferente, misturado a outros sons que às vezes calavam o silêncio.E Cibele não precisava perguntar, nem perguntar a si mesma, porque se guardava para a surpresa.
   Seus cabelos andavam agora como ela queria, e os de Bettina como sempre foram...
   Cibele sentiu uma presença atrás de si,e por uma gota de instante, ouviu o deturpado som de piano, voltando-se viu o menino branco de olhos verdes, os cabelos como de Bettina, todavia curtos.
   -Bruno, chega mais – falou tão espontânea, que assustada segurou no ar para não falar mais.
   -Eu não, vou brincar lá fora – disse apressando-se em fuga junto à porta, da onde ainda rematou com o olhar obliquo para Cibele e a mão hesitando na maçaneta:
   -vou aproveitar que estão todos ocupados e mês esqueceram...
   Cibele viu-o fugir alegre, e dele roubou-lhe – secretamente – um pouco da alegria.
   Ela vivia aos pedacinhos, e sabia que ao finalmente nunca lhe era permitido experimentar tudo.Pensava então em Eduardo, como era daquela última vez, mesmo não sabendo ser assim...
   Se só pensasse, vivesse pensando, a vida teria então a cabo de todo momento muito mais utilidade.
   O alvoroço de alegria a assustava, principalmente na véspera, era de se indignar que Bettina vivesse o já-anunciado daquela forma tão serena.
   Bettina era sempre pronta como saída de uma guarda-roupa.Bettina não fazia esforço para viver, e sim o viver é que fazia esforço para manter Bettina.
   -Hoje você vai ouvir meus discos novos – falou Bettina, levantando os pezinhos delicados, observando as unhas tão bem feitas, pintadas de verde como a cor de seus olhos.
   Cibele sorriu pusilânime:
   -Discos de Rock? Ainda perguntou.
   -Que Rock? Estar doida é Cibele – disse ela sem virar o rosto – são discos de compositores eruditos.Eu apenas ouço coisa fina.
   O “coisa fina” ecoou tão longo, suave e longe, que Cibele já acreditava ser os discos novos de Bettina a sua própria voz gravada em vinil, a voz dela com a voz de Eduardo, e o som dos dedos misturando-se nos teclados embevecidamente.
   Quando o silêncio pretendia recomeçar, invadira o tropel e algazarra da criançada que se ouvia lá no playground: O playground vivia assim enquanto era vivo, a sua pausa era o sono de um pré-falecimento.
   -Eu e o Eduardo estamos...- falou ela num suspiro tênue que era também muita felicidade.
   Cibele sentiu o efeito da bomba que explodiu, que explodiu tão dentro de si, no centro do que já estava convicto e incólume à surpresas.Se não estivesse o efeito seria ainda mais catastrófico.
   -A mamãe e a vovó dizem que nascemos um para o outro – escapou dela num riso de própria descrença, deboche e delicadeza romântica.
   Bettina era o tipo de flor rara que bem ansiava Cibele ser.E por mais esforços que Cibele, às vezes nem precisava fazer, nunca era uma flor rara como aquela aos olhos dos outros.
   Os passarinhos pareciam dividir, na tarde que se iniciava, a alegria com as crianças.No prédio à frente, janelas recortavam vidas em movimento.
   E nada parecia interessar.
   

   Devia ser lua minguante, mas o negro céu opaco da noite escondia até mesmo isto.
   A juventude que cercava Bettina e enchia o salão da sua festa cheirava a uma certa malva.Era algo guardado em segredos, que apenas as músicas modistas, e ora lá e cá as musicas eruditas entre o seu meio poderiam explicar.A explicação bem clara revelava-se ali, no intervalo entre uma e outra.
   Cibele esquecia-os, esquecendo-se também.É que a luz do salão a deixava tão clara como um acortina que se bota na sala para ser vista mesmo.A música que os embalava a deixava tonta a ponto de parar e tornar-se uma estátua.
   Aquela festa não tinha o mesmo sabor de mistério daquela outra,e via Cibele que tinha medo das sensações que ainda iam por vir.
   Bettina era flor-estrela-ursa ao cume do banquete.Seu sorriso acanhara a lua, a lua que por minguante nem preferira aparecer.
   -Ela está linda!
   -É o verdadeiro lustre que ilumina o salão!
   E as lâmpadas tão acesas como uma cortina vermelha na sala branca, de repente, ficaram débeis e pálidas respeitando a aura daquela flor que brilhava no debutar.
   E o silêncio não era mais nada.
   Eduardo era apenas um aroma em uma voz que se tumultuava as outras.Cortava-se tão doce que ela podia distinguir.
   E Eduardo era mesmo uma coisa tão distante.Algo que ela correra atrás num jardim em sonho cheio de esperanças para pegar, e que correra dela.Ela acreditava até ser uma borboleta.Ou se estourou no ar logo se aproximou demais.Não era uma borboleta, era simplesmente a bola que verde que tanto desejara naquela festa de imaginário sabor, e que se acabara assim tragicamente frágil pelo um sopro de vento.
   Nunca poderia tocar Eduardo, sentir Eduardo por perto, ou mesmo ouvir a voz de Eduardo para si.
   A leve tristeza tinha um sabor salgado; não, não é por causa das lágrimas.Cibele nem chorava, ela sentia a tristeza.A tristeza estava tão dentro dela agora, que ela sentia o sabor dela.Um leve sabor salgado – e ali por perto tanto doce.O doce de alegria de Bettina, iluminada, que nada pedia mas tudo tinha.
   A festa chegava ao centro de tudo com fervura.Era uma panela de água fervendo que ebolira até secar.
   Encolhida num canto da parede, escondendo-se de si mesma, Cibele dividia a tristeza com sua tagarela solidão, e viu que entrava dois desconhecidos.Ela sabia que eram desconhecidos, porque não traziam consigo o mesmo aroma de alegria daqueles.
   Cibele se viu tão atraída, como que se lançada à uma emoção.Era um rapaz de cabelos pretos e compridos, moreno como Eduardo porém tinha na face um retrato de petulância.Beliscava as coisas com ar de quem era mesmo convidado, depois exibia a língua num ar de asco por aquilo e por tudo; o outro era quase careca, branco demais e cheio de espinhas, e imitava o amigo num requinte parvo.
   A parede criara um ouvido sem orelha para ouvir um segredo que Cibele não falara em palavras, ela falara num risinho fino como um miado de um gato que não quer nada.A parede entendia, dividia com ela a surpresa apimentando seu interesse numa redescoberta do mundo.
   Não é que não havia bolas verdes no teto, nem bolo branco com uvas verdes.Tudo mudara e mudando-se, ela nem sentiu a surpresa a surpresa por um instante tão inerte no vazio de às vezes viver.A presença dos estranhos trouxera-lhe a tona, que nada era como antes agora.E que o pior que isto havia o outrora para se lembrar disto.
   E antes que tudo fugisse sem haver uma razão ou mesmo que simples uma necessidade, Cibele aproximou-se.Seu vestido era tão claro que podia ser facilmente confundido com o branco.
   O rapaz a sorriu como se olhasse para o espelho,e Cibele quase se sentiu beliscada como os salgados e doces da festa.
   -Querem uma bebida? Indagara com a leve impressão, pela meiguice com que falara, que segurava a ponta do vestido.
   -Pô, só...  –disse apenas alisando os cabelos, e sentindo a voz do outro o imitando.
   Cibele chamou o garçom – que por tão elegante ela os via como os mais lindos da festa – e este servira os “penetras”, que esvaziaram a bandeja de cerveja que ele trouxera.
   O garçom saiu com um belo e seco ar arrogante que provocara em Cibele uma atração pela repetição do fato.
   Enquanto ele bebia, ele falava: o cabeludo, olhando mais para o copo que se esvaziava rápido do que para a moça que sorria com um espelho.
   Estavam fora do circulo, percebiam, fingiam tão fortemente não se importarem que chegaram mesmo a acreditar que não se importavam.
   -Não tocam rock n’rol nesta p...de festa não é ? fora ele.
   Cibele sentiu que a palavra torpe fora o mais belo e engraçado que vira dele.Se ele continuasse as falando seria capaz de toma-lo para si, de toma-lo para si com o desejo de que não estourasse como a bola verde que ganhara.A bola verde que durara até chegar tão próximo da casa.
   Sentia o mato matinal pela vereda que atravessava, e com a bola verde tão cuidadosamente suspensa pela linha, ela caminhava à frente dos pais um pouquinho.Ela admirava a bola verde-viva no meio da manhã esbranquiçada.Não fora ela que estourara aquela na sala, fora o vento, e ela se acoimara na culpa sem altercar.Tão frágil, sem a defesa de ninguém quem dirá de si própria.
   Enquanto caminhava alegre, com a recompensa do vento por sua injustiça, sentia um gosto antecipado de biscoito de maizena na boca.
   Mas o vento é como o saci Pererê, e novamente divertiu-se a custa dela.
   -Podemos achar um lugar melhor para nos divertir – falou Cibele excitada como se tivesse experimentado cerveja além da conta.e no céu da sua boca o gosto era do bolo branco com uvas verdes.
   -Quer acompanhar a gente? Indagou o rapaz cabeludo sorrindo animado.
   Cibele viu-se na ponta dos pés, que era assim que sua mente agia por dentro: Ela fugia do quarto na calada da noite, na ponta dos pés enquanto todos dormiam.
   Quando já alcançava a noite tão fechada por pontos isolados que pareciam querer se iluminar, se identificaram, e não foi nenhuma surpresa como se aquele conhecer por acaso fosse irremediavelmente preciso.
   Ele se chamava Max, tão simplesmente Max.Era um nome de uma coisa total que nada devia procurar e pensar e apenas fazer.
   O outro se chamava Jonathan.E seu nome era tão comum e simples como alguém que deve buscar o que se precisa enquanto os dois recém conhecidos conhecem-se.
   Sentaram próximos um do outro, numa calçada de uma rua negra e silenciosa.O vestido claro de Cibele refletia a luz da noite, e ela sorria por dentro se encontrando.Max, olhando o rasgado de sua calça jeans, sentiu a necessidade de se começar um dialogo.
   -Acho que eu sou louco, muito louco mesmo – fora o que falara.
   Cibele sentia vindo dele um agradável cheiro de livro novo, mesmo que a conversa dele não tivesse sentido algum.
   -Eu também...Acho que só ter escapado da onde eu estava para estar aqui com você.
   Cibele depois de ter dito isto com tanta paixão que o peito arquejava como cheia de cansaço, aguardou em um profundo silêncio, um silêncio que respeitava, queria a voz dele para ouvir.
   -Você vai querer curtir o barato com a gente? Fora ele perguntando.
   Cibele respondera apenas com um meneio de cabeça, queria ouvi-lo, apenas ouvi-lo.Era como aquela tarde entediada e triste de férias escolares – que ela acreditara que seria maravilhosa – deitada de bruços na cama, sentindo o abafado do quarto e ouvindo os barulhos que vinham da rua, e o pai chegara com três exemplares de Monteiro Lobato.Ela demorara até um instante grande para tira-los do plástico que os envolvia, até que quando os libertou do invólucro – antes de pensar em ler – cheirou os livros, que imaginara se um dia seria possível existir perfume com aroma de livro novo.
   Max falava em coisas circulares e até suas palavras pareciam mais gestos que propriamente palavras.E tudo era um livro novo, de uma estória que logo ela poderia compreender, porque antes ela queria apenas o cheiro.
   Se pudesse ficar para sempre com tudo que sentia...


   Debaixo de um viaduto, sentada num caixote, tão elegante, com o cuidado parvo de não amarfanhar o vestido, Cibele sentia-se numa terra estranha, e olhando os dois meninos ao seu lado sentados ao chão, procurou, procurou o nome da terra estranha.Sorriu para dentro, mas fez tanto esforço para isto que o sorriso escapuliu.Max não podia ver, ocupava-se em fazer uma bagana de maconha, num ofegar animado e exaltado de um grande artista.Passou os lábios para selar a bagana, numa gratidão tão realizada.Cibele sorriu sem nenhum espanto, pelo que era desconhecido, e tanto mesmo era inocente.
   Cibele ainda procurava o nome da terra estranha em que se achara certa vez – escuta o barulho dos carros passando acima, no viaduto – e ali embaixo tão vaidosa, infantil e se descobrindo novamente numa terra estranha que não tinha nome.E olha o que fazia, procurava, procurava...Fechou os olhos e veio na mente a musica da festa, mais do que a musica da festa, o alvoroço da gente que cheirava ao fundo de uma mala de dentista.E de tão nítido que estava seu pensamento, de tão nítido e claro que houve a brusca intromissão de uma bola verde subindo, da mão de uma criança que a deixara perder, voar, voar, voar...a bola ganhava um céu que não tinha definida,e a criança chorava, chorava desesperadamente pela bola perdida.
   Cibele tragou o cigarro, e forte, queimou-lhe a garganta como um conhaque que provara do fundo de um copo, escondido do pai.Tossiu passando a bagana novamente para Max – e Jonathan fazia o seu próprio com o mesmo orgulho – e Max fumava maconha com facilidade, sem tossir e falando rouco o oferece a Cibele.ela recebia rindo, festiva com aquilo que não entendia.Nunca entendeu também porque provara aquele resto de conhaque do copo abandonado em cima da mesa, depois que o pai e o amigo deixaram a cozinha rindo e falando coisas tão inteligentes que ela jamais acreditaria.Sabe que vendo além do copo de cristal o liquido quase marrom, aguçou-lhe mais do que um banal desejo, mesmo uma curiosidade.
   Agora aos pouquinhos, cada agora daquele instante que se demora ela is se acostumando rápido, e pensou: com o conhaque poderia acontecer o mesmo.
   -Eu sou um cara que curte a idéia da solidão – falou Max sem nenhum luxo na voz.
   Cibele apenas desenhava no rosto um sorriso, na expressão de quem ouvia, ela só queria mesmo ouvir, porque o falar de Max era o cheiro dos livros que recebera do pai.E que bem na verdade fora o maior presente que recebera até ali na sua vida.Quem sabe o que viria mais...
   Max já vinha, e já estava, e tão de repente.
   A bola dela estourara, sim estourara, mas aquela de um certo menino subira voando livre ganhando um céu de cor indefinida.E Cibele tão tonta pelo efeito da maconha como pela voz de Max que a embebia de um cheiro de livro novo.Cibele olhava para o céu e via o negro opaco num verdadeiro indefinido.
   -mais bonito que se tivesse estrelas – murmurou baixo, com cuidado para não interromper Max.
   -o quê? Indagara ele interrompendo as insanidades que dizia.
   -Nada – recuou ela com medo de se mostrar, afinal sabia que estava em terra estranha.
   -Pode falar, pode falar, entre a gente tudo já é íntimo.
   Ela sorriu deliciada, sentindo o gosto do bolo branco adornado de uvas verdes.Sentia como de verdade o gosto do bolo que sempre desejou comer.E que tantas noite quando se preparava para dormir – antes de pegar no sono – ela desejava voltar no tempo.Ridiculamente se via voltando e acreditando.Levantava o cobertor até o pescoço, satisfeita – apenas a cabeça descoberta na escuridão silenciosa do quarto – mastigava de boca fechada, porém sabia bem que não provara o bolo.Não conseguia, mesmo ridiculamente voltando no tempo como fazia então.
   -Eu queria ter a liberdade de me deixar viver meus próprios sentimentos – falou Cibele num leve desencontro de si, perscrutando as próprias palavras que dizia.Dentro de si conhecia que o sobrenatural agia de forma delineadora.
   -Eu senti tristeza Max, senti tristeza quando aquele menino – subindo a rua com os pais – deixou a bola escapar, fugir...E a bola verde voava, e o menino chorava desesperado, e os pais sem nada poder fazer.
   Max ouvia, com olhos, que ouvem uma musica agradável; e o cigarro de maconha nem tinha tempo de queimar um pouco na ponta dos dedos.
   Jonathan ouvia os dois, com seu cigarro de maconha entre os dedos que por cansaço às vezes também dividia com Cibele.
   Um dia – como sempre fora pequena pode ter sido ontem – Cibele se imaginou descendo de um avião num aeroporto, com um lindo casaco de pele de urso – porque o lugar fazia muito frio – era uma terra estranha.Ela sabia – e de ombros firmes como nunca tivera – que ganhava o “novo mundo” com ar e petulância.Mal atravessara o portão de desembarque viu-se na cidade de arvores secas, de torres imensas, prédios espelhados, automóveis cinzentos e velozes no asfalto úmido e escorregadio.E ela tão nobre, linda, confiante, sem bagagem pelo que só precisava mesmo era de um sorriso, de uma certa dose de altivez.E ela ganhava a terra estranha com coragem e cada vez mais curiosidade.A curiosidade que atravessava ruas, ousava a dar um sorriso gelado para um desconhecido qualquer pelo caminho.
   -Eu me agarrei tão infeliz a minha bola verde, com o medonho pânico que ela fugisse de mim como aquela fugira do menino.
   Cibele não apenas parara de falar, mas por certo momento também a respiração.Sentia o calor de uma lassidão.A noite continuava intensa e tanto se havia falado.Não, nem tanto se havia falado, apenas a mísera metade de tudo que vivera até ali.
   Max esperava, com os olhos que demonstravam certa piedade em luxuria,e tentou tão parvo alcançar a sua mão na dela abandonada ao regaço.
   Era difícil como se espremer um limão com uma mão para lhe tirar o sumo.Cibele permitiu a mão de Max sobre a sua, assim era mais fácil chegar à verdade.E conforme se aproximava da verdade, sentia a espontânea vontade de chorar, e a vontade de chorar vinha num sorriso que entendia que a tristeza na maioria das vezes era mais necessária que a alegria.
   -Mas nada pode durar para sempre – disse ele sem luxo, com até certa vergonha de estar se ocupando em falar.
   -Mas eu só queria que durasse mais um pouquinho, um pouquinho mais – balbuciou num pranto estrangulado.
   A mão dele, suave e quente, deteve as lágrimas que ousavam descer por cima das que já haviam secado ao vento, e ela sorriu se sentindo a moça que avançava a cidade de uma terra estranha, onde se podia conviver com o frio tão bem como perto do mar salgado e de aroma insuportável.
   Jonathan desaparecera de perto dos dois, camuflando-se num canto mais denso-escuro daquele escombro.Todavia se os dois quisessem saber dele, era só ver da onde saía a fumacinha tênue.
   Contudo os dois se reconheciam como uma frase depois de um sinal de dois pontos.
   E o beijo fora apenas o tato vicioso que se tem por algo que atrai tão arrebatadoramente emotivo.


   Não sentira Cibele o peso do andar, porque dentro da noite que se intensificava a cada momento mais, ela fora como que carregada estando abraçada com Max.Ela sentia o calor do corpo dele, a voz dele que procurava economizar palavras, todavia falava muito, e ainda havia o cheiro de livro novo que vinha dele.
   Era tudo tão novo e surpreendente que um dia nunca se imaginou.
   E ainda era sábado, quem sabe, os passarinhos dormiam, dormiriam a semana toda até que novamente fosse sábado e ela acordasse triste e surpresa por isto, esperando o pai chegar da rua com uma surpresa boa.Feliz por um passeio, por estar junto de Bettina e do verde tão lindo que a cercava, e que fazia com que Cibele invejasse e desejasse.E seria um grande dia...
   Se ela pudesse contar um dia, se ela pudesse contar – e contaria pela inocência que era um bordado invisível no seio do vestido todo branco – e talvez seria Bettina que invejasse e desejasse aquilo tudo para si.
   Cibele sentiu-se solta, livre de algo que sempre a prendera.Sentia os braços voarem como asas sem sair do chão, e via-se cercada de gente que cheirava a cortina descerrada para uma janela ao sol; Max ao seu lado, Jonathan em um canto cuidando das coisas, fingindo assoviar com a ponta dos pés.
   Cibele rodopiava alegre em torno de si e dos outros: como translação e rotação.E a musica barulhenta, confusa e bem cifrada às vezes que lhe atingia a sensação em flor como um hino ouvido de um pico de uma montanha que faz eco.E ela muitas vezes se sentiu andando fora do chão, no que alegremente alcançava Max, que tão louco estava por vê-la feliz.
   Tudo apenas tinha instantes, e alcançara patamar máximo de uma vida inteira.
   Max, Max ele era mesmo o próprio nome, como poderia acreditar em alguém que era o próprio nome.
   Só ela era roupa branca, e o negro das outras roupas enchiam de um halo de luz o seu vestido.
   Cibele era um espelho, um espelho que refletia, e isto fazia pouca importância.
   Sentindo-se um pouco cansada, parou, rindo, ofegando, procurando Max com o olhar.E lá estava Max tão feliz por ela do que por si mesmo.Tudo era razoavelmente natural, que por vários instantes nem necessitava de força.
   Já não tinha mais vaidade com o vestido claro como o dia que não pensava que tão logo nasceria, e sentara no chão de uma calçada com Max ao seu lado, onde podiam ainda ouvir a musica.
   Max preparava com arte mais uma bagana de maconha; enquanto ela, ocupando-se de ser absorvida pelo heavy metal, acreditava estar de calça jeans.
   -Ah, eu odeio aquele som de piano, eu odeio toda aquela delicadeza de Bettina, todo amor doce e açucarado.
   Max ouvia-a como ouvia a musica, sorrindo, mesmo concentrado em sua arte.E subia a cheiro a rua povoada de gente alvoroçada para viver a felicidade em um só gole; e eles dois ali no cantinho daquela calçada, tão próximos, sedentos para realizar o delito.
   -Ah, aquele bolo Max, ah, mas ainda bem que nunca provei daquele bolo.Apesar de tão lindo com aquelas uvas verdes por cima.Aquelas uvas verdes como os olhos de Bettina.
   Max já acendia – com seu inseparável isqueiro tirado daquele bolso roto cheio de restos de farelos de biscoitos – a bagana enorme que fizera.E como um cavalheiro a oferecia primeiro, e ela aceitava tão graciosa como uma flor.
   E aquilo de inicial apenas tinha a familiaridade comum que era mesmo o seu próprio girar em torno de Max.
   Max era o sol de sua galáxia, embora fosse ainda uma estrangeira.Mas fora assim que sempre sonhara pelas manhãs que modorrara para levantar da cama: a mulher que encarava a terra estranha e fria com uma intimidade audaciosa, ousando até sorrir para qualquer um indiferente.
   Aproximou seus lábios dos lábios de Max, e cada um guardando fumaça dentro da boca, fizeram a troca.
   Os lábios de Max ela devorava, e no longínquo pensamento semi acordado ela lembrava, sentia o gosto da uva verde do bolo branco; sentia até o barulhinho da uva estourando, ou seria a bola verde que o vento – pela janela aberta – estourara.
   Depois do beijo, era tudo envolvido numa bruma de maconha queimando, e nisto ela caiu o semblante sobre o ombro dele.Secretamente achava que podia lê-lo.Sim o lia, era divertido como a surpresa, como o cheiro, tudo devagar, e poderia ser repetido muitas vezes, porque, porque ele era um rapaz.
   Cibele cuidava em lê-lo devagar, para guardar muito mais para outros dias...e sem que percebesse balbuciava o salgado da sua vida que não experimentara o doce daquele bolo que guardava o segredo da beleza verdadeira do sabor.
   Todavia o doce bom mesmo era aquele que tinha um azedinho tão escondido no final como o inegável sabor de uma uva verde.
   ...Assim tentou imaginar a bola verde.E tentara resguardar tanto no caminho de casa, depois do desespero de ver que a do menino escapulira para o céu indefinido.O seu céu – o que ela via acima, pelo medo do matagal que a cercava – era definido, quase azul, mas fora o vento que a estourara: o saci pererê.E no meio do seu desespero podia acreditar ouvindo a risada do vento se perdendo até onde nem a imaginação alcançava.Assim como os pais do menino, os seus pais também não puderam fazer nada: adultos impotentes ante ao desespero parvo dos seus pequeninos.
   O que poderia dizer Cibele para Max depois do beijo?
   -Não estoure, não estoure, nem fuja com o vento para o encontro do céu...
   Ele não entendia, sorria, divertia-se, e sentiam-se cada vez mais íntimos.Tudo que os envolvia era um mistério onde só acontecia revelações tão secretas quanto a vida que se guarda no banheiro.
   Começaram a caminhar juntos, abraçados, não se sentindo – mas sim – sentindo um ao outro.E vinha de encontro ao rosto de Cibele mais do que simplesmente um vento fresco de uma noite que se desvanecia, era uma sensação nova.Não assistia aquilo num canto escondida sob uma luz mortiça, vivia aquilo na intensidade brusca.E nem pode se lembrar se sentiram ou se sentiam a falta dela na festa – afinal era sempre tão secreta e sem querer.
   Quando chegaram ao final da rua comprida e estreita, deram de frente sem nenhum espanto, com uma alameda onde no meio havia um valão que outrora fora um rio.A cidade tinha uma pretensão suja de acordar em plena madrugada que se sabia que era domingo.
   Na margem do valão, andaram em fila sem separarem as mãos, e ela sentia um ar quente vindo do valão que outrora fora um rio.
   E tudo era tão encantador...
   Um azul arroxeado num horizonte tão longe de se alcançar – e as nuvens que se viu no dia que acabara para sempre não se via mais – e algo cheirando a diesel e soprando velocidade fazia dizer que a cidade queria acordar mesmo sabendo que era domingo.

   Cibele sentiu-se de novo, quando estava acordada, e foi o sol alisando forte sua testa que a fez crer que o inacreditável acabara acontecendo.E nem pensou no duro do banco de madeira onde adormecera, e sim nos braços que a apertava, no corpo que a protegia, mesmo ainda que este ressonava tanto.Ela emotiva pela realidade incrível absorvia o cheiro do livro novo, já aguardava o próximo momento de lê-lo mais um pouquinho, mas deixava sentir o cheiro da coisa nova tão surpresa a cada instante.Era bom tê-lo, senti-lo...Max, prolongaria a sensação a guardando mesmo que perdesse um pouco do sabor.
   Com o olhar protegido, contra a luz, pelas costas de Max ela já sabia que estavam numa praça; ela ouvia o som de vozes de crianças, identificava-as como a sua própria voz num pronto desespero a qualquer momento, frágil por qualquer coisa, fina como cristal.Alegria e tristeza confundidas na corola de uma só flor.
   Com Max acordando e pondo-se de sentado ao banco de modo abrupto, ela teve que se adiantar nisto, e pareceu fácil como se já estivesse pronta.
   Os dois sentados, ele esfregava a cara cansada e feliz, os cabelos em desalinho.Ela de um claro sujo no vestido que marcava.
   -a gente vai se ver sempre...
   -Sempre, sempre – afirmava ele buscando o olhar dela.
   Então era domingo, já o dia avançado, ela ouvia passarinhos, e era domingo.Ela crescia bem aos poucos...Nem pensando se podia estar aflitos com o seu sumiço.Ela queria era demorar ou inteirar a noite com mais um pedaço da manhã.Ela deitou sua cabeça ao ombro dele, e sentiu o hálito antes do beijo nos cabelos: os livros que o pai trouxera,e quebrara a rotina com um frescor de inverno carioca.Ela deixaria para lê-lo um pouquinho mais tarde, só que ele abria suas páginas lindas e ela não podia resistir.
   E com isto tudo, ela adiava, ela adiava – com vontade de quando chegar em casa encontrar um pedaço de bolo branco com uva verde em cima de um guardanapo rosa à mesa, esperando-a – e ela adiava porque crescia tão devagar que era só gota.
   E com um medo latejante – desesperado, cheio de pranto louco para explodir sem socorro que desse jeito – ela acreditava que na breve despedida, quando ela virasse as costas, Max estouraria ao vento com este rindo satírico e vitorioso mais uma vez.

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AUTOR: RODNEY ARAGÃO
   
Rodney Dos Santos Aragão
Enviado por Rodney Dos Santos Aragão em 21/09/2007
Código do texto: T662453

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Sobre o autor
Rodney Dos Santos Aragão
Cabo Frio - Rio de Janeiro - Brasil, 44 anos
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Rodney Dos Santos Aragão