Diário. A sensação

30 de julho de 2019

Sabe, diário, o que é viver sem nada lhe dar prazer?

O dia passa e vem outro e mais outro e a angústia só aumenta. Sei que este sentimento vai passar, mas está puxado.

Meu trabalho está sendo um fardo. Meus amigos, apenas pessoas. Apenas a afinidade familiar perdura.

Vivo meio assim. Rindo pras pessoas, mas apenas rindo sem vida. Converso com as pessoas mais pra distrair que por prazer. Às vezes brinco na tentativa de esconder o sentimento, mas ele está lá. Aceso e vivo. Não diminui.

Ah, diário, que sensação horrível! Angústia, tristeza, raiva, ira, impotência. São sentimentos vívidos. Acesos.

Minha fé não desfaleceu ainda mas ainda não tive argumento pra conversar com Deus.

Tenho pensado em falar com Deus, mas não sei por onde conversar.

Na verdade não quero encará-lo agora. Estou meio cabreiro com ele. Sabia, diário, que você ia fazer essa cara de horrorizado. Mas estou cabreiro com Deus sim. Que que eu posso fazer?

Queria falar com ele, mas se ele respondesse. Tipo: Moisés. Você pode até achar que estou querendo demais, diário. Eu sei que Deus não vai falar comigo como falou com Moisés. Hora se não sei. Mas queria uma conversa assim: de homem pra Deus.

Mas sei que este sentimento vai passar e pouco a pouco minha cabeça vai voltando e voltando até o ponto do qual fora arrancada.

Depois da morte de minha mãe ainda não tinha encontrado um motivo que me deixasse assim: meio desmantelado. Sem noção e sem interesse na vida que deve seguir.

Não, diário. Não vou repetir os motivos do meu estado. Você já sabe. Todo mundo sabe. Os jornais falam diariamente. Já é assunto corriqueiro. Pra quê, diário, repetir aqui?

A Soledade? Porque me perguntas pela Soledade?

Deve está sabendo de tudo, diário. Este acontecimento atravessou as décadas passadas e como eu Soledade está triste e acamada. Não, diário. Sem ânimo pra Soledade. Deixa aquela caboca pra lá um tiquim.

Fora você, diário, ela seria a outra pessoa a quem derramaria minha alma de amargura. Mas Soledade já muito amargurada.

O Américo também não falei mais com ele.

Esses dias minha cabeça está fixada na minha família e na tragédia que nos assaltou.

Ah, diário. As viagens já eram. Sem mente pra viajar. Hoje o paraíso teria a sensação do inferno. Quão negro está meu coração.

Professor Carlos Jaime.

CARLOS JAIME
Enviado por CARLOS JAIME em 30/07/2019
Código do texto: T6708238
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