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Alvorada

Mesmo numa manhã tão linda e fresca como essa, em um lugar onde nos sentimos bem respirando ar puro, onde o vento canta docemente nos seus ouvidos e o sol nos conforta e nos envolve, a solidão pode alcançar a mais despreparada das almas. Esse banco não me traz felicidade, e não entendo por que deveria, mas é o meu desejo agora.
Abaixo meu jornal e vejo uma menininha correndo entre as pombas, sorrindo e fazendo do seu dia um dos mais alegres. Como seria bom se eu conseguisse esquecer o mundo que não me agrada, o mundo que não me tolera, o mundo que eu tento entender e ao mesmo tempo afastar de mim, e correr feliz também. Sentindo a luz da manhã acariciar meu rosto, o vento soprar entre meus cabelos e pensar que tudo pode ter essa sensação prazerosa se eu quiser.
As conversas fluem gostosamente e as naturais risadas infantis se mesclam com os sons da natureza. Que lugar aprazível esse em que me encontro. Como sou capaz desse sentimento tão incompleto?
Volto a ler aquelas recentes e velhas notícias no meu jornal quando uma grande bola colorida surge aos meus pés. Parece escapar da praia apenas para reforçar qualquer saudade que eu possa estar sentindo. A menininha que corria entre as pombas me olha de longe. Ela deve estar querendo se aproximar, mas por que não o faz? Venha buscar logo sua bola, garota, volte a pular daquela maneira tão vívida, livre e invejável. Não fique aí parada, me esperando.
Ela não parece se mover, só seus olhos brilham. Por fim decido dobrar as páginas, levantar do banco e devolver a bola. Ao me aproximar, a garotinha abre um sorriso. Um lindo e grande sorriso de compaixão e alegria.
Estendo as mãos e ela me diz: “Não, moço. Não é minha essa bola.” Dá as costas e sai correndo atrás de uma borboleta, me deixando ali parado olhando ao meu redor.
Mas ninguém foi buscar a bola. Espero. Mas não, ninguém virá buscar essa bola. A garotinha já se foi, onde ela está? Ah, eu poderia ter lhe dado a bola.
Vou embora com meu jornal, minha bola, meus desejos. Passo a tarde olhando tudo isso, e sorrindo. Nada é concreto o suficiente para nos fazer bem. Percebo que não preciso de algo sólido, sou capaz de ser feliz apenas sendo eu mesmo e estando onde que quero, assim como a garotinha. Que não era a dona da grande bola colorida de praia. Que ficou me esperando, parada, sorrindo. Aparentemente sem motivo.
Francisca
Enviado por Francisca em 29/09/2007
Código do texto: T673003

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Sobre a autora
Francisca
São Paulo - São Paulo - Brasil, 28 anos
7 textos (308 leituras)
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Francisca