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O Trouxa

Minhas mãos tremiam ao digitar a senha no caixa eletrônico. Nunca antes a impressão dum extrato bancário pareceu ter demorado tanto (talvez apenas daquela vez em que estourei o limite do cheque especial) e, quando a máquina cuspiu o papelzinho, a minha reação foi um resmungo engasgado:
— Aquela vaca me roubou!

A vaca havia se apresentado como Elisa Sampaio. Conhecemo-nos numa sala de bate-papo na Internet, ela morava no interior, eu na capital. Elisa tinha uma conversa interessante, versava sobre quase tudo com fluência e logo deixei de dialogar com outras pretendentes, destinando exclusividade a Elisa.
Trocamos fotos por e-mail, ela não era linda, mas, como eu já estava apaixonado, fiquei radiante. Mal podia agüentar minhas férias chegarem para eu embarcar num ônibus e conhecer pessoalmente Elisa.
Porém, antes disto, recebi a maravilhosa notícia. Ela havia pedido as contas no serviço e estava se mudando para cá, seria a oportunidade para nos encontrarmos.
Na TV, notícias de crimes cometidos pela Internet: seqüestros, estupros, assassinatos. Temerosa, Elisa sugeriu para nosso primeiro encontro um local público, para segurança de ambos.
Estava ocorrendo uma feira na cidade, com parque de diversões e tudo mais. Comemos maçã do amor, andamos na roda-gigante e demos nosso primeiro beijo no trem-fantasma, tudo na maior melação amorosa. Afinal, estávamos apaixonados!
Elisa foi dura na queda, sucessivas vezes insistiu que não fazia sexo no primeiro encontro, mas, no segundo, cedeu. Quem resiste a um jantar romântico, a dois, luz de velas e um bom vinho?
Porém, nos dias seguintes, Elisa se comportou de maneira estranha. Perguntei-lhe o porquê:
— As coisas não andam fáceis, Robson, vim para cá, mas não estou conseguindo emprego. Na pensãozinha onde estou, a semana vence amanhã, e não tenho dinheiro nem para onde ir.
Na minha mente, a resposta era única e óbvia.
— Venha para minha casa!
Na mesma noite, Elisa se mudou para meu apartamento, trazendo mala e cuia.
Eu não cabia em mim de tamanha felicidade. Após tantos anos procurando uma companheira, uma mulher que sabia cozinhar e insaciável na cama era muito mais do que poderia imaginar.
Como um casalzinho novo, todo dia eu voltava com um presente para Elisa, ou um buquê de flores, beijávamo-nos ardentemente e acabávamos sob os lençóis.
Meu salário era razoável, mas, ao perceber que Elisa não estava procurando emprego, senti de deveria tomar uma providência.
— Amor, abriu uma vaga para secretária na minha empresa. Você não quer mandar um currículo pra lá?
— Ah, Robie, a nossa vida não está boa deste jeito? Tenho medo de que, se eu começar a trabalhar, nosso relacionamento mude. Sabe como é: vou chegar cansada, sem pique. Sempre sonhei em ser dona-de-casa. Poderíamos até nos casar...
Esta evolução súbita, de sexo a casamento, me assustou.
— É melhor não nos apressarmos — titubeei — Você poderia arranjar um emprego, talvez alugar um lugar aqui perto. Poderíamos aproveitar nosso namoro, casamento é um passo muito importante.
Porém, Elisa chorou, soluçando, reclamando que eu não a amava, o que estava bem longe de ser verdade. Reconciliamo-nos, e eu prometi que pensaria na proposta dela.
Creio que foi nesta semana que percebi algo estranho: dinheiro miúdo estava desaparecendo da minha carteira, às vezes eram três reais, noutras, cinco, mas, diariamente, havia menos dinheiro do que no dia anterior.
— Você está precisando de algo? — perguntei a Elisa — Se você não se incomodar, eu posso até lhe dar uma mesada. Não sou rico, mas uns cem ou duzentos reais por mês posso separar para você.
— Nunca pensei em encontrar um homem tão maravilhoso! — Elisa me abraçava e beijava, mas, mesmo assim, os trocados continuaram sumindo.
Depois, foram pequenos itens de casa: alguns talheres de prata, herança da minha vó; um candelabro de cristal, que Elisa alegou ter quebrado durante a faxina e, por fim, até meu relógio de pulso, que sempre deixava na cabeceira da cama antes de dormir, que valia umas quinhentas pratas.
Quando perguntei a Elisa se ela havia reparado nestes estranhos desaparecimentos, ela respondeu:
— Você é muito distraído, Robie. Está sempre perdendo tudo!
Só que antes de conhecê-la nada disto ocorria, e este fato me incomodava.

— Não passou pela sua cabeça que ela possa ser uma vigarista, uma contista? — um amigo me advertiu — Já ouvi histórias semelhantes. Daqui a pouco, você volta pra casa e esta mulher limpou tudo.
Que boca maldita! Foi nesta mesma tarde que descobri que limparam minha conta no banco, e, ao chegar em casa, só o vazio, nem um único móvel, nem uma única peça de roupa havia restado. A desgraçada me deixou com a roupa do corpo e um apartamento onde até meu choro ecoava pelos cômodos nus.

Elisa Sampaio não deixou rastros, na polícia, informaram-me que mesmo o nome dela deveria ser falso, que caí num bem articulado conto-do-vigário e que não deveria me penitenciar por causa disto, muita gente bem mais inteligente do que eu (esta sentença feriu meus brios) também já havia dado uma de pato.

Mas decidi virar o jogo.
Voltei à Internet, mas quem ostentava agora um nome falso era eu. Vaguei pelas salas de bate-papo, conversando com dezenas de mulheres, tentando reencontrar Elisa. Suspeitei de duas, depois descobri que não eram ela. E meu peito doía de desespero, sentindo-me o mais trouxa dos trouxas.
Não a descobri na rede e acabei desistindo. Desistindo, mas não esquecendo, principalmente quando, ao chegar em casa à noite, eu era obrigado a me recolher ao meu quarto, onde havia apenas um colchonete. Porém, consolava-me a mim mesmo, com aquele mesmo argumento das velhas beatas:
— “Se não há justiça dos homens, haverá pelo menos de Deus”.
O que me fazia sentir um tolo, ao recorrer a um Deus que há anos não mais acreditava.

No entanto, numa manhã de sábado, ao ir à compra de roupas novas, de relance, vi uma mulher, cheia de jóias, vestido justíssimo, desfilando para dentro dum carro com motorista.
A voz ficou presa, eu queria berrar, xingá-la com todos os palavrões que eu conhecia, mas só arrotei um:
— Elisa?
Alucinado, corri até meu automóvel, estacionado do outro lado da rua, e segui aquele onde estava Elisa.
Chegaram a um bairro de alta classe e cruzaram os portões duma mansão. Anotei o endereço e prometi a mim mesmo que desmascaria esta vadia.

O que se sucedeu nos dias seguintes é confuso na minha mente: fiquei de tocaia diante do casarão, segui-a até um shopping center, abordei-a quando ela foi ao toalete, pronto para me vingar dela, porém, a antiga flama dum amor pretérito se reacendeu, quando Elisa me suplicou para acreditar nela, alegando que tudo que ela fez contra mim foi sob coação, que ela ainda me amava, que nunca havia me esquecido. Transamos no banheiro no shopping, eu mais feliz do que nunca por tê-la reencontrado e descobrir que meu amor era correspondido.
O verdadeiro canalha era o dono daquela mansão, pelo que Elisa me contou. Pablo era um extorsionário profissional. Havia praticado golpes ao redor do mundo, desde Santa Fé de Bogotá, donde ele provinha, passando por Mônaco até chegar ao Brasil, reconhecidamente a pátria da impunidade.
Elisa me pediu ajuda para se livrar deste pústula, que a mantinha sob vigilância constante, utilizando-a para realizar seus trambiques. Juntos, maquinamos um plano infalível, roubaríamos a fortuna dele e fugiríamos do país. Mais simples, impossível.
Num quarto de hotel, poucas horas antes de perpetrarmos nosso projeto, fizemos sexo selvagem, Elisa me pedindo para estapear-lhe a cara, arranhando-me a costas, como se fôssemos animais.
A minha comparsa facilitou-me o acesso à mansão e, à noite, entrei na casa adormecida. Elisa me encontrou ao rés-do-chão e, aos sussurros, me instruiu:
— Fique aqui embaixo vigiando, que eu vou subir para abrir o cofre. Se alguém aparecer, você sobe e me avisa.
E, para minha surpresa, me entregou uma pistola, à qual eu não sabia nem como empunhar.
Elisa subiu ao primeiro andar. Eu estava tão ansioso que andava dum lado ao outro, consultando o relógio a cada cinco segundos. Elisa estava demorando uma eternidade para voltar.
Haveria acontecido algo?
Mas eu me continha.
Porém, após meia hora, achei mais prudente verificar se tudo estava bem. Vaguei pelos cômodos do primeiro andar, mas não a encontrei. Passei pelo escritório de Pablo, todo revirado, cofre aberto, mas lá Elisa também não estava. Por fim, cheguei a um quarto, porta entreaberta.
Empurrei-a um pouco e adentrei o aposento na penumbra. Alguém estava deitado na cama, supus ser Pablo, e o medo me paralisou. Temia que ele despertasse e eu tivesse de usar a arma; temia que ele acordasse, gritasse, e uma merda acontecesse. No entanto, algo estava esquisito. Assim que meus olhos se acostumaram com a escuridão, percebi que ele estava deitado de bruços, mãos atadas nas costas, um capuz na cabeça. Aterrorizado, afastei-me e acendi a luz. Foi quando descobri que Pablo estava morto, havia levado um tiro nos miolos.
Sem saber o que fazer, deixei a pistola cair e corri pelos cômodos, procurando Elisa novamente, chamando-a em sussurros. Eu tremia, minhas pernas estavam fracas, entrei num lavabo e comecei a chorar. Ouvi som de sirenes, a polícia havia sido chamada.

Fui preso, interrogado, queriam saber onde eu havia escondido o dinheiro de Pablo, o honesto e dedicado dono duma rede de panificadoras. Recusei-me a responder as perguntas, enquanto aguardava meu advogado.
Mas minha maior surpresa foi quando me puseram numa saleta envidraçada. Policiais apareceram, escoltando uma mulher. Era Elisa.
Os policiais perguntaram a ela:
— Foi este homem que invadiu sua casa e a violentou?
Soluçando, Elisa respondeu:
— Sim, sim, foi ele! — e desviou o olhar de mim.
Descontrolei-me e amaldiçoei até a quinta geração da desgraçada, mas os policiais me contiveram e ainda tive de ouvir do delegado:
— Se acalme aí, mocinha, pois, na penitenciária eles vão se fartar com estupradores como você!

Fui julgado por júri popular, condenado a quarenta anos de prisão por homicídio doloso, estupro, lesão corporal, roubo, e outras acusações menores. Fui enviado a uma penitenciária estadual, feito de mulherzinha, contraí HIV e quase fui morto na última rebelião.
Na semana passada, no dia da visita, chamaram-me, dizendo que alguém havia vindo me ver. Evento extraordinário, já que todos meus amigos e parentes desapareceram após a condenação.
Cheguei ao pátio e vi uma mulher sentada, absorta em pensamentos. Foi difícil reconhecê-la, após tantos meses, ela havia tingido e cortados os cabelos. Elisa me olhou e sorriu. Primeiro, pensei em saltar sobre ela e matá-la com o canivete que escondia nas calças. Seria a vingança que tanto almejei. Entretanto, não tive coragem, sentei-me ao lado dela e perguntei o que ela estava fazendo aqui.
— Pensei muito em você nestes últimos tempos — ela me disse.
Conversamos e eu a perdoei. Uma vez por semana, ela vem me visitar.
Por incrível que pareça, Elisa (se este for realmente o nome dela) é, e sempre será, meu grande amor.

Henry Alfred Bugalho
Enviado por Henry Alfred Bugalho em 07/10/2007
Código do texto: T683912
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Sobre o autor
Henry Alfred Bugalho
Estados Unidos, 37 anos
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