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Eu não Entendi

Eu Não Entendi
Dezembro de 1984, a noite estava mais escura do que nos outros dias. As estrelas se escondiam em neblinas e o sorriso de minha mãe havia sumido.

Aproximei-me dela e perguntei-lhe sobre sua tristeza. Ela devolveu-me um olhar que não pude mais esquecer e em seguida me deu um sorriso forçado, dizendo-me que tudo estava bem. Pediu para eu ir dormir, mas não fui, senti que estava acontecendo algo de estranho em minha família.

Depois de meditar, deitei-me na cama e fechei os olhos. Meu pai chegou... Ele não veio me dar o beijo que costumava, fiquei triste e pensei: “ele esqueceu”.

Momentos depois ele falou alguma coisa com minha mãe e foi embora. Era muito tarde e não entendi por que ele estava saindo àquela hora de casa. Esperei um tempo e levantei. O relógio da sala marcava quatro horas da manhã. Fui até a geladeira, estava com fome, mas não tinha nada para eu comer. Um soluço seco me chamou atenção. “Minha mãe?”, pensei. Fui até o seu quarto e a flagrei chorando, ela me olhou de longe e lentamente aproximou-se, pensei que iria gritar comigo como de costume, mas ela me abraçou e liberou o choro. Eu também chorei, não sabia por que estava chorando, talvez por vê-la chorar, mas ela, “por que?” Me perguntei. Ficamos chorando um bom tempo, até que eu adormeci.

No dia seguinte ela estava morta, mas respirando. Seus lábios que viviam pintados estavam brancos, sua pele desbotada, cabelos dispersos e uma lágrima que a denunciava.

Fiquei com medo de aproximar-me dela. Seu semblante assustava, resolvi observá-la de longe.

Já eram 9 horas da manhã e ela não havia me chamado para tomar café, mesmo assim sentei-me à mesa vazia e esperei o pão com manteiga e o leite. Ela aproximou-se de mim e disse friamente: “não tem nada!” Não insisti e fui para o colégio, pois sabia que merendaria no recreio. Todos os dias têm um mingau ou uma sopa para os alunos. Eu me fartava, aliás, eu só pensava nisso quando chegava na sala de aula, mas nesse dia não teve merenda e voltei para casa com dor no estômago.

Cheguei em casa devagar e não fiz nenhum barulho. Abri a porta do quarto da mamãe e fui em sua direção. Ela nem me notou, continuava lá; imóvel, como se alguém tivesse lhe tirado a alma. A chamei e ela não respondeu.

A fome doía na minha barriga, novamente a chamei, ela não respondeu. Por um momento senti medo de minha mãe e sem saber o que fazer e o que falar comecei a chorar. Percebendo o meu choro ela se aproximou, me pegou no colo e chorou junto comigo. Nós nos abraçamos e choramos outra vez.

À noite ela arrumou uns pedaços de carne, um pouco de arroz e farinha para eu comer. A refeição foi mais uma boa ação da dona Helena, nossa vizinha, que sempre garantia alguma coisa para nós quando a situação estava difícil. Mas minha mãe não comeu nada naquele dia, percebi. As lágrimas a alimentavam.

Esse choro durou uma semana. Ela chorava, eu a acompanhava como se fossemos um dueto de choronas, mas eu não conseguia entender por que chorávamos tanto. Algumas vezes tentei indagar, mas ela nunca me respondia nada de concreto, só dizia que era assunto de gente grande, quando eu insistia a resposta vinha através de um largo e grosso cinto, usado apenas para me educar. Sozinha no quarto tentava decifrar o que era esse assunto de “gente grande” que a fazia chorar tanto. Eu é que não queria ser gente grande para chorar assim, pensava em meu canto discreto.

Depois de dias afastado de casa, meu pai voltou. Ele veio sem vida, sem sorriso e sem o meu beijo.

Ao vê-lo fui ao seu encontro cobrar o beijo que ele sempre me dava. Seus olhos estavam vermelhos e molhados. Sua mão, que logo apertei, estava gelada, ele não conseguiu falar comigo e nem me fitar os olhos. Pensei por um momento que meus pais haviam ficado mudos. O silêncio deles era gritante. E eu estava ali, perdida, sem rumo, sem entender o que estava acontecendo, mas sabia que tinha alguma coisa a ver comigo.

De repente escutei passos curtos e rápidos, era minha mãe que corria para o quarto quando viu o papai em casa. Ele me ignorou e foi atrás dela.

Fiquei com medo de segui-lo, eles sempre brigavam e quebravam os móveis da casa, depois tinham que comprar tudo de novo. Só que papai perdeu o emprego da última briga e não pôde comprar uma outra televisão, fiquei sem assistir a Xuxa.

Sentada no sofá rasgado, que minha mãe juntou de um depósito de lixo, olhava as fotos enferrujadas na parede de madeira, que ameaçava cair sobre as nossas cabeças. Eu, papai e mamãe sorrindo, brincando em um parque de diversões, primeira e última vez que fui em um desses.

Lembrei das bonecas de tecido que mamãe fazia para mim, algumas ela vendia para ganhar um dinheirinho e ajudar nas despesas. Mas eu sempre tive muitas bonecas de pano, uma de cada cor, outras de várias cores. Mas o meu sonho mesmo era ganhar uma bicicleta. Acho que uma menina de 8 anos tem o direito de querer uma bicicleta. Mamãe sempre prometia que compraria. A mamãe era muito engraçada, ela sabia que não podia me dar o que eu pedia, mas me iludia dizendo que me daria tudo e aí de mim que duvidasse. Mas como ter uma bicicleta se em casa não tinha, às vezes, nem alimento, ainda mais bicicleta.

Um grito me devolveu a realidade. Minhas pernas tremeram, lembrei das brigas que eles tinham, das manchas no rosto de mamãe, da ira de meu pai. Eles estavam trancados no quarto e eu não podia fazer nada. Nunca pude fazer nada para ajudar minha mãe, a não ser nos curativos.

Um arrepio pelo corpo me fez suar frio. Senti cheiro de sangue. A morte estava batendo à minha porta e eu não queria abrir.

De repente meu pai apareceu na minha frente, abaixou-se para me ver, segurou a minha mão com força, fiquei com medo dele e me retrai. Sua feição era de terror e angustia. Lacrimejando ele pediu que eu o perdoasse. De novo não entendi! Beijou-me, um beijo frio e doloroso que me arrepiou dos pés a cabeça.

Ainda confusa, tentei arrancar-lhe uma resposta, mas ele estava com pressa e me disse adeus.

Fiquei refletindo por um instante a sua atitude, ai percebi que mamãe não saia do quarto. “Talvez estivesse marcada novamente”, pensei. Antes de encontrá-la no quarto peguei no armário algodão, metiolate e outros remédios que ela usava para curar as feridas que papai deixava. Eu pensava: “mamãe fez alguma coisa errada, papai está apenas a educando”. Com o material na mão, corri ao quarto.

Parei alguns segundos na porta, antes de abrir. Quando minhas mãos tocaram aquela parede fria senti um vento estranho passar por mim, rapidamente empurrei a porta e a vi de longe. Seu corpo estendido no chão, banhado em sangue, provocou-me uma dor muito grande em meu coração, as lágrimas desciam incontrolavelmente pelos meus olhos. Gritei: “mãe, mãe, fala comigo mãe, eu trouxe tudo para te curar!”. Ela não respondeu e eu novamente gritei: “ mãe, minha mãezinha querida fala comigo, está doendo? Tá doendo mãe?”. Ela não respondia. Comecei a ficar preocupada. Não sabia o que estava acontecendo. Gritei outra vez: “maaaaaaaaaaaaaaaaaaãe?” Ela não se movia. Chorei compulsivamente, enquanto limpava seu rosto manchado de vermelho vinho. Ela estava de olhos abertos e sorria para mim. Eu novamente gritei: “ Mãe! Mãe! Mãe!” e pela última vez gritei tão alto que a vizinha Helena ouviu e entrou em casa. Ela chegou e gritou: “ Mirtes?! E eu avisei: “não adianta, ela não responde”, falei a vizinha, enquanto acariciava o cabelo molhado de minha querida mamãe. A vizinha Helena me tirou dali a força e me levou para sua casa, onde estavam seus cinco filhos, sua mãe doente, seu tio paralítico e seu marido desempregado. Eu fui contrariada e não parava de chorar. Queria a minha mãe, mas de repente alguém chegou na casa da vizinha Helena e me levou para um hospital, onde me deram uma injeção, que só me fez acordar no outro dia. Abrir os olhos e estava em um lugar estranho, cheio de pessoas estranhas, com crianças da minha idade que não eram da minha escola e que eu não conhecia. Eu queria a minha mãe e ninguém me dizia nada. Eu não entendia o que estava acontecendo, mas senti que havia perdido para sempre a minha mãe, o meu pai, o meu lar, a minha família, eu só não entendi por que? As marcas no rosto dela ficaram para sempre em mim. Só queria que alguém me explicasse o que aconteceu?

Os dias se passaram e eu não queria comer, só chorar. Pedia para ver minha mãe, ninguém dizia nada. Um vazio grande me destruía por dentro. Chorei muitas noites, gritei várias vezes pela minha mãe, pelo meu pai. Não havia ninguém por perto, ninguém que eu conhecesse, nem mesmo a vizinha Helena.

Depois de vários dias me disseram que minha mãe havia ido falar com Deus. Mas pedi para Deus devolver minha mãe, ele já tinha a mãe dele, eu precisava da minha. “Por que tu levaste minha mãe Deus? Eu a quero de volta, por favor”, pedia a todo instante. A depressão me fez adoecer, tive que ir tomar soro. Nada me animava, nem a televisão. Foi difícil continuar respirando sem ela. Moro hoje em um orfanato, meu pai nunca mais vi, ele esqueceu que a ferida maior ficou em mim. Minha mãe, essa eu nunca apaguei. Pelo menos aqui eu não passo fome e até ganhei uma bicicleta, mas quando eu sair daqui vou procurar minha mãe e saber o que aconteceu porque até agora eu não entendi!

SHIRLEY CASTILHO
Enviado por SHIRLEY CASTILHO em 07/10/2007
Reeditado em 13/09/2008
Código do texto: T684577
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Sobre a autora
SHIRLEY CASTILHO
Belém - Pará - Brasil
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SHIRLEY CASTILHO