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Sonho mais que vida

Sonho mais que vida
Morava com a família em cidade fronteiriça ao Rio de Janeiro. O pai, bancário, a mãe “de prendas domésticas”, três irmãos menores do que ela, cuidados compartilhados com a mãe, as circunstâncias da vida de Marina não lhe davam vaza para se livrar do dia-a-dia  insosso, do bairro acanhado de recursos e costumes.
 Adolescente, era acordar, ir à escola pública próxima de sua casa, papear com colegas no intervalo das aulas, e voltar a tempo de ajudar a mãe. Vez por outra, após os deveres de escola e casa, um pouco de rádio e muito devaneio.
Em época de parcas tecnologias sonoras e visuais, o grande deleite de Marina as histórias de Tio Artur - solteirão e funcionário público de antanho, portanto, com salário razoável e certas economias. Visitante pontual, de uma vez por mês, à irmã Alice, mãe de Marina, nada tinha a ver com o resto da família, de irmãos e irmãs bem mais modestos de ambição.
A repartição pública não o impedia de vestir-se à la Cary Grant,  aquele ator conhecido pela elegância, no auge do cinema hollywoodiano. Mesma desenvoltura e charme. Figura esbelta, de paletó justo no caimento impecável, de duas aberturas atrás, uma de cada lado, chapéu inglês pousado meio de lado à cabeça, ainda que seus gestos fossem meio femininos, Tio Artur atraía olhares de damas distintas e, quiçá, de cavalheiros.
 Ninguém entendia como o homem tornara-se “penetra”, depois, aceito em salões da Alta Sociedade bem exigente do Rio de Janeiro, anos 50. E o sucesso expandia-se por bailes oficiais para diplomatas do exterior, em bal masques exclusivos. Uma pessoa de simples verniz cultural, obtido em conversas apuradas por ouvido ávido, mais do que em livros, museus ou viagens. E, pior que tudo, sem renda pessoal de peso ou família aristocrática. Das línguas estrangeiras, comuns às pessoas da alta sociedade brasileira, arranhava o francês, língua do momento. É verdade que falava um correto português, com pronúncia um tanto snob, aprendido em leitura emprestada e convivência alerta.
 Muito antes da construção da Ponte Rio-Niterói, Tio Arthur pegava a barca da Cantareira, para a visita sagrada, pose de magnata adentrando seu yatch particular. Das Barcas, embarcadouro para Niterói, dirigia-se  a um ônibus plebeu, que se tornava, aos olhos do homem, carro particular importado. De pé no coletivo cheio, o passageiro “de alta linhagem”, saltava na alameda principal do bairro em que a família de Marina morava e seguia a pé até a rua transversal.
 Habitante de Botafogo por algum tempo, de Copacabana logo que lhe deram chance os pequenos aumentos de salário, Tio Artur provocava  e cultivava  a fixação obsessiva de Marina nos cenários bem exaltados: os bairros praianos do Rio. Ela, pobre criatura, que não aspirara sequer a maresia das praias de Niterói.
 Quando o tio mudou-se  e assentou-se defronte ao que, mais tarde, se apelidaria “Praça dos Nordestinos”, em Copacabana, o delírio ocupou a mente da menina-moça. E Tio Artur a alimenta-la:
- Agora, moro no paraíso, Marina. Da janela de meu quarto, vislumbro uma nesga azul-esverdeado, emendando com o céu. E na sala, me envolve todo o verde abundante da praça, repleta de plantas, flores e árvores que nunca morrem. Dou um pulo e, pronto, a praia ensolarada.
 As narrativas, doses fartas de fantasia, enfeitiçavam a moça, quase a transbordar. Marina pedia mais, sempre mais. Queria saber da noite de Copacabana, com descrições minuciosas. O tio Não se furtava : restaurantes repletos de gente e luz, passeios relaxantes à brisa permanente da praia, de melhor efeito que tranqüilizantes farmacológicos. Por extravagância, a espiada em uma das boates, para bebericar e dançar. Difícil a escolha de um night club, dentre os muitos oferecidos pelo bairro.
 - Como Nova York, minha querida, Copacabana “never sleeps”.
Do desagradável, nem uma palavra: prostitutas e eventuais travestis, drogas e abusos alcoólicos. Violência, se existia, despachava-a para outros mundos. Era como se rapazes e moças cândidos conservassem a pureza do homem de Rousseau, em bairro paradoxal, de tentações abundantes.
 Saía o tio e Marina esticava conversa, antes de dormir, com a mãe carioca, que regava a memória, planta rara, todos os dias. Acendiam-se holofotes na vida de Marina: o Carnaval de desfiles impecáveis na Avenida Rio Branco, pelos passeios na beleza da antiga Avenida Central, admirando a City,  imitada aos ingleses e franceses, de lojas ao estilo europeu, da Confeitaria Colombo e seus galantes admiradores das moçoilas à porta, desde muito tempo, entusiasmados pelo desfilar de beldades, entusiasmando-as.
 Sem o saber,  Marina era a Evelyn, do conto famoso de "Dubliners", de James Joyce. Sofria da mesma “paralisia do desejo” que a impedia de sair de sua terra indesejada. Morar no Rio tornara-se obsessão.
 Foi, então que leu nos classificados a oferta de emprego em firma no Centro do Rio de Janeiro. Tomou coragem e barca, deixando mãe, pai e irmãos.
 Tempos outros, emprego no Rio conseguia-se ainda, com certa facilidade. A moça limpa, bonitinha, de fala e escrita razoáveis, foi aceita numa firma. Com o que o pai lhe dera, moradia assegurada.
- Zona Sul, não, menina. É muito cara. Esquece. Procura na Zona Norte -, diziam experientes colegas de trabalho.
 O conjugado ficava em Vila Isabel. Tudo bem. O bairro tinha a tradição do samba de Noel Rosa, não era feio de todo e a universidade aí plantada dava-lhe ares de inteligência. Ademais, ser habitante do Rio de Janeiro, era, por si só, um salário, que a possibilidade de ver Copacabana de perto dobrava.
 No primeiro domingo de sol, arrumou-se a capricho, qual fome que se acalma  com uma fruta ou um suco, antes de se ingerir alimentos mais sólidos. Viagem longa demais, a ansiedade tomou-lhe as emoções. Ao sair do Túnel Novo, novo de verdade e não recauchutado apenas, Marina respirou o alívio de quem sabia da “surpresa” à espreita: a aragem branda e salgada, o céu azul sem mácula, o sol de quase verão, o paraíso anunciado: a Copacabana da descrição do Tio Arthur, meu Deus!
 Saltou do ônibus, sem corpo. Bailava pela calçada do Leme ao Posto 4. Tirou a alpargata de lona, atravessou a areia e... pé no mar, em ui-uis de alegria. Por volta das três da tarde, fome demais. Sacudiu a areia fina e branca, secou os pés com o lencinho de bolsa e atravessou a avenida, para engolir uma tapeação qualquer. Não podia perder tempo com comestíveis comezinhos. Depois, busca ao Tio Artur, no hotel defronte à praça Cardeal Arcoverde.
 O imóvel estava lá, efetivamente: seis andares, de arquitetura bem mais simples do que a desenhada no sonho de Marina. Coragem atípica das moças sozinhas em cidade grande, dirigiu-se ao balcão de madeira e perguntou ao recepcionista:
- Por favor, pode chamar o Senhor Artur de Almeida?
 O atendente muniu-se da lista de hóspedes, percorrendo-a por inteiro. Nada. Nenhum Artur. “ Não é possível! Se não mora aqui, onde estará meu tio querido? Como vou passear neste Rio dele, sem ele, sua principal figura?”, desesperava-se a moça.
 O resto da tarde passou-a, braços e ânimo arriados, no banco da praça, olhos fixos na portaria do hotel. Noite e medo empurraram-na de volta para Vila Isabel, o precioso cheiro do mar guardado nas narinas.
 Dias após, o susto: ao abrir um jornal, a foto embaçada do Tio Artur e o destaque: "Desconhecido atropelado na Glória. Causa provável: escuridão e carro em alta velocidade".   Marina empalideceu. De pronto, pegou a bolsa e saiu, rumo ao hotel de Copacabana. Mostrou a foto, em tormento de apaixonada. Confirmado: era  o seu Tio Artur.
Sem derramar uma lágrima, Marina balbuciou: - Copacabana, adeus! E virou-se de costas para nunca mais.

Maria Lindgren
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Enviado por Maria Lindgren em 07/11/2005
Código do texto: T68475
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Sobre a autora
Maria Lindgren
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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