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Estação

Ela adorava andar de metrô. Os rostos das pessoas na plataforma, ansiosas, esperando, conversando, lendo. Sempre alguém novo. A estação se estendia por metros e embaralhava os olhos. Era a maior de todas. As pedras do chão se misturavam aos ladrilhos e, à distância, era difícil dizer onde começava um e terminava o outro.
As cadeiras verdes estavam lá, no lugar de sempre. À espera dela, enfileiradas. É estranho, pensava, as pessoas não se conhecem. Sentam aqui, de quatro em quatro, e no trem, aos pares. Se diluem. Aqui você está solitário, mas nunca sozinho. Sentou-se. A noite estava especialmente fria e ela se abraçava ao seu casaco de chenille. Quente; macio. Há alguns meses desistira de ler enquanto esperava; distraía-se com cada rosto que passava e a leitura não saía do lugar.
O trem demorava, mas as pessoas não chegavam mais. Deve ser o horário. Ventava. A brisa que varria os túneis era fresca. Constante; o movimento dos trens nunca cessava. Uma lufada bagunçou seu cabelo; enroscou-o no cachecol.
Uma criança sentada no chão brincava com uma folha de papel. Fazia dobraduras. Um cisne, talvez? O som agudo de sapatos batendo contra a pedra anunciava a chegada de mais alguém. Como em um programa de televisão. Ela antecipava, imaginava quem calçava aqueles saltos. Sapatos longos, de bico fino, daqueles que estão na moda. Pretos. Não, pretos não; vermelhos. Aquele som sugeria sapatos vermelhos. O menino terminou. Um barquinho. Desfez e começou de novo.
Um casal surgiu do outro lado da plataforma. Jovens; adolescentes. Quando o amor vale a pena. Ele carregava uma mochila azul; ela, uma sacola marrom. Preciso de uma bolsa nova. Não se sentaram. A força da juventude não acaba. Esperaram abraçados, abrigados do frio. Frio. A temperatura caíra mais. Colocou as mãos nos bolsos e encontrou um pedaço de papel. Belas Artes. Sala 4. 29-07. Faz muito tempo que não vou ao cinema. Costumava ir todo final de semana, quando ainda havia companhia.
Arrumou os cabelos. O menino terminara a dobradura. Bem a tempo. O trem anunciava-se no túnel. Rasgava a escuridão dos trilhos e se aproximava. Ventava cada vez mais. Levantou-se e aproximou-se do meio-fio. Não ultrapasse a linha amarela. Ultrapassou. Todos levantaram-se e foram se aproximando. Dos trilhos. Estavam longe, tão longe que se sentia mais sozinha do que nunca. O trem chegava mais perto. O casal de jovens se sentou. Tudo acaba. Seu cachecol esvoaçava com a proximidade do trem. Chega de divagações na estação. Soltou-se e sentiu-se voar, como um cisne de papel. O trem parou e todos entraram. O sinal soou e o trem partiu.
Fernando Gonzalez
Enviado por Fernando Gonzalez em 10/10/2007
Código do texto: T689065

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Sobre o autor
Fernando Gonzalez
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Fernando Gonzalez