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Vagão

Acomodou-se no assento e desatou a chorar. Chorava um choro discreto. Uma garoa fina; de outono. O vagão estava vazio e ela escolheu um assento de costas. Quando o trem anda é como se o tempo estivesse voltando. O que mais queria era voltar no tempo, refazer tudo, reviver algumas coisas, repensar, reagir. O trem desacelerava, chegando à próxima parada. Não adianta, o tempo não volta, pensou.
Primeira parada; daquela estação dava para ver a noite lá fora. As luzes passavam na avenida e tremiam a vista. Ninguém entrou. Com certeza é o horário. Partiram para a próxima.
Segunda parada; ao abrirem-se as portas um casal de velhinhos pisoteou trem adentro. Uma mulher vestida de branco entrou logo atrás. Separaram-se. A mulher parecia cansada. Deve trabalhar no hospital. Há tempos também sentia-se cansada; não lembrava qual fora sua última noite bem dormida. Dormia aos rodopios. A velhinha começou a fazer crochê. O novelo azul lembrava-a de sua própria avó; e das peças que tricotava. Onde está aquela malha branca? Tirou o cachecol; o trem estava abafado, reagindo ao frio de lá de fora. A enfermeira puxou uma revista da bolsa – de juta, daquelas artesanais – e começou a ler. Fofocas de celebridades. Será possível que hoje em dia só se pensa nisso? Se as pessoas se preocupassem um pouco mais com as suas próprias vidas... Um baque surdo cortou sua linha de raciocínio. O trem parara no meio do túnel, de uma vez. O novelo de lã rolou aos seus pés. Jazia inerte. Minha jovem, minha lã. Ela se sentia assim, inerte. Olhava para o chão e para o nada, borboleteavam pensamentos constantes, impulsos, vozes, desejos. Assombravam-lhe. Seus fantasmas haviam escapado e cercavam-na; não sentiu o trem recomeçar a andar. Minha jovem, você poderia? Torpor; um torpor morno e vagaroso. O trem aproximava-se de sua próxima parada, mas ela não conseguia se mexer. Uma brecada súbita chacoalhou sua lassidão. Levantou-se e olhou para o novelo. Parecia macio; mais do que seu cachecol. Tentou abaixar-se, mas não passou da intenção; não conseguia se aproximar. Em pé, imóvel, tudo girava; num impulso saiu do trem, deixando os velhinhos, o novelo e seus fantasmas para trás. A campainha soou e foram todos lançados de volta à escuridão.
Fernando Gonzalez
Enviado por Fernando Gonzalez em 10/10/2007
Reeditado em 10/10/2007
Código do texto: T689077

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Sobre o autor
Fernando Gonzalez
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Fernando Gonzalez