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O GRANDE DIA



Ainda era noite e o frio fazia-se intenso no momento em que o silêncio foi quebrado. Milton desperta de súbito com o toque do despertador que ficava pendurado na parede próximo à cama, marcando exatamente cinco horas e trinta minutos. Meio sonolento ele levanta sem pressa, espreguiça-se e pensa em deitar-se novamente, porém é tomado pela consciência ao lembrar da importância que havia naquele dia, então começa a dialogar consigo mesmo dizendo:
- É hoje! Tenho de apressar meus passos, pois é o grande dia e não posso atrasar-me nem um segundo, para isso devo tomar um bom banho, afinal hoje devo ficar limpo e perfumado, pois todos irão me olhar e sentir a essência que meu corpo estará exalando.
Não que Milton fosse vaidoso, pois este homem vai viver um momento ímpar em sua nobre vida, além do mais, será ele o centro de uma história que a sociedade sempre olhou com grande comoção. Assim de um lado a outro caminhava, parecia tentar fugir de alguma coisa, no entanto seu majestoso dia começava com o banho gelado, porque era inverno e a neblina caiu intensamente durante a noite e não havia em seu modesto banheiro um chuveiro elétrico para aquecer o líquido resfriado:
- A água deve está fria? Uh!
A coragem só veio quando seus olhos vêem o relógio e percebe que já eram cinco horas e quarenta e cinco minutos.
- Já se foram quinze preciosos minutos, as horas voam! Esta moleza sairá agora mesmo.
Decidido ele entra no banheiro e fica estático embaixo do chuveiro esperando a água fria molhar seu corpo.
- Ufa, que frio! Ainda bem que não tenho de fazer isto todas as manhãs.
Manhã mesmo! Pois já se aproximava das seis horas e o dia “D” tinha muitas surpresas a lhe proporcionar. Logo após o banho saiu do banheiro enrolado com a toalha do Flamengo, time do seu coração, e quando vai se vestir vive o dilema.
- Qual roupa devo escolher? Precisar ser algo especial, afinal um momento como este merece uma roupa elegante, não é mesmo?
Enfrente ao guarda-roupa Milton ficou paralisado por alguns minutos e decide:
- Já sei! Vou vestir meu terno azul-marinho e calçar meu sapato preto, tem de ser rápido, não posso perder tempo, vou passar o terno e depois dar um brilho no sapato. Vou ficar chique no último!
As horas passam e á aurora mostra seu brilho através da janela de vidro do seu quarto colorido e desarrumado. Até parece que um vendaval virou tudo de perna pro ar. Livros, canetas, roupas, pratos, colheres e até copos espalhados pelo chão, em meio a tudo isto, o homem estava eufórico pondo o ferro elétrico na tomada, enquanto esperava o ferro aquecer aproveitou para procurar em meio á desordem os seus sapatos. Foram minutos depois de ter terminado o labor com o terno, ele encontra-os debaixo dos livros que leu a noite antes de dormir; contagiado pelo valor do dia começa a gabolar-se dizendo:
- Eu sabia que estavam aqui!
Mas a realidade lhe mostra que nem tudo estava na sua brilhante mente quando percebe que precisa procurar pela graxa.
-E agora! Aonde está a graxa?
Somente depois de procurar debaixo da cama e na sapateira, é dentro da gaveta do criado mudo que ele a encontra, e com pressa retira da gaveta a latinha, logo engraxa o sapato, só que ao terminar se assusta.
- Êta! Já são seis horas e não consigo nem sair deste quarto. Eu não imaginava que passar roupa, engraxar sapatos, era tão demorado assim, e ainda nem arrumei a cama, puxa! “Quantas coisas têm de fazer um homem sozinho na casa da humanidade”?
Milton agora impecável de terno azul marinho e sapato brilhando, desabafa:
- Até que enfim esta penúria aqui dentro terminou!
Já aliviado, respira fundo e diz:
- Pronto! Este será mesmo meu grande dia! Estou dentro do horário e não vou me atrasar. Porém saco vazio não fica em pé. Vou à padaria do seu Araújo para tomar um reforçado café. Pensado bem, vou mesmo tomar um chocolate quente e aquecer-me de uma vez, de lá seguirei em frente.
Á passos largos ele deixa para trás o querido quarto em completa desordem, segue pelo corredor que separa os cômodos da casa que finda no portão. Portão esse que por sua vez dar vista para rua. Tão logo seu rosto espia o movimento das pessoas andando, rua a cima e rua a baixo, uma voz ecoa aos seus ouvidos:
- Bom dia Milton. Você está muito elegante!
- Bondade sua. Obrigado e bom dia pra você também Sofia.
Assim como Sofia, a vizinha de longas datas, todos seus conhecidos ao vê-lo naquela manhã, saudava-lhes com um bom dia e algo mais.
No entanto caminhava ele com naturalidade, como se o dia não fosse tão especial, mas seu coração palpitava de emoção cada vez que olhava no relógio e percebia que seu tempo estava findando. Entretanto eram seis horas e vinte e dois minutos quando adentra na padaria do seu Araújo e logo se dirigi para o balcão e senta com muito cuidado para não amarrotar o terno. As pessoas olhavam admiradas vendo tamanha elegância. Milton fingindo que não era consigo, falou:
- Seu Araújo; hoje quero chocolate quente e um pão de queijo.
Então seu Araújo olha e percebe que é seu velho freguês. Abismado com o que ver lhe pergunta:
- Milton de onde você saiu?
- Porque a pergunta seu Araújo? Há algo de errado em mim?
- Não meu amigo é que jamais tinha visto tamanha elegância em você.
- Pois é! Hoje é um dia memorável eu não posso deixar a desejar.
- Está certo, desejo que seja inesquecível não só pra você, mas para todos que lhe admiram, “como eu”.
- Obrigado!
Seu Araújo fez questão de servir o freguês e amigo.
- Hoje é cortesia - Retrucando no ato Milton diz - Uma cortesia! Não! Não devo aceitar.
- Quer dizer que não posso ofertar um chocolate quente, pra um homem honesto e de boa reputação e acima de tudo meu amigo? Não, você não pode recuse minha cortesia, ainda mais hoje, por favor.
- Tudo bem.
Com elegância Milton toma o chocolate mais não tira os olhos do relógio e as seis e quarenta termina minutos o desjejum e cumprimenta seu Araújo antes de deixar o ambiente.
- Até mais seu Araújo.
- Até, var com Deus.
-Amém, fique com Ele você também.
Ele tinha de chegar antes das sete horas no terminal rodoviário e para isso havia menos de vinte minutos. Ainda na calçada da padaria ele percebe um táxi se aproximando, e sem perda de tempo ergue a mão e acena pedindo parada, o taxista ver a pressa no semblante de Milton e pára.
- Pronto senhor, para onde?
- Para o terminal rodoviário. E se for possível pise fundo no acelerador por que tenho que chegar antes das sete.
- Ok! Mas ponha o cinto de segurança por gentileza.
- É necessário? Não há guardas esta hora e o trânsito não oferece risco, além do mais vai amarrotar meu terno.
- O senhor é quem sabe!
O taxista sai em disparada, não demorou muito para o velocímetro ultrapassar a marca de 100 km/h. Contente ao perceber que chegaria antes das sete aproveita pra elogiar o motorista.
- O senhor dirige muito bem!
- Sim, são anos de experiência na profissão.
Tudo estava indo bem, o motorista conversava tranquilamente com Milton até certo trecho da Rua Leopoldo, quando de repente surge o caminhão da carne, como é denominado por populares o caminhão baú que entrega carne na cidade, saindo da Rua Manoel Barata. O asfalto estava escorregadio devido à neblina que caiu fortemente durante a noite, o motorista ainda tentou parar o táxi travando as quatro rodas, mas foi em vão, o táxi colidiu há mais de 90 km/h. O impacto foi tão violento a ponto de o taxista ficar preso pelo cinto nas ferragens até ser resgatado pelo corpo de bombeiros com vida, porém Milton foi arremessado para fora do táxi e teve morte instantânea.

Autor
Edimar Lima

Ediastro
Enviado por Ediastro em 20/10/2007
Código do texto: T702062

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Sobre o autor
Ediastro
Paragominas - Pará - Brasil, 40 anos
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