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IPÊ AMARELO

IPÊ AMARELO
“Não há nada mais forte que uma idéia quando chega o momento exato de sua realização.”. (Vitor Hugo)

Ana pulou cedo da cama naquela sexta-feira. Viajaria com o marido para a capital, visitar os filhos que lá estudavam. Não sabia se era ansiedade da viagem ou outros pensamentos que vinham lhe perseguindo ultimamente que fizeram com que ela dormisse pouco naquela noite. Fazia muito calor naquela época do ano, costumava dizer que era essa a causa da insônia.
 Colocaram tudo que precisavam no carro e partiram. Iam em silêncio. Como sempre, o assunto entre eles era escasso, já há tempos não dividiam os sonhos a não ser que se tratassem dos filhos. Ana olhou para o rosto do marido. Rosto conhecido há tanto tempo e que naquele momento parecia de um estranho. O que teria acontecido para que as coisas entre eles chegassem àquele estado? Ela tinha sonhado em envelhecer juntos, em ver os filhos realizados, curtirem a vida juntos e serem muito felizes. Mas algo se partiu pelo meio do caminho transformando um mundo em dois. Dois mundos ligados apenas por um fio tênue dos sonhos ainda irrealizados dos filhos.
 O que será que ele pensava naquele momento? Não arriscaria um palpite, pois já não tinha conhecimento dos anseios do marido. Ele também já não sabia o que se passava com ela. Já não adivinhavam o pensamento um do outro como faziam há mais de vinte anos atrás, quando se conheceram. A insatisfação dos dois era perceptível por qualquer um que prestasse atenção neles. Iam, sentados lado a lado, com o pensamento longe, muito longe um do outro.
A fumaça cobria os horizontes deixando uma bruma espessa que não permitia enxergar nada muito além de onde estavam. O calor era intenso. Ana olhava fixamente para a vegetação na beira da estrada.  Era setembro e já fazia uns quatro meses que não chovia por ali. Era triste de se ver as negras marcas deixadas pelo fogo atiçado pelos pecuaristas e agricultores de toda a região. A vegetação do cerrado, árvores de troncos retorcidos e normalmente muito verdes estavam, agora, negras e nuas. Ana achou que elas pareciam pessoas agonizando com braços e dedos que apontavam acusadores para quem passava.
Arriscou um diálogo:
— Essas árvores estão mortas?
— Não. Assim que chover, ficarão verdes novamente.
Refletia sobre o que acabara de ouvir, quando avistou, à margem direita da estrada, um solitário ipê amarelo.  Nele, não se via uma folha, somente flores, amarelas como ouro. Aquela árvore se destacava na paisagem, e não poderia passar despercebida. Como podia, em meio a um pasto carcomido até as raízes pelo gado, próximo a outras árvores arrasadas pelo fogo, resistir um ipê florido? Era muito florido. Derramava pétalas amarelas pelo chão.
Aquela árvore era a voz da natureza gritando que era resistente, mais forte que a maldade humana. Ela parecia dizer que suportaria todas as agruras do clima e a toda ação criminosa do homem. Anunciava que ainda havia tempo para salvar a vida. Aquele ipê florido estava ali para dar esperança. Transmitir o recado de que as chuvas estavam chegando. O carro se afastava rapidamente daquele cenário e Ana continuava a olhar a árvore, virando a cabeça para trás. Já era impossível enxergar aquele amarelo ouro que enfeitava a triste realidade do cenário, mas Ana queria continuar olhando. A visão da árvore deixou-a inquieta. Mexia-se no banco como se alguma coisa a incomodasse.
— Os meninos vão ficar bem.
A voz do marido a traz de volta para a realidade.
— Sim, vão ficar bem.
E no minuto seguinte estava mergulhada novamente em pensamentos. Alheia, só percebia que estava em viagem quando o carro era freado bruscamente, por causa de algum buraco na estrada.
Agora pensava no futuro dos filhos, imaginava como seria, depois que eles já formados, fossem independentes. Quando eles já não precisassem de sua dedicação. O que restaria para ela?  Uma vontade de viver vinha se apoderando dela nos últimos tempos. Percebia que algo faltava em sua vida. Que além da felicidade dos filhos, ela precisava lutar também por sua própria felicidade.  Algo gritava dentro dela, como aquelas árvores queimadas pelo fogo pareciam pedir socorro. A vida passava depressa e a sensação de não ter vivido tudo que queria se apoderava dela. Sempre muito ocupada com o trabalho, poucas vezes tivera tempo de pensar em si. Não parava para se olhar. Entregava-se aos deveres, de corpo e alma, talvez, justamente para escapar desses pensamentos que agora a martirizavam.
Mas, nos últimos tempos, algo diferente acontecia com ela. Não era capaz de se ver acomodada naquela situação. Espantou aqueles pensamentos incômodos. O ipê lhe transmitira a mensagem da bravura. Ela não podia se entregar, tinha que ser resistente como ele. Deixou escapar um suspiro, saído do fundo da alma.
— Você está cansada? Relaxa! Encosta e tenta dormir.
Novamente a voz do marido veio lhe trazer de volta. Aqueles pensamentos levavam-na pra longe dali. Sentiu o pé arder no calçado. Estava na mesma posição há muito tempo. Mexeu-se, tirou o calçado e colocou as pernas pra cima, descansando os pés no painel do carro. A viagem continuava assim. Silenciosos e absortos, cada um com seus próprios pensamentos, distantes, muito distantes um do outro.
Agora já chegavam à cidade.
Encontraria os filhos, sorriria para eles. Não precisaria dizer nada, o seu sorriso transmitiria a eles a certeza de que tudo estava muito bem. Que eram felizes, muito mais agora, juntos. Que eles não precisavam temer a nada. E eles, confiantes naquele sorriso, se sentiriam em paz. Problema algum ameaçaria os seus sonhos.
E ela mais do que nunca se sentiria forte. Sentir-se-ia como aquele ipê amarelo às margens da estrada, em princípio de setembro. Nem as agruras da seca, nem a maldade humana conseguiriam fazer com que ele deixasse de florir. Estaria ali para dizer que as chuvas logo viriam.
Prof. Mônica Zanol
Mônica Zanol
Enviado por Mônica Zanol em 21/10/2007
Código do texto: T704239
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Sobre a autora
Mônica Zanol
Rio Branco - Mato Grosso - Brasil, 51 anos
9 textos (1191 leituras)
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Mônica Zanol