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TIGRÃO


- É… eu gostei dele. Não a ponto de me apaixonar, isto não. Ele é uma boa companhia. Você sabe, depois do Ivan, nunca mais me amarrei em ninguém.
Mentira número um. Eu estava apaixonada sim pelo Tigrão, mas não podia me dar ao luxo de assumir isto para ninguém. E nem para mim mesma. Eu, uma mulher considerada forte e poderosa, jamais poderia admitir que estava fraquejando. Minha audiência – quatro amigas que me encaravam sem acreditar em nada do eu dizia – não desgrudavam os olhos de mim, tentando encontrar algum furo no meu rol de mentiras deslavadas.
- E depois, gurias, o que eu vou querer com um pirralho que nem terminou a faculdade ainda? Ele que vá ganhar a vida primeiro e depois venha me procurar.
Mentira número dois. Pouco me importava se o Tigrão ganhava menos que eu ou ainda faltavam uns semestres para a formatura. Por mim, eu o colocava dentro do meu apartamento e dava casa, comida e roupa lavada. Era só o Tigrão dizer “sim”. Só que ele não disse nem “sim” e nem “não”. O idiota se despediu de mim depois de uma noite de sexo selvagem sem dizer nada de relevante.
- Vocês acham que eu estou esperando que ele me ligue? Não tenho idade e nem tempo para isto. Minha vida continua a mesma depois da minha noite com o Tigrão. E que noite!
Mentira número três. Eu estava desesperada pelo telefonema do meu menino loiro de olhos escuros, com uma pintinha no queixo que o deixava extremamente sexy. E aquele sorriso, então? Mas fazia dois dias que a gente tinha saído e nem sinal do Tigrão.
- E vocês me conhecem muito bem. Eu não corro atrás de homem nenhum. Se o Tigrão quiser me ver, ele que me ligue. Vocês não acham?
Mentira número quatro. Na verdade, meia mentira. Eu corria atrás dos homens, sim. Porém fazia de um modo tão discreto, que os imbecis não se davam conta de que certos encontros casuais eram planejados milimetricamente.
Uma das minhas amigas perguntou:
- E se ele não ligar para você? Não ligar nunca mais?
Meu coração chegou a apertar. Eu não pensava nesta hipótese. Não mesmo. O Tigrão tinha que me ligar. Eu já imaginava deliciosos finais de semana com ele no meu apartamento da praia. Eu sonhava tanta coisa de olhos abertos e minha imaginação fluía tanto que me perguntei porque não investia na carreira de escritora. Então respondi, segura de mim:
- O problema será dele, querida. Ele sabe muito bem o que está perdendo.
Será que sabia mesmo? Será que alguma vez na vida o Tigrão já tinha estado com uma mulher mais ardente que eu, espelho meu?
- E tem mais – sentenciei, segura de mim – A fila anda.
Neste momento o meu celular tocou. Não reconheci o número do visor. Devia ser engano. Mesmo assim, resolvi atender.
- Alô?
- Aline, sou eu.
- Eu quem, meu filho?
- Eu, Aline. O Cris.
Cris, vulgo Tigrão! Senti um calorão subindo pelo meu corpo, fiz sinal desesperadamente para minhas amigas que era o Tigrão que estava no celular comigo e toda minha reputação de mulher poderosa e segura de si foi por água abaixo. Tudo por causa de um Tigrão que era um gatinho lindo.

Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 27/10/2007
Código do texto: T711890
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
612 textos (42549 leituras)
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Patrícia da Fonseca