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Pacto

Jamais esquecerei da tenebrosa feição de seus olhos : órbitas cadavéricas, geladas como globos de neve - um prismar de coloração fria, mortificação atrelada nalguma brecha do tempo que se entorpecia, e se esvaía.

Eu, vendo tudo aquilo: minha lenta aniquilação através do afastamento gradual daquele olhar do centro de nossa torpe realidade comum - abandono tácito, sub- reptício, fatiga retarda de minha veleidade incurada.

Quisera fosse: que o abandono fosse físico, com direito àqueles trejeitos arquetípicos das pequenas tragédias domésticas - próprio fundilho da existência para torpes como eu, que teria podido então me escangalhar todo de lágrimas e me rastejar feito um rato cretino com um ramalhete despetalado atrás dela.

No princípio: a pressa, em acabar de dizer, em acabar de ouvir, nossa fala desarticulada, nosso olhar de espelho, nossos milhares de dedos a tatear – eu e ela na mesma periferia, desatentos desatinados, só querendo incorporar-se no fluxo mágico da conjunção de nossos sentidos em sentinela.

Perdi.

“Isso se fosse amor, não seria desse jeito” dizia ela, a quem na aragem da eternidade tiveram os cretinos serafins soprado de suas estúpidas boquinhas celestes a sugestão de um amor sublime demais para minha estultice.

 E aquele olhar( jamais esquecerei este olhar): se fixava naquele lugar que eu não chegava, onde minhas imundas manzorras não podiam encostar, incólume e resguardado de meu vil sortilégio de felino matreiro, de deus telúrico que se definha no solo fétido de onde surgiu.

Nem na auto-afirmação do meu empenho eu encontrava – em minha sofreguidão ansiosa, em meu esquadrinhar obsedante naquelas matizes fulgurantes e incessantes de cores daqueles olhos opacos, que então sofriam de paralisia e que já estiveram em mim, um dia, com uma liquidez diáfana, suplicante, repletos de gentileza de amante – um agonizante elo.

Que motivações deitadas no fundo de seu mistério precipitam em resíduo na sua voz e caem em minhas mãos, feito um contrato no qual selamos o pacto de nosso silêncio e das nossas aparências? – este é seu prêmio de consolação, expressão da sua piedade, da sua digna e tortuosa abnegação.

Eu o aceito: aceito e reafirmo meu áspero pedido com os olhos, e ela toda quieta sabe, sorri e se afasta.

Assim aprisionamos a ambos: ela a mim, em sua infinita nobreza, no excelso amor que foi capaz de um dia me dar, e eu em minha vexatória covardia, na vileza de um torpe amor que não cessa de ser.




Grasiela de Barros
Enviado por Grasiela de Barros em 14/11/2005
Código do texto: T71414
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Sobre a autora
Grasiela de Barros
Curitiba - Paraná - Brasil
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