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Eu e esses três meninos...

Quando a Barragem de Camará foi inaugurada, o governador, o prefeito, o pároco, muitos vereadores, todos se postavam naquele palanque enfeitado. Ao microfone, um a um, eles iam desfiando a alegria de nunca mais faltar água. Camará era alegria, tanta fartura.

Eu morava em sítio, tudo muito verde, água em abundância. Minha casa era pequena, perto da barragem. Muito pobre, eu vivia feliz até onde a pobreza permitia que eu fosse feliz. Meus três meninos se alimentavam bem. Nunca tinha faltado nada em casa. Eu ia à feira, na cidade,  todo domingo bem cedo. Deixava os meninos com minha irmã mais nova. Levava coisinhas da terra para vender. Coisas de pobre: coentro, cebolinha, alface, pimentão. O menino mais novinho ainda mamava. Chorava muito quando eu saía para a feira. Se me demorava na cidade, meus seios inchavam, muito cheios de leite. O menino gritava em casa. A cada grito do menino, os seios latejavam, os mamilos intumesciam-se e vazavam, doloridos.

Uma noite, perto da madrugada,  acordei com dor de dente e com um barulho muito forte nos arredores da minha casa. Escutei gritos de pessoas lá fora, choros alarmados de crianças, cabras, galinhas e pintos muito agitados, os cachorros latindo, coisas desabando, marulhar selvagem de tempestade. Apurei os ouvidos e atinei. Meu Deus, a barragem. Socorro. Os meninos dormiam profundamente. Eu chamei um a um. Acorda, menino, vamos embora. Juntei tudo que pude juntar em cima do jegue. Panos, panelas, alguma comida e os meninos. Montei e rumei com tudo em busca de lugar seguro. A barragem rompida expelia toneladas de água serra abaixo. De longe se escutava o rugido do dilúvio destruindo tudo quanto encontrava pela frente.

Imagino que perdi tudo que tinha: casa, galinhas, cabras, lavoura, pomar. Aqui, na capela de Santa Rita dos Impossíveis, o padre e o prefeito pedem calma. O menino mais novinho dorme no meu colo, feliz porque não sabe de nada. Os dois maiores brincam, não se afastam de mim, e brigam por tudo. E eu, aqui com essa dor de dente que não passa. Sem futuro, à mercê do padre e do prefeito, não sei onde vamos morar, eu e esses três meninos. A barragem de Camará era tão grande, tão bonita. Mas, hoje, olho para trás e a única coisa de que tenho certeza é essa dor de dente e a cabeça latejando, os pensamentos me dizendo: Camará. Nunca mais. Nunca mais. Acho que estou com febre.
dôra
Enviado por dôra em 14/11/2005
Código do texto: T71660
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Sobre a autora
dôra
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 71 anos
8 textos (915 leituras)
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dôra