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A Invasão dos Panfletos

     
    Você está salvo! ...  Você está salvo! ...   Gritava uns entregadores de panfletos no centro de Porto Alegre. Depois de David ter ouvido, pela primeira vez, próximo à rodoviária, e depois durante toda a Rua dos Andradas, imaginou que fosse de uma dessas igrejas que curam tudo e todos em troca de algumas moedas - a fé em Deus e a caridade são fundamentais para afastar de nosso caminho qualquer tipo de inferno. Motivos não nos faltam para chutarmos o balde e nos afundarmos nos vícios. Estamos no mundo há muito tempo e nunca deixamos de fazer guerra, há maldade e bondade em todas as pessoas.  Assim como a nossa consciência luta contra todos os oponentes, também, esses oponentes lutam contra a nossa mente. Estamos sempre em guerra. Assim como o nosso corpo luta contra as doenças, nos devemos aprender com o nosso espírito a aceitar o que, aparentemente, não nos convém. Um corpo e um espírito doente são sempre restaurados à saúde quando acreditamos em nós mesmos. Trate de olhar para o seu umbigo e lembre-se, sempre, que todo homem, certo ou errado, estará sempre tentando - então, arriscou apanhar um panfleto para matar sua curiosidade...
          Aquele panfleto, no universo de panfletos distribuídos no centro, fez David lembrar de uma passagem em que os protagonistas eram uma destas hordas de estudantes que entram abruptamente em qualquer lugar, falando alto, impondo a atenção sobre eles e ao seu material gráfico. Ele estava sentado calmamente, deliciando um daqueles Macs no final do expediente quando se sentiu incomodado pelo barulho das gargalhadas.
Como qualquer pessoa de bom senso, queria um pouco de sossego para comer a sua refeição, ainda mais num lugar daqueles, coberto por seguranças. Por isso, como qualquer pessoa faria, reclamou ao pessoal dali e foi absurdamente surpreendido quando a resposta foi:
       — Eles são nossos clientes e estão só se divertindo.
      A ditadura, da democracia pela maioria, não pode mandar nos desígnios dos demais sem consultá-los.
 A democracia, dita dura, deixa uma parcela da população a um absoluto e passivo silêncio.
      A última vez que David pegou um panfleto havia sido na abertura da cinquëntona feira do livro,(Porto Alegre-RS) do mesmo modo que o apanhou, colocou-o no bolso esquerdo da calça e se alçou na atmosfera irreal daquelas barracas, onde viu pessoas lerem títulos e saírem satisfeitas. Ficou ali, uns noventa minutos, observando o vai e vem de desconhecidos. Ele também escrevia e adorava aquele ar intelectual.  aquele era um local para se comprar livros, mas também de quem não tem dinheiro e ama, igualmente, a literatura  Aquele era o local onde ele também sonhava:  Como superar aquela inibição inicial que todos temos quando queremos começar a mostrar o que estamos escrevendo para as pessoas estranhas? Como passar por cima do medo de que as primeiras pessoas que vierem a ler o nosso primeiro trabalho não gostem dele? Como mostrar os nossos textos sem temer uma crítica severa?
     David, hoje, é uma daquelas pessoas que adoram bater papo, um gênio de 16 anos, estudante do ensino médio, estafeta num escritório de direito, de cabelos compridos e paciência de monge, espalha sabedoria da sua forma, anonimamente, nos muros da Avenida Mauá, lê muito, traduzindo em versos tudo o que lhe fluí pela cabeça, com imensa sensibilidade e um lirismo sem preconceitos, sem ter pretensão de agradar alguém. Tem um irmão mais novo, quatro anos, uma irmã de doze.   A mãe, Sra. Clarisse, viúva há dois anos, cuida de todos da casa e trabalha nos correios... mas não foi sempre assim:
    David foi mudo até os sete anos. Até está idade ele não havia dito nada, talvez porque não tivesse nada pra dizer mesmo. Era uma criança que vivia as escondidas, via o mundo por uma fresta na porta, mas mais por debaixo da mesa. Ele vivia recluso, considerado uma criança retardada, discriminada até na escola, pois todos o isolavam. David não tinha necessidade de falar, os seus amigos “imaginários” e o seu desenfreado amor pelos cães, talvez, preenchessem essa sua “falta”. Foi com seis anos que ele conheceu as letras e a partir daí começou a se comunicar por elas, a partir daí começou a escrever tudo o que pensava, em qualquer lugar que fosse: em sua cama, na sala, na frente da TV e em todos os lugares que passava deixava sua marca... No começo as pessoas ficaram espantadas pela qualidade do trabalho que desenvolvia, mas logo ficavam assustadas. Ao passar dos anos, como estivesse travestido em um dos seus personagens, brotou uma nova disposição para o convívio em sociedade, criando outros mundos a partir do seu próprio território.   Para David, a literatura é a arte que nasce do silêncio da criação.
    Bem, o leitor que já deve estar acostumado com o universo destes panfletos e com os inúmeros opostos que os focaliza.  As vezes gostaríamos de exercitarmos o nosso lado “invisível” no lugar de estender, carinhosamente, as mãos.
                                 E era isso!

Autor: Alexandre Abrantes

                           
Alexandre Abrantes
Enviado por Alexandre Abrantes em 15/11/2005
Reeditado em 02/12/2010
Código do texto: T71915
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Sobre o autor
Alexandre Abrantes
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
21 textos (1244 leituras)
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Alexandre Abrantes