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Hora da Verdade


                                             9h52

Mágoas. Beijos molhados. Dois copos de vinho. Um trago de cigarro na sacada. Não há mais o que esperar. É a hora da verdade.

                             Da Consolação ao Paraíso

— Que horas são por favor? – pergunta uma estranha.
— É a hora da verdade. – respondi.
— Desculpe, não entendi.
— São sete e dois. – respondi olhando no relógio analógico.
— Obrigada.
Silêncio.
— Sei que não tem nada a ver com a sua vida, mas a verdade não tem hora, deve ser contada na primeira chance que tiver.
— Obrigado. – agradeci apático.
Estação Brigadeiro – anuncia a voz.
— Tchau. Não se esqueça da verdade.
— Não esquecerei.
Estação Paraíso – anuncia a voz.
A garoa é fina. Irritante. A Taís também é. E creio que ela me ache insuportável como uma tempestade. Mas por enquanto é só uma garoa. E com o perdão da rima, a Taís é só uma garota.

                                Parece minha mãe

— Agora vista esse – ordenou.
— Esse não ficou bom, tem que arrumar a barra – comentou.
— Parece minha mãe.
— Menos, tá bom? Só tou querendo ajudar.
— Eu sei, eu sei. Mas precisa de tudo isso para uma festa de quinze anos!?
— Claro que precisa. Essas festas exigem um figurino pra lá de especial.
— De especial aqui só tem você.
— Pára! Assim você me deixa sem graça – disse batendo no ombro dele.

                                             9h57

Contar a verdade levou uns quatro minutos e o silêncio foi de um minuto cravado tal qual foi a sensação em nós dois: um punhal cravado na alma. Deixará cicatriz. Deixará lembrança. E ela vai deixar a chave do apartamento sobre a mesa ao lado do seu maço de cigarros e dos copos vazios de vinho. E eu, também, vazio farei companhia aos copos depois que ela passar por aquela porta. Mas não antes de:
Abraçar-me, beijar-me e olhar bem fundo nos meus olhos, nos quais pude ler:
— Não pense que contando tudo isso estará livre de mim.
Mas não disse nada disso verbalmente, estou apenas supondo, ela poderia ter dito:
— Maldito seja o dia em que te conheci e me entreguei a ti.
Pode até ter dito isso, apesar de ser forte, apesar de ser cruel, coisa que ela não é.

                                   Felipe Muniz
                            Assistente Operacional

Sou uma vítima do sistema. Do sistema de divulgação pública de assuntos pessoais, vulgo fofoca. Contei a situação para o André e com uma capacidade ímpar conseguiu disseminar o que se passava entre mim e a Lolita, como ele a apelidara. É um sacripanta mesmo pra dizer o português correto.
— Felipe Muniz, ah então é você o cara da Lolita. – disse o segurança ao ver meu crachá.
Não me dei ao trabalho de responder. Atingi o máximo da indiferença.
— Escuta aqui seu idiota, quem mandou espalhar esta história. – disse segurando o canalha do André pelo colarinho até ser separado por outro funcionário.
— Você está cometendo uma injustiça. Pois Melissa também ouviu. Foi ela quem espalhou. Foi ela. – disse nervoso.
— Melissa? Mas por quê?
— Só há uma explicação: ciúme.
— Ciúme?
Deixei a cena em que ocorreu meu acesso de raiva e busquei um dicionário, tamanha era minha confusão. Sabia a definição dessa palavra digna de asco. Como são tolos aqueles que acreditam que o ciúme é sinal de amor ou qualquer coisa que valha e que ainda recorrem a chavões e máximas do tipo sem ciúme sem amor. No fim das contas queria mesmo era a definição de absurdo, ou improvável e por que não impossível? Tudo isso só porque Melissa já tentou puxar meu tapete várias vezes, já me desprezou na frente dos outros. Calma ai, o André está louco, isso não é ciúme nem aqui nem nas Ilhas Virgens, e sim mais uma forma de me atingir. Ela terá que se explicar.

                           O rio que corta minha vida

Se eu dissesse isso em voz alta me perguntariam se eu estava falando de algum livro ou filme B, diria que não e mentalmente responderia que lembraria a experiência sexual que tive com Taís. Eu vi um rio correndo pelo seu corpo. De um leito intenso, que jorra alegria, sedução e mistério. Ela me recebeu bem, de forma experiente, de uma forma que me surpreendeu. Arriscaria dizer que foi melhor do que a experiência que teria com Melissa daqui a dois meses.

                             Do Paraíso à Consolação

Não consegui acreditar ao vê-la entrando no metrô. Mais uma vez. Duvido que se lembre de mim.
— E ai contou a verdade? – disse cortando meus pensamentos.
— Contei.
— E doeu?
— Como sabe?
— Dizem que a verdade dói.
— Sim, doeu como se tivessem cravado um punhal em meu peito.
— Uau! Chega a ser poético.
— Antes fosse, é uma novela latina mesmo.
— O importante é que a verdade foi dita, seja ela qual fosse.
— Isso é. E você esconde alguma verdade que não quer contar?
— Contar ao pé da letra não contei, mas já dei várias dicas, mas a pessoa não percebeu.
— Então conte de uma vez.
— Não queria.
— Você se importaria de me contar?
— Desde que você conte a sua.
— Fechado. Primeiro as damas.
— Espertinho. Eu sou lésbica e namoro um cara há dois anos. – disse muito rapidamente.
— Bem direta você. Mas mesmo assim não acredito que você seja.
— Você tá duvidando?
— Estou.
— Então tome.
A menina me deu um beijo na minha boca e tão logo soltou.
— Esqueceu de dizer que você é louca.
— Um pouco.
— Precisava disso?
— Pra provar? Sim, precisava. Se eu não fosse não faria isso, mas como não gosto mesmo não teve qualquer efeito sobre mim.
— Mas teve em mim.
— Me desculpa.
— Agora conte o seu.
— Não consigo ser tão direto como você. Tem a ver com espadas e corações... – disse com toques de suspense.
— Tanto mistério.
— Nem me diga...

                                          10h32

— Acabou.
— É aquilo que estou pensando?
— Isso mesmo.
— Ai que bom! O que ta esperando pra vir pra cá?
— Tou indo agora mesmo.
Aconteceu que acabei almoçando, depois assistimos filmes, passamos a tarde deitados juntos. Transamos. Ela gostou. Eu não muito. O legal era estar por cima daquela que muitas vezes me deixou por baixo.

     Duas promoções, três casamentos de amigos, mais de cinqüenta   viagens de metrô com a menina DEPOIS

De assistente à gerente de planejamento. Status. Fui padrinho de casamento nos últimos três casamentos que fui. Pude dar bons presentes. E aquela menina que contou a verdade ao namorado, é na verdade bissexual e beijos como aquele que ela me deu aconteceram mais vezes. Mas Paloma mudou de cidade, foi fazer faculdade no interior do estado. Semanas depois assumi um relacionamento sério com...
... nem com a Taís e muito menos com a Melissa.
Luana. Você aceita ser minha noiva?
— Sim.

                            E se há alguém que é contra...

Claro que o padre não falou isso. Mas se dissesse, poderia imaginar a Taís fazendo isso. Será que ela faria? Acho que não. Mas a Melissa faria, com certeza faria.

                                Tour Eiffel, s’il vous plaît?

Foi a primeira frase que disse depois de sair do aeroporto com minha esposa.
Chegamos lá e estava bem cheio. Uma fila quilométrica. Reclamei da sede. Pedi para que ela ficasse na fila enquanto eu fosse comprar uma garrafa de água. Só me falta os vendedores ambulantes daqui venderem Perrier®.  Levei meu guia de francês na mão e pedi ao vendedor.
— S’il vous plaît, je voudrais de l’eau mineral plate. – disse num francês sofrível. (Por favor, eu queria uma água mineral sem gás)
— Vinte euros.
Peguei a garrafa e ao me virar quase tive um ataque.
Taís e seu um metro e sessenta cinco acabava de se materializar na minha frente. Não é possível, é um sonho. Não quero acordar no Brasil ao som do despertador.
— O gato comeu sua língua? – perguntou-me.
— O que faz aqui?
— Intercâmbio.
— Humm. Quanto tempo hein.
— É. Melhor não falarmos muito, sua esposa ficará preocupada. Volte pra ela. Afinal você já teve a chance de me ter.
— Você tem razão. Adeus então.
— Au revoir.

                                       9h53

Conheço a sua família, seus amigos...
                                       
                                       9h54

...te vi nascendo. Mas só voltei a te ver agora, dezesseis anos depois. Seus pais não sabiam sobre nós dois, agora já sabem.

                                       9h55

Quase me denunciaram a polícia, mas disse que sumiria. Só que não consigo. Quero te ter. Quero acordar ao seu lado. Sinto um amor diferente por você.
9h56
Você não sabe, mas também sou filho do seu pai com outra mulher.
O silêncio veio como uma onda gigante nos derrubando violentamente.

                                   A comadre

Minha meia-irmã saiu porta afora. Foi morar com os tios, entrou na faculdade de Direito, começou um curso de francês e tempos depois foi fazer um intercâmbio na França. Acabou me encontrando perto da Torre Eiffel e depois disso só fomos nos ver dentro do metrô dois anos depois. Eu com minha filhinha e ela com seu noivo. Saímos juntos da estação e aproveitei para dizer que os queria como padrinhos da minha filha. Taís chorou ao aceitar.

                        Outro vinho, outro beijo

No aniversário de dois anos da minha filha teve uma grande festa. Ao fim de tudo ficou apenas minha comadre, o compadre Marcelo e minha esposa. Depois que acabou, Luana foi até a farmácia comprar fraldas com Marcelo que a levou de carro por causa da intensa chuva. Fiquei a sós com Taís depois de seis. Será que ela continua irritante? Será que ela ainda me acha insuportável e que apesar disso, nós nos gostávamos. Não há mais mágoas. Há vinho e dois copos limpos. Mas não teve beijo. Aliás, não como aquele que ela me deu. Foi mais leve, mais ameno, quem sabe seja de amor de meio-irmão. Eu não sei, estou apenas supondo, porque mais uma vez ela não disse nada. Ficou no olhar.

04/11/07
Miguel Rodrigues
Enviado por Miguel Rodrigues em 04/11/2007
Código do texto: T723505
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Sobre o autor
Miguel Rodrigues
Barueri - São Paulo - Brasil, 33 anos
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Miguel Rodrigues