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Delírios

Ela falou na minha cara.
Do ceú ao inferno em palavras.
Ela, com seu cheiro e seu cabelo chanel das merdas das atrizes francesas. Com sua pele branca, lisa e macia; com toda porra de beleza dos filmes clássicos.
Jogou-me na cara, deu um tapa com a mão abstrata. Ela olhou em meu olhos e disse que eu era o que eu sempre pensava, que toda essa merda que eu chamo de vida é vida, que tudo isso que é o mundo é o mundo, que essa é a realidade, que essas porcarias do coração não valem nada.
Sim, em poucas palavras disse tudo isso. Ela me disse... ela me disse tudo isso só para eu saber, só para eu experimentar o que é a vida.
Essa merda de vida, todas essas pessoas, tudo isso, tudo que está a minha volta. Eu odeio tudo, eu odeio o amor, eu odeio tudo isso.
Poderiam ter me cancelado, poderiam ter me evitado, poderiam não fazer ocorrer. Mas não, eu precisava sentir o corte, eu precisava morrer aos poucos; não basta morrer morrer, tem que morrer morrendo.
Nem uma lágrima, nem um sorriso.
Eu me desfiz de tudo e todos.
Todo aquele sonho caindo aos pedaços. Eu já sabia, eu sempre soube o que deveria saber.
Primeiro eu acordo. Meus sonhos estão ficando cada vez mais reais. Eu e todas as pessoas que amo sendo enforcadas em um fundo cinematográfico. A paisagem sacramentada é o céu e a mórbida é o inferno. Eu e as pessoas que amo sendo enforcadas e indo para o inferno.
Esse barulho na minha cabeça, todo esse grito. Minha cabeça sendo aniquilada; eu sendo aniquilado aos poucos.
O céu está claro com pancadas de infelicidade. Meu primeiro gole de água, meu primeiro comprimido. Eu tentando não ser eu mesmo.
Meu corpo: está se afundando em meus ossos: 7 dias 14 kg a menos. Minha pele está amarelada; meus olhos estão afundados e ao redor deles há uma tonalidade escura. São os cigarros: minha maneira de morrer morrendo. Cada cigarro uma solução para os problemas, cada comprimido uma cura para os sentimentos. Tudo isso num espelho: meu auto-retrato, eu sendo eu, eu me desenhando, minha arte.
Os procedimentos básicos do dia-a-dia só por força mesmo. A escova se cravando em minha gengiva ensanguentadas, a água escorrendo pela minha face toda devorada por um vermelho sangue. Eu sendo eu mesmo.
O primeiro cigarro do dia, o primeiro comprimido. A primeira vez, a última vez, uma só escolha, um só momento, o tempo consumindo minha vida, arrastando-me, acumulando sofrimentos.
Inspire e expire.
Minha vontade é de respirar todo o monóxido de carbono do mundo. Só de pensar naquelas árvores sendo cortadas, os animais sendo mortos e esquartejados, tudo isso me conforta, tudo isso me deixa feliz. O mundo se acabando. As geleiras derretendo, a natureza massacrada, o tempo trabalhando.
A humanidade se dizimando.
Toda aquela gente rindo a toa, aqueles sorrisos. O sorriso é o símbolo da crueldade humana.
Quando saio de casa, já nem me dou ao trabalho de olhar para frente, só de pensar em olhar para cara de alguém já me enoja. Só de imaginar em ver alguém que conheço já me causa naúseas. Só queria que todos me deixassem em paz, deixar eu cumprir meu papel de homem invisível; como se eu não existisse.
Uma trombada, um toque humano. Eu já não lembrava o que é isso. Essas peles mortas e sujas encostadas em mim, esse cheiro de gente, tudo isso me faz vomitar.
Meu vomito é verde e seu sabor é amargo. Eu sendo eu mesmo, minha arte, meu eu despejado fora de mim: ácido e amargo.
Eu paro um pouco cansado, estou magro, talvez anêmico. Eu sendo eu. Eu dando ao mundo o toque da minha existência
Eu sento e reflito.
Se me avisassem, eu nem a tinha conhecido, eu nem me dava ao trabalho, eu nem sequer ousava passar por tudo isso. Mas precisavam comprovar que eu estava morrendo morrendo. A vida cravando suas garras de maldade, o tempo cumprindo seu papel. É tudo massacrante, é tudo insuportável, é tudo um tormento. Eu sendo eu.
Eu só deito e durmo.
No manicômio do hospital das clínicas estou ao lado de André, o maníaco-depressivo a lá Mozart.
André só fala dos melhores meios de morrer morrendo: as maneiras de cortar os pulsos, os melhores medicamentos para morrer suavemente, as mortes "acidentais"; ele fala das armas, das melhores balas, das melhores cordas, das melhores facas. André é a enciclopédia suicida, sua filosofia de vida é simples: morrer.
Os projécteis .45 com o chumbo afundado explodem o cérebro e fazem os miolos pressionarem todo crânio até ele ser empurrado para cima e fazer um rasgo que vai das têmporas até a nuca. Ele diz que essa é uma das melhores armas, pois é eficaz. Ninguém pode se salvar com o cérebro saltando para fora. Ele diz que suicídio é uma arte e que se matar não é tão fácil quanto se pensa. Um projectil .38 irá fazer que a bala atravesse sua cabeça, ele balança a cabeça e diz que "Não", a pior coisa que pode acontecer é um suicídio mal sucedido. Ele fala que a maior parte dos comas são ocasionados por suicídio mal sucedido.
A esquerda está a paciente das 5 personalidades, ela já não sabe quem é. Às vezes é uma criança, isso dá trabalho para as enfermeiras, pois se tem uma coisa que é má em seu estado puro é uma criança. Tem a viúva, a advogada, a prostituta e ela sendo ela mesma. Cada personalidade um eu dela sendo resgatado. Ela fica na sala especial, pois é considerada uma PSI: paciente de supervisão intensiva. Pode se matar a qualquer momento ou matar alguém a qualquer momento.
O cheiro da sala de recreação é de cânfora com amoníaco. Cigarros são proibidos, a não ser que o psiquiatra autorize. Aqui todo mundo faz uma coisa sem sentido. Alguns andam de lá para cá, outros babam sentados em poltronas revestidas de plástico.
Todo mundo tem uma classificação: os depressivos, esquizofrênicos, maníacos, psicóticos, retardados, compulsivos, transtornados, enfim, um amontoado de zumbis rotulados.
Os medicamentos fazem isso, tornam as pessoas zumbis a ponto de ninguém fazer nada. Você passa horas olhando para parede. O tratamento é simples: fazer que o tempo passe até que a pessoa morra naturalmente ou os medicamentos matem ela.
A maior parte deles não são visitados por familiares, a maior parte deles cometeram erros lá fora. Erros irreversíveis, nojentos. Estão aqui para não existirem, estão aqui para serem esquecidos.
O tempo sendo tempo.
A diferença do manicômio e do mundo lá fora é que aqui eles podem ser eles sendo eles mesmos, enquanto que do outro lado ninguém pode ser o que realmente é.
Tudo por etiqueta.
O melhor tratamento para um louco é a televisão, por toda parte há televisões. São elas que ditam o certo e o errado; são os conselheiros das 24 horas; são os pais que ensinam aos filhos; são educadores por osmose.
As refeições são servidas em pratos, garfos e facas de plástico e descartáveis. Como se fosse uma festa de aniversário de uma criança de 6 anos.
É a melhor maneira de morrer morrendo.
Aos 14 anos veio o surto, minha primeira dose de eu sendo eu mesmo. Engoli 500g de pasta de dente e tentei me cortar com o pente da minha irmã. Tudo isso com minha mãe batendo na porta do banheiro até destruir a porta por inteiro.
Minha mãe sendo ela mesma.
Aos 15 anos perdi meus primeiros dentes de forma não natural. O soco foi tão forte que os dois dentes da frente se curvaram para dentro, rasgando minha gengiva superior em uns 10cm aproximadamente. Fui obrigado a engoli-los junto com o sangue e toda a carne que se soltou da minha boca. Fui parar no hospital porque me engasguei com o sangue que foi secando e os dois dentes que fizeram ele se acumular envolta do meu esôfago.
Aos 16 anos eu me queimei com cigarros e me cortei com facas. Cada marca uma lembrança, cada lembrança uma decepção e um sofrimento. Era a maneira que inventei para fugir dos problemas: se eu punisse meu corpo pelos sofrimentos que passei, ele tentaria fazer o máximo para evita-los.
Aos 17 anos veio o primeiro atropelamento. Lembro que era um sedan amarelo ouro com as listras das rodas Goodyear marcadas na minha perna.
Eu sendo eu mesmo.
Com 18 anos eu já era meu responsável. Então já podia usar drogas sem pedir autorização para meus pais. Eu dormi num pesadelo de 3 anos, até acordar nos braços da beleza divina sem ser divina.
Ela me acolheu com todos meus defeitos, amou-me com todo o amor e eu retribui com todo meu amor. Mas agora ela me deixou.
Cai na desgraça dos meus pensamentos. Se existe uma coisa que mata matando é se entregar a si mesmo.
Eu morri morrendo ou me matei mantando?
"A melhor maneira de esquecer o passado é se enterrar nos detalhes."
Eu preenchi minha existência com toda as loucuras modernas: Fobias, crises, surtos, tentativas, atestados, folhas azuis, duplas folhas, tiques, espasmos, vozes.
Eu sendo eu mesmo.
Tudo é mais fácil quando se tem alguma coisa a fazer. É o tempo sendo passado sem passar passando.
Alguns colecionam selos, viram roqueiros, fingem outro mundo, fogem da solidão se agarrando a qualquer merda que caminha e fala, pedem ajuda com vícios, distorcem-se virando homossexuais, fogem de tudo e de todos se refugiando em outros mundos. Eu escolhi a podridão da realidade, eu escolhi a vida sendo vida, eu sendo eu, escolhi saber a verdade.
Hoje eu sei, sei que a verdade é que se você se cortar vai entender que tudo que está a sua volta são ilusões fragmentadas. Que nada nesse mundo é real, que é tudo ilusão; que um sofrimento é ilusão; que um sentimento é ilusão; que a vida é ilusão; que nada daquilo que faz doer é real.
Descobri que nesse mundo nada vale a pena.  
Plínio Platus
Enviado por Plínio Platus em 06/11/2007
Reeditado em 08/11/2007
Código do texto: T726247
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Sobre o autor
Plínio Platus
São Paulo - São Paulo - Brasil, 102 anos
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Plínio Platus