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Catagelofobia

Hoje eu só faço isso. Para toda pessoa que eu encontro, já nem me dou ao trabalho de fingir ser eu mesmo.
No presente momento, nem sequer finjo me conhecer muito bem. É como se minha única ocupação fosse perder peso, parar de fumar, beber, sei lá. Não sobra espaço nenhum para caber alguém nesse monte de pele branca.
No saguão de minha faculdade há sempre um ou outro argumentando sobre questões dessa realidade louca. Eles sempre começam pelo dogma da humanidade.
Por baixo, por trás e por dentro de tudo o que esses sujeitos falam há uma coisa terrível acontecendo.
Com a boca cheia de pão, alface, peito de frango, queijo e presunto, digo:
- Quer calar essa droga de boca?
Eu não o conheço, mas mesmo assim não gosto dele.
- Não, isso não. - ele diz.
Mesmo não sendo da sua conta, há algo acontecendo.
Os verdadeiros salvadores da pátria.
No consultório do meu psiquiatra tento criar intimidade dizendo:
- Quais seriam os procedimentos para uma lobotomia? Eu ainda queria ter a capacidade de abrir um porta e apertar um botão.
Eu insisto na brincadeira de fazer ele achar que pode me curar.
Então eu digo:
- Tenho me sentido muito triste e angustiado, não tenho vontade para nada e choro frequentemente.
Abaixo a cabeça e encolho o corpo.
Isso irá me render 60 cápsulas de prozac 80mg.
- Não consigo dormir, tenho palpitações no peito e fico desesperado em certos momentos da vida social.
Levo as mãos ao rosto e enceno um choro lamentável.
Isso irá me render 30 comprimidos de rivotril 2 mg.
- Às vezes ouço vozes dizendo para eu acabar com minha existência.
Pronto! O golpe final, o Gran finale. Daí eu choro até ele colocar a mão em meu ombro e eu agarrá-las e lambuzá-las de uréia e mucosa de germes e bactérias.
Isso irá me render 30 comprimidos de Amytal Sodium 200 mg, Tuinal 10mg, Seconal 5 mg e, talvez, se ele for bondoso, uma porção de Amytril 10mg.
Saldo:
- 60 cápsulas de prozac 80mg;
- 30 comprimidos de rivotril 2mg;
- 30 de Amytal Sodium 200mg;
- 30 de Tuinal 10mg;
- 30 de Seconal 5mg;
- Uma porção de Amytril 2 mg.
Bom, é o suficiente para eu viver minha vida sem mim durante 30 dias.
Aquelas folhinhas azuis de formato retangular, aquelas receitas de dupla folha, aqueles tubinhos de avisos inoportunos, aquelas caixinhas com visual branco e preto. Ah meu caro, é a famosa frase de que dinheiro compra felicidade levada ao pé da letra.
Psiquiatras, os verdadeiros salvadores da pátria.
- Se você soubesse como estou contente de poder falar com você... você e eu, como nos bons tempos, heim? Você se formou? Que rumo tomou na vida? A gente precisa se ver sem falta, falar da vida, isso é fantástico! - alguém que eu conhecia e não via a tempo me diz.
Eu sempre digo que sou vagabundo e não faço nada. Mas antes disso, sou obrigado a ouvir ele falar de sua vida.
É sempre um economista ou advogado ou administrador.
Não é que eu odeie essas pessoas, é que a última coisa que quero ver é meu passado.
Seu filho-de-uma-puta sem sentimentos.
Queria ter sido menos polido com essa gente, que eu não tinha o menor interesse, e mais polido com os que tinham.
Na minha pesquisa semanal de novas doenças, descubro uma tal de tafofobia, que adiciono ao meu leque de fobias.
Bem, eu tenho medo:
- de cor branca (leucofobia)
- da pobreza (peniafobia)
- do lazer (licerephobia)
- de contaminação por antraz (antraxofobia)
- de contrair sífilis (luifobia)
- de lugares públicos com multidões ou grandes espaços descobertos(agorafobia)
- de crianças (pedofobia)
- de se tornar antipático (angrofobia)
- de olhar para cima (anablefobia)
- usar sanitários públicos (latrinafobia)
- da sociedade (antropofobia)
- ao número 13 (triskaidekafobia)
- do inferno (tygiofobia)
- de ditadores e tiranos (tyrannofobia)
- de cometas (cometofobia)
- medo de contrair AIDS (aidefobia)
- de dançar (corofobia)
- dos franceses (francofobia)
- de responsabilidade (hypegiafobia)
- de poesias (metrofobia)
- de tornado e furacões (lilapsofobia)
- de armas nucleares (nucleomitufobia)
- de aprender (ophofobia)
- de sexta-feira 13 (parakavedekatriafobia)
- medo de ter Alzheimer (alzheimerofobia)
- às virgens (parthenofobia)
- de se tornar calvo (phalacrofobia)
- de pessoas feias (unatractifobia)
- de Deus (zeuofobia)
- e agora de ser enterrado vivo. (Tafofobia)
Para toda fobia existe uma classificação e um nome, eu apenas preencho o vazio da vida com elas.
A cada nova fobia há uma superação e um tratamento. É viver sem tédio, é viver: Controle da desproporção entre a emoção e a situação que a provoca; Superação do medo sem explicação; Superação da ausência de controle voluntário; Perder o medo da tendência à evitar essas situações.
O que você fez hoje? Foi ao cinema?
- Medo irracional de ser enterrado vivo - digo a ela enquanto trepavamos.
Eu estava dentro dela quando disse isso, nós dois trepando em cima da escrivaninha. Eu costumava fazer isso enquanto trepava: conversar. Era a única maneira de durar mais de 5 minutos.
Trepar é algo tão novo para mim, parece uma novidade. Tão século XXI isso.
Nós, homens, somos um batalhão de caçadores e estamos caçando.
Ela diz:
- Homens, se pudéssemos colocá-los num campo de treinamento e terminar de educá-los.
Eu digo para ela calar a boca.
Estampado na cara dos meus amigos está: "Não me perturbe". Eles sabem o que fazer. Faz tudo parte de um plano, um plano para foder com minha vida.
Eu não conheço o plano todo, mas cada um é treinado para realizar ao menos uma tarefa que me deixe puto.
Curiosamente, eu já não sentia mais medo.
Procurava pouco contato com essas hordas bárbaras, a não ser ocasionalmente. Por minha parte, eu não sentia a menor atração por eles, não os entendia e nem procurava entendê-los.
- É uma pena - minha amiga me diz.
- Como você sabe? - pergunto.
- Bem, não vai ser só aqui, vai ser por toda parte. - ela responde.
- O que você está querendo dizer com isso? - Pergunto novamente sem entender.
- É... - ela diz.
Assim como meu psiquiatra, todos procuram ser mais fortes pelas fraquezas alheias.
Se nos mostramos frágeis e agradecidos, há sempre um herói a nossa procura.
Os salvadores da humanidade.
Todo mundo necessita se sentir superior a alguém, é por isso que é melhor fingir ser um pobre coitado.
Menos responsabilidade.
Estou cercado de heróis, eu sou o símbolo da coragem deles. É somente eu existindo que posso fazer eles existirem também. Todos querem ser salvadores e todos precisam de uma testemunha de seu sucesso.
Se finjo ser fraco e oprimido, há sempre alguém disposto a salvar minha vida. É o prazer que concedo as pessoas que dão a minha vida o prazer necessário para eu viver.
É por isso que é preferível ser um perdedor, um fracasso profissional, um fracassado no amor, enfim, um completo desastre em tudo.
As pessoas ficam eufóricas ao se sentirem como Deus diante de minha presença.
É simples, só é preciso parecer bom na superfície.
Passe a vida toda humilhado, não tem segredo.
Plínio Platus
Enviado por Plínio Platus em 08/11/2007
Reeditado em 12/11/2007
Código do texto: T728911
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Sobre o autor
Plínio Platus
São Paulo - São Paulo - Brasil, 102 anos
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Plínio Platus