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COMEÇO

Meio dia e meio, minha cabeça ainda dói agudamente, culpa da tequila, da caipirinha, da cerveja e dela. Tento superar a recasa com um comprimido, tento superar a ausência voltando a dormir. Torturante, no sonho sou acometido por imagens constantes dela, resquícios de ontem tentando voltar.

Não gosto do café de domingo, não gosto do sol de domingo, nem sei ao certo se gosto dela de verdade, ou se apenas as suas curvas sinuosas me atraem. Gosto de observar o seu corpo de longe, os seus movimentos, a maneira incrível como profere as suas ordens a todos, a sua especial sintonia com a sua profissão. E quando está nua ao meu lado após o ato, faltam palavras ao meu vocabulário modesto para descrever tal cena, ainda mais quando o sol, no final da manhã de terça, encontra morada no seu corpo nu.

Tento escrever e só consigo poesias obscenas. Preciso de mais sexo e de meia garrafa de vodca. Sobrou pouco mais de meio terço da garrafa, sobrou alguns fios de cabelo e a sua fragrância extravagante impregnada no meu lençol. O quarto todo ainda cheira sexo, mesmo com as janelas abertas e ventilador ligado, é impossível não remeter a minha lembrança até a última madrugada.

Pedi que a ela para fotografá-la, receosa ela temeu a minha proposta, disse qualquer coisa sobre medo de se expor, e nisso eu concordava completamente, ainda é muito cedo para expor essa relação. Ajeitou o cabelo, fez o mesmo gesto do nosso primeiro encontro, questionou-me sobre o porque da foto, disse que não queria morrer de saudade nas tarde em que a sua presença não presenteasse a minha alma.

Era sexta-feira, a noite caminhava para o seu final melancólico regado a filmes medianos e música de FM, trabalhava a semana toda e mesmo assim desperdiçava os meus raros dias de folgas com amores platônicos e sexo de segunda categoria. Um casal de amigos excêntricos, assim como eu, regataram-me desse tédio levando a minha carcaça para um bar.

- Por que você tá bebendo?

Com essa frase nada habitual ela entrou na minha vida, pensei em responder a altura e sem educação nenhuma, mas a julgar pela situação compreendi essa indagação. Realmente eu estava deprimente, escorado no balcão bebia cerveja quente e tentava me livrar do mundo em volta de mim.

- Como assim?

- Ah sei lá, todo mundo bebe por algum motivo, existem pessoas que bebem para se divertir, outras para esquecer da realidade que tem que enfrentar, e algumas apenas para vadiar. Você por exemplo, parece que está bebendo para esquecer de algo ou alguém.

Assim ela filosofou na sua segunda frase na minha vida, veio com todo esse papo cerca de 2 e meia da manhã, num bar úmido e quente que tocava rock retro dos anos 80. Dias depois ela me explicou que esse papo surgiu de uma aposta com uma amiga, misturada com um trabalho da faculdade e com um baseado.

- Bebo porque eu quero beber e para me livrar de perguntas difíceis como essa.

- Mulher?

Não respondi, nem vou reportar esse caso agora, apaguei, queimei, joguei fora.

- Ué não vai falar nada não, fica aí com a cabeça no balcão, vai ficar mais bêbado do que já está, vai querer dirigir e vai acabar na porta do cemitério, ou pior vai querer dar uma de valentão e vai apanhar até dizer chega.

- Não sei dirigir.

*fim parte 1
Márcio Bezerra
Enviado por Márcio Bezerra em 14/11/2007
Código do texto: T737428

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Sobre o autor
Márcio Bezerra
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 33 anos
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Márcio Bezerra