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A santa *


     Escreve, ela disse. Escrevo.
     Foi àquela noite que me pedira. A mim, reclinado confortavelmente contra a parede daquele quarto, saboreando meu curaçau e expirando a fumaça de meu cigarro, cintilada pelo brilho da lua minguante que atravessava a janela e contornava aquela silhueta tristonha que desviara a olhadela da esquina para um fito olhar por sobre os telhados das casas adormecidas. A fumaça cintilada parecia dançar a seu redor, parecia abraçar-lhe como um anjo cínico. Ela também sabia dançar. Escreve, ela disse.
     Ah, escrever... Contudo não seria um romance, tampouco uma aventura ou uma poesia bucólica, mas sim um relato. Um memorial. Escreve, ela disse. Escrevo.
     Foi em uma tarde de verão, portanto, daquelas com crianças brincando no chafariz e com casais de namorados andando de bicicleta e a tomar seus sorvetes de morango. Pelo menos essa era uma idéia comum a respeito de como um verão deve ser. Mas, o verão, apesar de representar a estação do sol, é, na verdade, uma estação de chuvas. E qual chuva repentina era a que se aproximava dela. Então, esqueçamos o dia ensolarado, o céu azul, a alegria das crianças e os flertes dos namorados, porque até mesmo o dia mais ensolarado pode se tornar sombrio, e estar entre a mais alegre multidão pode ser solitário. Pois foi, portanto, em uma tarde de verão que se tornaria assim: tenebrosa, solitária, e frígida.
     Ela era a próxima e entrou com seu filho. Anelava por uma resposta definitiva, afinal, lá estava para atendê-la o que lhe afeiçoava ser um sacerdote da vida. Aquela roupagem branca, aquela linguagem misteriosa, aqueles livros espessos, escritos em tantos idiomas diferentes - e ela mal sabia ler o seu próprio. Mas desta vez ele lhe foi compreensível, terrivelmente compreensível: seu filho estava morrendo. Mas não como a maioria de nós, morrendo porque vivemos, morrendo porque o tempo passa e nosso fôlego se dissipa no esquecimento como pó que escorre das mãos. No caso do menino, além de estar morrendo como parte do destino de toda a humanidade, sua morte significava ali, naquela sala da saúde, uma perda de saúde acelerada, um escorrimento mais súbito do pó da vida, um apagar da chama da vela não pelo desgaste da cera mas pelo soprar, era um escoamento de pó pelo quebrar da ampulheta. Seu filho estava morrendo.
     Mas diante dela não estava um sacerdote da vida? Não. Pelo que ela poderia pagar, não. A única cirurgia que poderia salvar a vida de seu menino estava além do que ela poderia pagar. Sim, então a vida agora tinha um preço. Sem milagres, sem alternativas. Só o mais afiado silêncio a acompanhou até a rua.
     É assim que tardes ensolaradas convertem-se em florestas brumosas e gélidas, e de noites sem estrelas.
     Enquanto retornava para o seu lar, o mundo em seu torno ruía-se. Era como se estivesse aprisionada em um labirinto tortuoso e viciado, e a caminhada até a porta de sua casa embaraçou-se em pisadas vacilantes. Seus olhos lânguidos, de exangues, eclipsaram-lhe as vistas quais turvos se encontravam sua mente e seu coração, dilacerados na perdição do que parecia ser o horror indescritível de trevas sem fim. Ao menino negara suas lágrimas maternais, e esperou que dormisse para reservar seu choro a si mesma, confidente solitária da própria dor. Pranteava soluçante em seu encolhimento fetal, mas resposta não havia, saída não encontrava. Contudo, depois da escuridão viria a luz, lembrava-se. Queria acreditar. Precisava acreditar.
     Quis ver o menino, abraçar-lhe com sua aura.
     Foi ao seu quarto e espiou-o com desvelo, o seu rebento, que jazia em doce sono, àquela noite apavorante, na qual pensava em sua vida agora dissemântica. Porém, velar seu príncipe tornou-a decidida, e de pálida forjou-se mais sangüínea. Seu desespero de outrora definhava, enquanto armava o manejo de sua sorte. E selou, naquele instante de agonia, uma jura de propósito a si mesma: angariar obstinada cada níquel até juntar o montante necessário que custearia a manutenção da vida de seu menino à qual soubera agora ter um preço. E aquela mãe zelosa que o velava sorriu-lhe e fosse como se o beijasse, e saiu para as esquinas da cidade – ela agora também tinha o seu preço.
     Caminhou até a avenida e perambulou de poste em poste até avistar uma comerciante do prazer. Timidamente aproximou-se e quis se informar de todos os detalhes para assim iniciar seu empreendimento. Pediram que ela desistisse, que não conseguiria ir tão longe, mas a mãe estava obstinada. Então, resolveram ajudar-lhe, e esperaram chegar o cliente certo para que estreasse e pusesse fim à sua agonia.
     Em sua noite inicial, seu medo e seu asco só não eram maiores do que sua coragem e sua determinação. E quando seu primeiro amante começou a tocá-la e a invadi-la, sua mente sublimou para uma ilhota celestial. Seus ouvidos ensurdeceram, seu tato leprosou. Toda aquela anestesia induzida a inebriava em danças rodopiantes e compassadas. Era sua noite inicial. A dança é interrompida por um exalo farto. A ilhota arrebol se dissipa como o crepúsculo pela noite. Os ouvidos ouvem, os músculos pulsam. U'a mão suja acaricia seu queixo trêmulo. Um maço sujo lhe é a paga. Apenas a paga inicial.
     Calculou cada centavo, e sempre planejava um jeito de valer mais para acelerar sua meta. Não demorou para que felizmente conhecesse, algum tempo depois, umas universitárias, que lhe indicaram um sobrado mais aconchegante do que esquinas frias e escuras. Foi aceita, e lá permaneceu até o fim de sua empreitada.
     Por ser carinhosa e dedicada era bastante requisitada. Alguns também lhe eram carinhosos, outros lhe pareceriam seu antigo marido, o pai do menino, homens asquerosos, covardes. Intragáveis. Não, ela teria que tragá-los. Então tinha que se fazer ainda mais forte. Mas o que se passava por sua mente nessas horas de provação só cabe especular. Castelo cheio de segredos é o coração de mulher, e mistério insondável, sua mente. Talvez ela lembrava-se de algum pôr-do-sol especial, talvez se recordasse das estórias infantis de sua avó, quiçá de seu melhor beijo, quem sabe até do primeiro sorriso de seu menino, ou trazia à mente memórias de alguma vez em que esteve enferma e fora consolada pelo saudoso colo aconchegante de sua mamãe. Está tudo bem, logo vai passar, logo vai passar, alentaria sua mãe no afagar de madeixas. Está tudo bem, logo vai passar - concentrava-se. Mas não passava logo. E quando passava, recomeçava, em outros arremetos, que se seguiam comutantes, graduados do erétil renque contíguo.
     E, ó, assombrosa noite aquela a sufocar-me qual frio espectro danado, esse penoso mal-estar, esse vazio umbilical, qual tortura do inferno, para onde devem esvair as almas desconsoladas. Vago errante pelas estreitas esquinas da noite pálida, e a lua, inspiração de meus poemas melancólicos, é minha única companhia. Ah, essa prévia de inferno, esse desconforto da alma estrangulada, esse sabor moderno de insônia respingado de suicídio, tragado em gélida taça imposta pelas necróticas falanges da tristeza amarga. Trago acre que me seca a boca. E tenho sede. Sede de satisfação imediata. Não a cura, não a salvação, mas a pura, carnal, animalesca e simples satisfação imediata. E um pouco de embriaguez de sentido.
     Viro mais uma esquina e sigo a estrada de tijolos amarelos. Não. Eram paralelepípedos gris tremulamente iluminados pelos vacilantes postes públicos. Mas a porta do palácio de esmeraldas está lá. Aconchego é do que preciso, e de degustação de carne viva. Aconchego e degustação, em uma cama macia. Satisfação, já disse.
     Um lance de escadas, e subo a um quarto de prazer, finalmente. E o abraço uterino dela. E os carinhos dela. E a dança dela. A morfina de que necessitava.
     Recito-lhe, embriagado, um poema embriagado. Confesso-lhe minha dor suburbana – absolva-me, sacerdotisa de Afrodite. E confessa-me sua dor, confessa-me que sou o primeiro a ouvi-la, e faz-se grata por partilhar dor. Partilhou prazer, e, agora, dor.
     E o curaçau, e o luar, e o cigarro. Conta-me de sua vida, conta-me de seu menino, e do porquê de estar ali. Pede-me mais um poema, pede-me um conto sobre si. Escrevo, respondi-lhe, mas torna-me o rosto. Tornou-me e era azul. Era a lua. Ou seu semblante? Então beijei seu queixo e acariciei-lhe o braço. Beijou-me a boca em despedida. Despedi-me com um maço na cabeceira. Mas a madrugada ainda não a despediria.
     Noite após noite, semana após semana, estação após estação, ela persistia ao encalço das areias do tempo. Procurei por ela novamente uma madrugada qualquer. Estava melancólico e somente ela me consolara por completo. Egoísta, eu? Imaturo, inconsistente? Não, apenas humano. E nunca disse que era virtuoso. Procurei por ela, portanto, mas dessa vez ela não se encontrava no sobrado das meninas. Fora levar seu filho ao hospital, e depois soube que estivera com ele por quanto permaneceu internado. Se eu escolhi outro consolo? Já disse que não sou virtuoso. Mas ela... Ah, ela era um anjo neste mundo aflito. E quando esta angélica retornou ao seu nobre ofício, lá fui eu pôr-me aos seus pés – e às suas mãos, e à sua boca, e ao seu colo -, resolutamente viciado qual meus lábios pelo cigarro.
     Contudo, só mais um pouco e bastará, ela disse alegremente. Só mais algumas noites, só mais algumas tardes, e terei a quantia suficiente, e, enfim, meu menino terá tratamento, ela disse.
     Então você deixará este mundo e retornará para sua vida normal. Você desceu às profundezas da animalidade, ao comércio da intimidade, ao mercado do carinho, e agora emergirá acima da mediocridade, vencedora, eu disse. E pedi-lhe permitisse a mim ser o último. Sorriu-me, mas negou-me sutilmente. Certo, em seu lugar eu também me negaria privilégios. E romantismo piegas.
     Beijou-me a fronte, despedindo-me. E sorriu vitoriosa um sorriso maternal e acalentador. Sim, adeus.
     Penso ter visto ainda uma última vez seu rosto sereno, ao passar eu certa vez de ônibus pelo centro da cidade. Pareceu-me tê-la visto, sim, atravessando uma rua, com seu adorável menino, segurando-lhe a mão. Pois então ela conseguira assegurar-lhe a vida, finalmente. Triunfara, portanto. E já não caminhava entre os seres humanos, pairava sobre nós.
     Há alma que está disposta a abdicar e abraça por fim a nobreza, a elevação, a sublimação. Perder para ganhar... Ah, o preço de uma alma mais humana...!, que até as profundezas obscuras rasteja, se mantendo ainda humana, e ainda mais: pura. Ou, antes, se perde a humanidade da alma justamente na apatia diante dos obstáculos da vida, e o seu contrário, isto é, escolher descer às profundezas inevitáveis da dor e retornar ovante é na verdade ganhar uma alma mais humana.
     Ela foi a um lugar além do qual ela mesma sequer poderia imaginar. Ela pagou o preço, um preço alto para salvar uma vida, ela deu a própria vida, em todo seu orgulho e toda sua integridade, para salvar outra. E por isso é uma santa. Abdicou de seu corpo e elevou sua alma às alturas. Sim, em minha vida posso dizer que conheci uma santa. E já não caminhava entre os seres humanos, pairava sobre nós.


(Publicado em: "Livres para Voar", Andross Editora, 2013)
Vitor Pereira Jr
Enviado por Vitor Pereira Jr em 16/11/2007
Reeditado em 29/04/2017
Código do texto: T739809
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