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Fred e seu objeto de amor


    Era um mais um dia comum na vida de Fred. Ele mais uma vez havia acordado, no que acreditava ser, muito cedo, fez um desjejum rapidamente (pois já se encontrava atrasado) e foi a escola. Seu pai mais uma vez buzinava o carro para ele ir depressa (pois ia de carona).
    Fred com a cara inchada de sono, parecia emburrado. Mas ele mesmo acreditava ser do sono. Seu pai, por outro lado, pensava que era coisa da fase adolescente, já que seu filho se encontrava com 13 anos.
    O menino nada falava apenas escutava mais uma vez o noticiário da manhã transmitido pelo rádio que o pai sempre escutava. Na verdade era um dia muito normal, tão normal que enjoava. Fred não tinha disposição pra nada, aliás também não pensava em nada.
    Como de costume, seu pai o deixou na esquina do colégio para seguir em frente no trajeto de seu trabalho.
- Boa aula filho, se cuida.
- Ahã.
    Fred então caminhava novamente pela já tão conhecida calçada, toda judiada pelo tempo. De vez em quando, desviava das formigas para não esmagá-las, atitude costumeira, pois acreditava que ele não merecia ser o carrasco delas.
    Foi em um destes atos de bondade (que assim pensava), Fred se deparou com algo brilhante no chão. Achou que era uma moeda. Olhou pros lados. Ninguem. Fingiu amarrar o cadarço e apanhou o objeto, levando-o até o bolso direito, e seguiu seu caminho com a mão no bolso. Foi tateando o objeto que notou não ser uma moeda, pois era vazado. Pensou ser um anel.
- E se for de ouro? - pensou.
    Por via das dúvidas, encaixou no dedo e levou a mão para a observação. Era um brinco. Um brinco simples, destes prateados do tamanho mesmo de um anel. Sentiu um aroma de sua mão, mas não se lembrava de ter passado nenhum perfume. Não era seu hábito. Vinha do brinco.
- Cheiro bom! Parece conhecido - pensava consigo.
    Notou os outros alunos se esbeirando a ele, já que se encontrava no portão de entrada.
    Fred não tinha muitos amigos. Era seu primeiro ano neste colégio e ainda estava em março.
    Ele então comprimentou um e outro conhecido, como de praxe. Contudo, não conseguia tirar os olhos das orelhas das meninas. Começou a se sentir encabulado pois era muito tímido e retraído. Ficava procurando o irmão gêmeo daquele que carregava em seu dedo anelar. Uma e outra menina retribuia o olhar e ele disfarçava olhando pra traz destas como procurando alguém.
    Deu o sinal de entrada. Foi pra sua sala. Sentou-se em seu lugar preferido, no fundo da sala, ao lado da janela esquerda. Gostava de sentar ali, pois quando a aula estava muito monótona, ficava olhando pra fora - apesar de que já em frente se encontrava um muro, mas pelo menos dava pra ver o céu.
    A aula era de matemática, a preferida dele para olhar pro céu, mas desta vez sua distração foi observar carteira por carteira todas as orelhas possíveis. Começou pelo canto esquerdo dos fundos.Analisando cada orelha ele percebeu que nunca havia notado esta parte da anatomia das pessoas. Começou a admirar os pescoços juvenis daquelas garotas, quando sentia que sua missão estava sendo "interrompida", voltava a procurar pelo brinco. Notou que os meninos eram tão desajeitados e feios em comparação com a sofisticação feminina. Eles, muitas vezes, com o mesmo corte de cabelo, camisetas parecidas, uma mesmice. Até Fred se sentiu muito comum. Elas, por outro lado, muito mais vaidosas, se adornavam diferentemente com colares, maquiagem, pulseiras, bolsas e, é claro, os inseparáveis brincos.
    Após contabilizar todas as meninas e, inevitavelmente também os meninos de sua turma, voltou a olhar para fora da sala...
Soou novamente o alarme do intervalo. Ele se apressou a sair. Geralmente não gostava de sair no recreio, se sentia um peixe fora d'água, desta vez não, saiu e ficou encostado na parede que dava pra sua sala olhando o movimento da garotada. Novamente Fred voltou ao mistério, olhando pros balangandans que as meninas tanto gostam. De vez em quando olhava pro seu dedo e admirava a simplicidade e beleza daquele pedaço de metal. Começou a imaginar como seria a dona dele.
E se fosse bonita e legal? Ficaria satisfeitíssima que o encontrou? De repente poderia rolar um namoro e o tirar deste ostracismo...ou pelo contrário, se fosse alguma menina sem graça e mal educada? Vai que ela fique correndo atrás...
    Berra novamente o sino. Fim do recreio. Correu ao banheiro, nem tanto por alguma necessidade, mas principalmente, pelo fato de lhe dar uma sensação muito boa tentar resolver o enigma. Ora, este brinco tem uma história - pensava - alguém perdeu, certamente deu falta e eu quero devolver. Foi conferindo orelha por orelha que sua vista pudesse alcançar, nenhuma passava despercebida. Voltou depressa para sala. A missão banheiro foi infrutífera.
    Aula de história. Era simplesmente o maior tédio do mundo a aula daquela professora. Aqueles óculos, aquele cabelão escorrido, sua voz insossa, tudo contribuia para um bom sono. Mas ai daquele que cochilava, a mulher ficava uma arara. De repente, com a mestra de perfil, Fred pôde achar o parceiro do seu admirável mistério.
Ela deve ter perdido e nem notou - pensava. Ficou um tanto sem graça, e escondeu a mão que o portava. Sentiu uma infelicidade por ter resolvido aquele problema desta maneira, já tinha pensado mil e uma coisas sobre a dona: ser de uma vizinha que ele gostava, ou ser de uma mulher casada e que (em suas fantasias) se apaixonaria por ele e teria que se esconder de seu marido. Ou até de um travesti (pensamento este que o incomodava). Pronto, agora era só devolver e fazer a professora ficar constrangida por andar a manhã toda somente com um brinco. Quando Fred levantou a mão pedindo a atenção dela, ela se virou e viu que ela tinha os dois brincos. Fred ficou vermelho. A professora perguntou o que era já notando os cochichos dos colegas sobre ele.
- Posso ir ao banheiro? - disse Fred. Quiá-quiá-quiá, caiu a gurizada na gargalhada, imaginando que Fred havia se borrado ou algo assim. A professora chamou a atenção deles e Fred saiu cabisbaixo dando um leve sorriso de remorço, para aquela que ele planejava um golpe sujo. Chegando ao banheiro, quase jogou o brinco fora, pois foi o responsável por aquele mico. Não - disse a si mesmo encarando-se no espelho - vou devolver pro seu devido dono!
    Pensou que poderia levar anos neste mistério, pensou em escrever um livro, ou fazer um filme sobre o acontecido, ou ainda, quem sabe, já velhinho e solitário, encontrar a senhora dona do brinco. Voltou pra sala, que já tinha voltado aquela normalidade doentia, todo mundo com cara de sono. Ele sentou em sua carteira e começou a desenhar vários anéis, de diversos tamanhos e desenhos. Gostava de rabiscar. Começou a achar bonita sua mão com aquele anel. Dava um tchan, e se alguém perguntasse diria que era de sua namorada perdida. Pra isso, já tinha até as falas prontas.
    Nada de novo, saiu da sala observando que realmente sua professora usava um brinco muito semelhante ao seu. Pensou até em mostrar pra ela, só pra alívio de consciência, mas desistiu. Cuidando por um último momento, todas as cabeças das mulheres na saída da escola, seguiu seu trajeto, como sempre fazia, a pé. Percebeu que algumas meninas vinham logo atrás - e se for de alguma delas? Avistou sua casa. Disfarçou um pouco e viu que não tinha mais ninguém.
    Chegou calmamente em casa. Sentia um certo alívio quando retornava ao lar, era terra firme. Fred sentiu o cheiro bom do almoço que sua mãe preparava. Gostava de tentar adivinhar o que havia sido preparado, quando estava a remexer nas panelas, sua mãe o indadou:
- Ah, então é o senhor que pegou o meu brinco? Apontando pra mão de garoto.
Um sorriso leve e gostoso saiu pelo canto da boca de Fred.
- Eu mesmo mãe, devolvendo e pensando que finalmente encontrava a mulher mais importante de sua vida.
Taborda
Enviado por Taborda em 22/11/2007
Reeditado em 25/11/2007
Código do texto: T747795

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Sobre o autor
Taborda
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 36 anos
19 textos (1511 leituras)
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