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Isadora

     Sempre quis o difícil. Foi o que concluí da história até bonitinha que ele me contou.
     Conheceu a menina quando ela ainda tinha uns 17 anos, e faziam inglês juntos. Ela naquela escada, sorriso, medo e admiração, como diante de algo sagrado ele parava; eram da mesma sala! alías, não havia sala, só ele e sua fanática adoração. Isadora. Paixão fulminante pela segunda vez na sua vida.
     Entre as conversas ansiosa e extremamente importantes que tinha com ela, sobre "como foi seu dia" e etc, ela gostou do colar que ele usava. A mãe o dera. Como um fiél que dá ofertas e sacrifícios sem pensar, ele colocou o colarzinho (lindo!) em suas mãozinhas leitosas. "É seu, presente! ficou até melhor em você..."
     O sorriso de Isadora foi seu sol aquela semana. O doce "sério, obrigada!", seu alimento. Isadora, e até hoje resta um pouquinho da sensação de calor suave... do calor e das mãozinhas.
     Ela tinha aquele jeitinho de princesa, aristocrata. Como reis egípcios que também eram deuses. Cleópatra. E então ele vivia dela, e um dia choveu. Ele, ela e outra amiga conversando e a esperar alguma coisa... Chovia forte, ele gaguejou e tremeu. tremeu como nunca antes. disse que era a g-gripe, o ffriioo. tremeu, se aproximou demais do sol.
     Quinta-feira ela o convidou para deixá-la na escola, que fôsse com ela, companhia. Foram e conversaram coisas banais, maravilhosíssimas. E ele voltava satisfeito depois, o dobro do caminho que faria sem ela. Mas a felicidade de olhar naqueles olhos de princesa mais 15 minutos...
     (essa história, de tanto falar de princesa, está parecendo com a "Vida é bela". Mas sem a guerra, e tal. A vida foi bela, pra ele. enfim)
     Então um dia, gripou-se. Acontecia muito. Quando a via, curava-se. Esquecia a gripe. E esta não voltava mais depois da aula de inglês. E depois da volta pra casa, virava força. Essa menina é milagrosa. Nunca amei assim, e brilhava com o caminho longo da volta, 15 minutos, sob o sol de 4 da tarde. Entendeu até Deus. Que importa se Ele manda e desmanda, e é três em um, etc. Deus é amor. e faz milagre sim, cura gripe. Essa menina, esse amor, nunca amei assim...
     Amor, paixão, reinos, poemas e princesas e só ele sabia. Irradiou de repente. A amiga dela (a mesma do dia da chuva) arrancou a verdade. Se ela segurou muito tempo, não sabe, sabe é que um dia falou. Foda... Não mudou nada. O colar agora virou chocolates, abraços apertados, passeios mais longos. O amor aumentou, com o desespero e sofreguidão de uma hora, amanhã, próxima aula, (chamar pra sair!) terça que vem, se declarar... as amoras brotaram e nada. Amor de sua vida, mulher ideal, princesinha doce, nunca amei assim!tudo engasgado.
     "Ela tá namorando", a amiga contou. A vida se foi e voltou, a alma quis fugir do corpo em raio de palidez. Se declarou então, idiota e sem saber direito o que fazia, como quem pede clemência a Deus por seus pecados. Foi tarde. "Se fôsse antes tinha acontecido, talvez" ela deu a entender, ele entendeu assim.
     Isadora!!! "Acabou, perdi". Teve desilusão grande e quis morrer, lendo "Os sofrimentos do jovem Werther". Bebeu vinho, e só. Não conhecia o namorado dela, e talvez nem tinha arma pra emprestar... Passou então a ler Realismo-Naturalismo. e o inglês acabou, com formatura, champagne e tudo.
     A época foi doce, o sol, as caminhadas, presentes, abraços e palavras. Nunca vai se esquecer... seu segundo amor. Quando lhe disse isso ela mal acreditou. "Logo eu, a doida da Isadora...". Logo, ela.
     O calor, a doçura, os olhos castanhos de princesa. Não lembra de data (coisa de mulher), mas às vezes sente tudo de novo. O caminho anda por ele, de vez em quando. Sozinho, nunca amou mais. E é ateu.
     "Pois é, lembrei disso porque ela fez vestibular na sala do lado da minha semestre passado. Quando eu vi ela, voltou tudo. Pensei que ia passar fácil, fácil, inspirado que tava. Ela passou, eu não. Ela ainda namora, mas ainda bem que eu nunca mais tremi diante de mulher nenhuma. Ai, ai, Isadooooora". Falou o nome lentamente, como se fôsse calor.
     Quando começou a contar a história, foi como uma prece para um deus distante, agradecendo pelo dom da vida.
     Deus dá a vida, mas tira também, pensei. Não posso atrasar pra essa prova...
Luna Steinherz
Enviado por Luna Steinherz em 28/11/2007
Código do texto: T756640

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Sobre a autora
Luna Steinherz
São Paulo - São Paulo - Brasil, 28 anos
425 textos (24029 leituras)
3 e-livros (327 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/10/17 15:59)
Luna Steinherz