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Ainda juro que não comi carne

Ainda juro que não comi carne.
-  Mas, filhinho, quem jura é que mente!
-  Jamais comeria outra coisa senão peixe, a senhora sabe disso mais do que ninguém!
-  Querido, não precisa me desmentir, olha que isso só piora as coisas, tá?!
-  Dona Clara, a senhora sabe muito bem que sou cristão de berço!
-  Você abandona o seu Criador, afasta-se da tradição da sua família (da Sicília, va!)... Aí não me vem pra casa na sexta, não liga, não deixa recado e some! Você comeu carne, sim! Só pode! Onde você esteve menino levado? Você nunca me tinha feito essa desfeita! Ai meu Deus, ai, ai...

O telefone ficou mudo. Dona Clara tombou. Infarto fulminante. O coração, de tanta paixão, não suportou tamanho esquecimento da fatídica sexta-feira santa, pelo outrora tão bondoso filho Angelus. Gelinho ficou do outro lado da linha:
-  Mãe!? ... Mãe??! ... Mãe!!! Tá me escutando?!! Meu Deus, o que será que aconteceu???

Caso pudesse ainda redargüir, D. Clara, se bem a conheci, diria: - Agora você se lembra de Deus! Mas não se lembrou dele quando devia!

Mas, isso era impossível agora. Gelinho estava em São Paulo e só dizia: eu juro que não comi carne, eu juro que não comi carne... Foi correndo pro aeroporto: eu juro que não comi carne, eu juro que não comi carne... Aeroporto lotado, o caos aéreo, mas, um bom velhinho judeu acabou se compadecendo do menino que se desesperara após 5 horas de espera sem previsão de embarque e ofereceu sua poltrona no avião.

Seu Salim queria conhecer o Pão de Açúcar e o Cristo, Angelus ouvindo isso, chora em demasia: eu juro que não comi carne, juro que não comi carne... Seu Salim não entendendo nada, foi parar nas praias do Recife: “Um dia eu consigo, disse ele, eterna esperança de brasileiro”.

Dia seguinte, o velório sombrio dos corpos etéreos desanimados, a mãe plácida como uma rosa na primavera, só ela tinha luz. O gato preto no canto do portão da entrada era uma sorte para o menino que gostava agora de música estranha... talvez a mãe desconfiasse... até que, num tremular vulcânico, próximo ao portão da casa, Gê me diz:

- Olha Lúcio, eu nunca mais vou comer carne, eu juro, eu nunca mais vou comer carne, mas ainda não consigo acreditar que o Zé me dedurou. Assim que papai morreu eu fiz questão de cuidar dele, com todo o carinho, tanto amor... e ele me prega essa peça! Posso nunca mais comer carne, mas, mas, eu o mato!!! Zé! Zé! Volte aqui seu papagaio dos infernos!!! Zé! Zé! Seu bicho do cão!!!
Permart
Enviado por Permart em 03/12/2007
Código do texto: T763430

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Sobre o autor
Permart
São João de Meriti - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
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