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O mosaico da doce flor negra

Daquelas portas cinzas, tortas e das paredes sujas que jaziam insetos, tirei a longa vontade de rever tudo que passamos. Como em um lapso que desprezei por todo o longo caminho e que veio em um segundo antes da queda. Tudo sempre me remete a você, garota abusada. A porta semi-aberta, os cd’s pendurados por fios de nylon presos ao teto… parece tudo bobo, mas isso tem uma grande razão: você foi sempre boba, bestinha assim. É por isso que sempre gostei de ti, não havia tristeza. Nenhuma lágrima foi derramada… da sua parte.
Eu sempre vivi no meu mundo abstrato, aquele mundo que te manda pra rua com cara de lixo e te faz voltar pra casa com cara de cansado, por mais que não tenha feito nada, eu ainda me sinto cansado. E do cansaço quase nunca vinha o sono, já as longas horas desperdiçadas procurando novidades ridículas na internet, músicas introspectivas e sonetos perfeitinhos. Eu não me arrependo. Julgo como ócio, meu ócio longo e inteligente, sabe?
Não, esqueci que você não sabe. Afinal, você não me escuta, então não pode saber o que é isso que tento explicar-te em palavras simples e bondosas (até por demais). O incrível é que os dias passam e eu não perco o hábito de dar bom-dia a você. Que coisa chata, clichê. Tenho que parar enquanto consigo não gostar, pois se me acostumo a tratar-te dessa forma “perfeitinha”, tudo irá submergir num mar de desgosto e incompreensão. Mais ou menos como muitos poetas, bêbados e lunáticos se encontram por aí, perdidos, mas ao mesmo tempo, localizados para si próprios. São tantos devaneios, tantas palavras jogadas pra fora dos lábios secos, que já mal percebo o quanto preciso de água para beber e para me limpar. Água por favor. Preciso livrar-me de todos esses vícios ridículos que acumulam sobre minhas costas, me fazendo andar torto, corcunda.
Não quero isso pra mim. Chega. Vou me lavar e depois limpo nosso desenho feito na parede do quarto-de-caixas, ok? Desculpa, jurei que não tiraria nada de lá, por mais que nós ficássemos incomodados com o que o real dono falasse. Mas chega, aquele desenho abstrato revela muito de nós dois, e isso me incomoda. Não a você, é claro. Afinal, te desenhei pequena, num barco de longe indo para a ilha da perfeição me olhando de canto, enquanto eu, náufrago, dava braçadas contra o mar que trazia algas em meus ombros castos e árdia os olhos para me afogar.
Ahh… lembra quando apoiava a cabeça nos meus ombros? Que saudade daquilo. Por mais que doesse com o tempo, eu gostava. Sentia vida, apesar de que era você quem sentia o coração bater, a veia pulsar de leve no meu compasso sedentário. É, correr para quê? Jogar o que e para quem? Nunca precisei, por isso sou assim, tão calmo, tranquilo e ambíguo nas piores horas. Lembro de você sempre falando para eu não dizer a verdade para os amigos, por mais que necessário fosse… aliás, você me fez ter essa mania de esconder a verdade de quem eu mais quero bem nesse mundo. Para quê? Se eu e você merecemos a verdade, imagina os que estão no meio desse grande circo, babaca e podre que é o mundo?! Erramos juntos… Aliás, alguma vez conseguimos acertar em algo? Nem nas apostas no jogo do bicho ganhamos algo. Nós que fomos os bixos e nossos números deram na cabeça, entende? Fomos feitos de alvo para todos, mas o pior é que nós é que atiramos as flechas, todas elas. Uma por uma, com veneno na ponta, com fogo, com sangue de gente que já se foi… nós somos os atiradores aqui. Mesmo que esse efeito seja inverso, continuo achando que somos bons no que aprontávamos juntos. Acho que ninguém foi melhor do que nós para andar de mãos dadas, cantar diversas canções de derrota, hinos de glória e até mesmo para subir em mangueiras. Lembra? Aí aquela mistura nauseante de manga-verde com sal. Credo, no começo era tão ruim, mas no final a gente já sabia o tanto que comeríamos e o quanto que passaríamos mal. Era pior que um porre de Vodka! Ahh, agora lembrei o quanto era bom beber contigo. Sempre ficava quietinha, tomava as primeiras 3 doses olhando em meus olhos, como em um ritual de amor qualquer. Pena que eram só as 3 primeiras doses, já que nas outras você preferia sentir o universo. Mas até que era bom, sentia você viajar pensando e falando em música, sexo, garotas bonitas e o que fariamos com elas. Você, tão nova, tão ousada veio e inverteu tudo. O curioso é que eu gostei disso, me sentia mais poderoso ao seu lado, entende? Deixava todas as marcas de batom vermelho no meu peito enquanto outras olhavam e gostavam do que viam. Que coisa maluca que tivemos… já nem sei mais o que definir, ou o que falar, mas aprendi a ter minha identidade contigo, conquistei-a e agora ao me olhar no espelho ou ao andar na rua sinto que os outros estão olhando pro meu próprio rosto e não o de qualquer outro que me chamava atenção. Larguei as máscaras, todas elas. Lembro de todas as masculinas e femininas. Era bom me sentir assim, mas não me sentia, sentia os outros em mim e isso é invasivo, é hipócrita. Hoje, se fosse pra escolher uma, seria a tua a primeira que usaria.
Pena que agora estás aí, deitada, trancada e calada. Mas sei que tua alma ainda viverá e que sentiu todas as vez que vim aqui, todos os dias pela manhã com um sorriso inédito que só você conhece. Vim me despedir pois essa será a última vez que te visito assim. Estou de mudanças pra longe, muito longe e já não sei se conseguirei voltar. Essa carta que acabei de ler pra ti, ficará em baixo do vaso de flores que estou deixando com um único Girassol, em frente a tua lápide. Que a chuva a desfaça e a essência permaneça para todo o sempre. Espero que me entenda, espero que me acompanhe, pois meus passos, sorrisos e forças serão sempre em tua homenagem, minha doce flor negra. Descanse em paz.
Pablo Emílio de Mattos
Enviado por Pablo Emílio de Mattos em 06/12/2007
Código do texto: T766667

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Sobre o autor
Pablo Emílio de Mattos
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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Pablo Emílio de Mattos