A calcinha de Dona Joana

“Eu vi sim !!!”..” Tenho certeza que era a calcinha”...Meus amigos me olhavam com uma certa inveja,graças aos brilhos insistentes dos meus olhos! Não só tinha certeza,como arriscava até dizer a cor da mesma :”era branca !”

O ano era 1947 ,a cidade ,Porto Calvo ; interior de Alagoas.Fui estudar com os padres franciscanos no convento dos Remédios em Recife,mas nas férias,sempre voltava a Porto Calvo pra rever meus amigos,tomar banho de açude,paquerar,ir ao cinema ver o Zorro e os Três Patetas.

Tudo naquela época era distinto, forte e formal. Numa cidade pequena,todos vão à praça da matriz “tomar um ar”,logo depois do café da noite,janta,pra ser mais preciso.Na praça,além do vendedor de picolé e da pipoca,tinha os tipos característicos da minha cidade : os poetas e seresteiros.

Como não poderia deixar de ser, algumas pessoas se tornaram “fixas” nas passadas da praça: o padre ,a Dona Filó ,o cachorro Mocotó,os namorados recentes e Dona Joana,sim...Dona Joana!!! Meu Deus! Essa mulher mexia com os hormônios dos meninos.Naquele tempo que não se viam as pernas das mulheres,só os tornozelos,escondidos em meias grossas trazidas pelas forças aliadas da 2ª guerra! Ela era linda: loira ,não muita alta,branca,rosto que mais parecia um pêssego,pernas esguias e fortes,boca carnuda que parecia sempre pintada com carmim,olhos azuis cintilantes!! Ficávamos bobos só em vê-la passar.

Dona Joana era solteirona, tinha uns 35 anos. Quando a vi pela primeira vez , descia da boleia de um caminhão vindo de Garanhuns ,fugindo de um pai que a maltratava,bebia muito e a espancava. Ela logo se alojou na Pensão Familiar de Dona Filó,a rádio difusora de nossa cidade. Que mulher fofoqueira!Os detalhes que todos tivemos da vida de Dona Joana vieram dela, da rádio difusora!

Com o passar do tempo, Dona Joana foi fazendo amigos e se mostrava uma pessoa meiga e generosa com todos. Só não olhava pra os “pivetes” como eu e minha turma de alunos dos padres.

Em 1950,terminei o curso colegial e fui trabalhar na Farmácia “O Boticão ,no centro de Porto Calvo.Ajudava ao Seu Evaristo,farmacêutico antigo e considerado “O Doutor” na cidade.O dinheiro que ganhava não era muito,mas dava pra meu pequeno sustento de rapaz.Minha mãe era professora primária e meu pai,pedreiro.Tinha mais 2 irmãos,um padre, e o outro,ainda estudava primário lá mesmo no Grupo Escolar.

Pra minha surpresa ,parecia que toda a cidade abava ... coisa horrível.Um dia de sábado à tarde,próximo às 16h, baixei-me no balcão pra contar umas caixas e vi as as as per- per - nas de Dona Joana!!!.

Como sabia? Ela entrou na farmácia falando alto com Seu Evaristo ,e fiquei ali ,extático,na esperança de ver algo mais que as pernas.Nisso,Sr. Evaristo pensando que eu estivesse na parte de trás da farmácia falou pra ela : “D.Joana,não se acanhe,levante a perna um pouco e o vestido que vou colocar algo nesse ferimento.Apenas,espere que baixe as portas da farmácia,Já ta na quase na hora de fechar,mesmo !”

Fiquei sem fôlego e com medo que Sr.Evaristo olhasse atrás do balcão e me visse .Mas ,pra minha sorte,ela levantou a roupa até a altura dos joelhos.Que joelhos,meu Deus!

Enquanto Seu Evaristo fazia o curativo ,eu tremia embaixo do balcão,olhos que nem fechavam pra não perder nem um lance daquela visão maravilhosa! Ufa! ! Ela se foi.Ele deixou a porta entreaberta e foi para a praça.Saí de trás do balcão todo trêmulo e cheio de alegrias ,pois tinha visto uma parte da intimidade da mulher mais linda e cobiçada pelos rapazes de minha cidade.

No outro dia, não segurei ,e queria contar a novidade com detalhes pros amigos : tinha visto as pernas,os joelhos e a calcinha de D.Joana! Digno de estampar a manchete do Diário de Porto Calvo .Sem dúvida!

Chamei os amigos na praça da matriz depois da janta e contei tudo com detalhes .Mas notei que no meio deles.Tinha um que não merecia minha confiança, e ,pior,poderia difamar Dona Joana,que não merecia.Afinal,tudo aconteceu por acaso.Depois que contei,olhei pros olhos faiscantes dos meninos e disse :”tudo que falei aqui é mentira minha,apenas queria saber até quanto vocês são bobos e gostariam de passar por uma situação dessas!”.Eles se entreolharam ,e quase fui linchado,mas D.Joana fora preservada na sua moral e dignidade.O segredo permanece comigo até hoje.Se vi ou não as pernas,os joelhos e a calcinha de Dona Joana,só eu sei.

Simone Lessa
Enviado por Simone Lessa em 12/12/2007
Reeditado em 01/04/2020
Código do texto: T775209
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2007. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.