FELIZ ANIVERSÁRIO

FELIZ ANIVERSÁRIO

Geraldo e Aurélio eram amigos inseparáveis desde a infância. A amizade começou desde a época do nascimento. Geraldo era dois meses mais velho que Aurélio. Tiveram a mesma ama de leite e chegaram a mamar juntos, um em cada peito. Moravam na mesma vila lá em Vila Isabel e estudaram no mesmo colégio desde pequenos.

Na adolescência depois das aulas sempre iam lá para a Quinta da Boa Vista a fim de se divertirem e namorar as meninas. Sempre chegavam a um acordo sobre quem ia ficar com quem, porque, nesse particular, tinham preferências diferentes. O Geraldo gostava de garotas mais atrevidas, enquanto o Aurélio preferia aquelas mais quietinhas, mais tímidas.

Serviram o quartel juntos, no mesmo batalhão e depois seguiram a mesma profissão de enfermeiro. Sempre residiram no mesmo local e nas mesmas casas. Os dois eram tão unidos que quando conheceram as respectivas namoradas, depois esposas, sempre saíram juntos e as mulheres acabaram se entrosando com muita naturalidade e se tornaram, também, amigas íntimas. Batizaram os respectivos filhos e viviam assim como uma família. Até no mesmo local eles trabalhavam, num hospital lá na Tijuca, onde o Aurélio entrou mediante indicação do Geraldo.

Por ironia do destino, não se sabe por que, o Geraldo casou-se com a Cláudia que era mais quietinha enquanto a mulher do Aurélio, a Gisele, era mais agitada e dominadora.

Certo dia, era aniversário do Aurélio, ambos estavam de folga no hospital e foram comemorar num bar lá na Vinte e Oito de Setembro. O Geraldo deu para o seu melhor amigo um celular desses de última geração, um aparelho indispensável hoje em dia, com várias funções: rádio, gravador, tocador de mp3, exibe vídeos, tem diversos jogos, agenda, lanterna, etc. e serve até para telefonar. Ele ganhou de um paciente que estava muito doente e estava certo que ia morrer - morreu mesmo - e não tinha ninguém para deixar o aparelho, seu único bem. Tanto insistiu, que o Geraldo não teve jeito de recusar. Mas aceitou já pensando em presentear o seu melhor amigo, quase irmão.

Naquele dia, felizes, tomaram muita cerveja, esqueceram até da hora e já estavam pra lá de Bagdá. Lá pelas tantas, começaram a falar de mulheres. O Geraldo disse que prefere as que tomam a iniciativa, que são bem ativas na cama. Gosta de ser usado pela mulher na hora de fazer sexo, mas a dele, a Cláudia, não é assim, o que faz com que a relação para ele não seja muito satisfatória. Perguntou ao amigo:

- Você lembra da Isaura, aquela lá do Méier, que morava lá perto do cinema Imperator?

- Você bebeu demais, nem existe mais cinema Imperator, agora é igreja...

- Você também já bebeu além da conta, porque eu falei antigamente, Aliás, eu tenho justificativa pra beber demais, porque meu pai era alcoólatra, o teu não era. Mas o meu falecido pai, que Deus o tenha na santa paz de Jesus Cristo, tinha razão pra beber. Ele dizia que era por causa da minha mãe. Já estava enjoado dela reclamando que ele bebia todo dia. Então ele bebia pra esquecer que quando chegasse em casa ela ia ficar enchendo o saco dele...

- Mas a tua mãe morreu antes dele e ele continuou a beber...

- É. Depois que ela morreu, ele passou a beber mais ainda. Ele dizia que sentia falta da minha mãe reclamando dele. Então, queria esquecer que quando chegasse em casa, ela não estaria lá. Mas vamos deixar esse assunto pra lá, se não eu vou ficar triste e vou acabar bebendo mais. A gente estava falando do cinema Imperator e eu sei que agora é Igreja. É lá que vai aquela nossa colega gostosa lá do Hospital, a Ivete. Ela tem mesmo que rezar muito pra não cair na tentação... Mas eu não tô falando de agora, mas do tempo que eu namorava a Isaura. Você sabe muito bem quem é a Isaura. Você, também, até andou se engraçando com aquela prima dela, acho que era Nely ou Cely o nome dela, sei lá. Mas, ela não quis nada contigo aí você me pediu pra eu deixar a Isaura e voltar a sair junto de novo pra procurar mulher, não lembra, ou tá se fazendo de besta?

- Ah, agora eu me lembro! Uma tremenda mulher. Nem sei como ela ficou contigo. Não era pro teu bico. Se você bobeasse levava chifre.

- Você tá é abestado e cheio de inveja do garanhão aqui. Aquilo é que era mulher, chegava junto, não ficava lá igual mosca morta... Pensando bem, acho que você tava era a fim dela, isso sim. Mas não era pra você não. O teu negócio é boneca inflável que fica lá paradona. Por isso, pediu pra eu tirar o meu time de campo também não é?

- Não é nada disso Geraldo. Eu não queria era ficar procurando mulher sozinho. A gente sempre andou junto... Além do mais, aquela prima dela, a Cely, era meio esquisita. Acho até que era sapato. Além disso, você sabe que a minha preferência de mulher é justamente o contrário da sua. Eu prefiro mulher que gosta de ser dominada. Mulher, como o próprio nome insinua tem que se comportar como a fêmea, que gosta de levar uns tapinhas e pedir pra eu fazer carinho depois.

- É mesmo é?! Pois eu prefiro até que ela me dê uns tapinhas, e seja bastante agressiva.

- Eu tô até te estranhando Geraldo! Gostar de apanhar de mulher! Acho que você tá com algum problema. É melhor você conversar com a Dra. Márcia pra fazer uma terapia. É por isso que a tua mulher sente falta de um homem que dê o devido trato. Você quer saber de uma coisa? Eu não ia falar nada não, mas já que você tá revelando esse seu lado meio bicha, ou te dizer logo. Eu agora até sei por que ela faz isso, mas o fato de você ser meu melhor amigo - deu um abraço afetuoso de bêbado no Geraldo -, de te considerar como meu irmão, eu não gosto de enganar e que enganem você. Então eu vou te contar uma coisa: a tua mulher tá te traindo.

- A Cláudia tá me traindo?

- É. A Cláudia tá te traindo. Quando a gente vai todo sábado fazer aqueles passeios com os velhinhos daquela ONG que ela era voluntária. Era, sim, porque a ONG não está mais atuando e ela não passeia mais com os velhinhos. Depois que eu comecei a ajudá-la a fazer caridade, a gente conversava muito, e, papo vai, papo vem, surgiram as carências dela e a gente acabou na cama. Agora eu faço caridade só pra ela. Pronto falei! E agora?

- Quer dizer que minha mulher está me traindo com o meu melhor amigo não é? Eu não esperava isso nem dela nem de você e...

- A gente não teve culpa. Não foi de propósito, simplesmente aconteceu uma vez e depois como a gente se entendeu na cama nós continuamos. Ela gosta do meu jeito abrutalhado e diz que sente falta disso, que você é muito paradão na cama e ela fica querendo mais e coisa e tal. Agora que você já sabe de tudo, o que é que vai fazer?

- Não sei, depende...

- Depende do quê?

- Depende de como você vai se comportar depois que eu te disser uma coisa.

- Diga logo, então. O que é?

- A tua mulher também está te traindo...

- O quê!!!?

- É. A Gisele e eu também estamos tendo um caso. Depois que você e a Cláudia começaram a ir passear com aqueles velhinhos lá da ONG, como ela ficava sozinha em casa e eu também, nós passamos a conversar muito a coisa acabou acontecendo. Ela também reclama muito do seu jeitão grosseiro de dominar a mulher e que não deixa ela fazer amor do jeito que gosta, como eu faço, deixo-a livre pra fazer do jeito que ela quiser, como ela gosta, comandando as ações. Por essa você não esperava, não é? Todo metido a machão, crente que estava levando vantagem, estava é sendo corneado.

- Olha quem fala... Como se não tivesse sido corneado também. Além do mais, deve ser até bicha. A Gisele é que deve ser o homem nessa história. Mas já que a gente está bebendo e nós dois fomos traídos pelas nossas mulheres, vamos tomar a saideira e vamos pra casa acertar essa história com a Gisele e a Cláudia. Pelo visto nós casamos com as mulheres trocadas.

Depois de tomarem mais meia dúzia de saideiras, deixaram o bar abraçados, um fazendo o outro de apoio, mais bêbados que o peru na véspera do Natal, não prestaram atenção no sinal e, ao atravessarem a Vinte e Oito de Setembro, foram colhidos por um ônibus da linha 433 e morreram abraçados.

Foram enterrados no cemitério do Caju. Uma cova ao lado da outra. Eram tão amigos que as respectivas esposas fizeram questão que fossem enterrados juntos. Foram, inclusive, velados pelos amigos e familiares na mesma capela, um caixão ao lado do outro. As viúvas ficaram se consolando mutuamente e saíram do cemitério abraçadas. Elas agora moram juntas, livres para viverem uma relação de amor verdadeira, sem ficarem se escondendo para ocultarem os seus sentimentos dos respectivos maridos.