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A salvação


- Vai uma caninha aí, Clô ? perguntou sarcástico o servente.
- Clodoaldo, voz baixa e humilde, com censura no olhar :
- Não. Você não sabe que eu não bebo ?
- Não é para beber. É para abrir o apetite.
- Eu não quero comer...
- Então ? É o motivo prá tomá umazinha.
- Cê sabe qui num tem motivo prá tomá nada. Cê sabe que eu num bebo....num bebo mais,  nem vô bebê.
- Nem água ? Assim tu morri di sêdi.
Os circundantes caíram na risada como acontecida todos os dias em que a cena se repetia com pequenas variações. Clodoaldo trabalhava há muito tempo na empreiteira e era muito conhecido. Na verdade menos pelo seu bom trabalho e muito mais pela transformação que houvera em sua vida.
Quando veio do interior tentar a vida na cidade era totalmente inibido mas em pouco tempo e com a ajuda dos demais empregados da empreiteira que com ele moravam no alojamento da obra se habituou com a  vida urbana. Nos primeiros tempos sentia muita saudade  do interior mas diante de tantas novidades em pouco tempo quase não mais se lembrava  de casa. Trabalhava demais entretanto, apesar do cansaço do fim de cada dia, tomava um banho e ía para um boteco das redondezas para duas ou três “branquinhas” e, conforto de cidade, uma “cerva” estalando de gelada tirando o gosto com fatias de pão e mortadela. Depois uma volta na pracinha que distava dois quarteirões da obra na qual se concentravam, após o horário da novela, muitas das domésticas da região o que sempre rendia algumas conversa e, às vezes, uma ou duas horas de sexo angustiado num dos hotéizinhos infectos, mas que quebravam o galho, numa avenida não muito distante. Ele, que tanto tempo ficara enfurnado numa cidadezinha de roça onde nada havia para fazer senão o trabalho quase escravo, procurada desfrutar da vida urbana e de todos seus atrativos, como alguém que, por muito tempo, estivera enfermo ou preso.
- Cê tá doido, Clô ? São trêis da matina, sô !
- Jeremia, a empreitêra num marca hora di nóis chegá.
- É... mais marca hora di nóis cumeçá a trabalhá i é daquipôquinho.
E era sempre assim. Clodoaldo era novo, tinha muita saúde, estava deslumbrado com a vida na cidade e, o mais importante, comparado com a miséria que ganhava na roça, estava nadando em dinheiro. Além disso, morando na obra, tendo café com pão pela  manhã e ao fim do expediente  e comendo a bóia que a empreiteira fornecia  que deixava a desejar mas que enchia o bucho era quase rico. E, como se sabe, dinheiro é para gastar.
Havia uma mulatinha que trabalhava num prédio bem em frente à pracinha e que provocava suores em Clodoaldo mas que, desgraçada, ficavam com mais duas domésticas conversando na portaria do prédio sem ir para a pracinha e ficarem a espera de uma cantada ou mesmo de conversa fiada.
- Cê sabi quem é aquela morena ui tá na porta du prédio ?
- Que issu ? Tá cumigu i di olçhu naquela zinha alí ?
- Num é nada dissu...
- É pior ! Fica cum uma i di olhu na ôtra.
- Não ! É que.... é que....
- Tá vendu ? Gaguejô é mintira .
- Ela pareci uma minina Qui morava pertu di eu e...
- Pertu di tu só tem eu.
- Num sacaneia.
- Cê qui tá mi sacaniandu. Mas si tá afim dela tá certu. É Ritinha. Trabalhana na cobertura daqueli prédiu. Mai dêxa di cê otáriu. Ela num pérdi tempu cum pé rapado qui nem tu. Ela só gosta di genti importanti. Namoradu dela é tudo cabu ô sargentu.
Clodoaldo, sem mulher e sem coragem para se dirigir à garota de seus sonhos, foi embora. Feliz por saber um pouco dela e ter certeza de que ela percebera o rompimento de seu namoro  ao mesmo tempo que se odiava por ter-lhe falado coragem de romper a distância que havia entre eles e dizer-lhe algo.
Dali em  diante Clodoaldo saía esbaforido da obra e corria para a pracinha para esperar, angustiado, o momento em que Ritinha desceria para o bate papo na portaria e continuava ali até muito tempo após ela subir apavorado com a possibilidade de aparecer algum namorado. Só bem tarde e ciente de que Ritinha não mais desceria nem se encontraria com ninguém é que Clodoaldo, aliviado, voltava para o alojamento.
Num Sábado esperou por ela até as onze e convencido de que ela não desceria ou, quem sabe , não estava no serviço resolveu aceitar o convite de José Luiz para ir a um clube de danças e participar do pagode de sábado.
- Quem é vivo sempre aparece.
- É que eu resolvi conhecer o lugar...
- Toma uma cum nóis ?
- Só si fô uma dispôis da ôtra.
- Cunhaqui ô cerveja, Clô ?
- Morena, lôra, tantu faiz. Eu quéru molhá u bicu.
Mal dito isso Clodoaldo ficou estático.
- Num é pussívil !
- Num é pussuvi u quê ?
- Nada. Eu num dissi nada.
- Dissi sim i eu ôvi.
- Tá certu, intão eu dissi.
- Dissi u quê intão ?
- Nada.
- Eita cara ispricadinhu, sô. Qui foi qui acuntecêu ?
- Num acuntecêu nada.
- I é pur issu Qui tu tá servindu cerveja fora du copu ?
- Nem vi...
- Mai iêu vi. Qui bichu ti mordeu homi ?
- Tá bão. Eu contu si tu num contá.
- ...
- Eu tô doido nela i ela aqui.
- Vai lá cara. Tá sozinha... aproveita.
- Sei não. Diz qui ela é muitu respeitadêra i qui só gosta di genti importanti.
- Larga di sê besta, sô !
- Besta porque ?
- Purquê si ela tá nu meiu di nóis é purquê é qui nem nóis.
- I si ela reclamá ?
- Cum quem ? Sò si fô cum u bispu qui, si sabi, num istá presenti.
- Cê num intendi Zé Luiz. Eu tô afim dela um tempão i num queru metê us pé pelas mão logu agora.
- Intão toma mais uma prá dá corage i vai lá seu cagão.
Clodoaldo, apaixonado e morrendo de medo de falar com sua paixão se debruçou no balcão e embocou mais uma doses sem saber o que poderia ser pior, o que mais lhe esmagaria : digirir-se à Ritinha e ser rejeitado ou, bater em retida e, quem sabe, perder de vez a oportunidade de começar algo.
- Oi ?
Não era possivel ! Ritinha se dirigira a ele.
- O gato comeu sua língua ?
- É....
- Comeu ? – Era a risada de um anjo.
- Seu amigo me falou que ocê quiria falar cumigo e que é coisa importate. Fala então.
- É que...
- É o que ?
- E´que...
- Então tá, tchau.
- Não !
- Tô ouvindo. Fala então sinão vô s’imbora.
- Eu quiria mesmu falá cuntigu. Tu num é a filha du...
- Fala u qui qué i num minrola.
- Discurpa – e tomado de uma coragem que não imaginava ter -  tem um tempão qui tô di olhu nocê. Todu dia vô na pracinha prá ti vê. Cê tem namoradu ?
- Não tinha.... – de novo aquele sorriso que só um anjo teria.
- É... hã... bem... descurpa... eu num pensei...
- Seu bobo ... meu namorado agora é você.
Clodoaldo não cabia em si. Dançaram, beberam, se descobriram. O sol já raiava quando, ainda sentados num  dos bancos da praça, falavam angustiados tudo o que havia sido calado nos últimos meses. Marcaram encontro para a tardinha. Domingo. Dia bom para ir a um cineminha, um lanche e depois... quem sabe ?
- Que issu Clô ? Qui cara é essa ?
- É nada não.
- I tu mi ingana ?
- Tá certu, foi a Ritinha...
- Foi u que ? Possu sabê ?
- Sei não... nóis foi nu cimena i num gostei nadica.
- Ritinha num tava com tu ?
- Qui tava tava mais ficô u tempu tudu suspirandu pelo artista. Num é Qui mi bejô olhando para o almofadinha ?
- Mai tu é uma besta, sô. U quequitem?
- Ela tava pensendu neli...
- Ô burru ! Eli nem sabi qui ela ixésti i si sobessi ia querê sabê dela ?
- Dispôis foi na lanchoneti. Ela quis cumê um sanduichi mitido a besta ieu sinrolei todu cum aquelis nomi di gringu.
- Cê recrama di barriga cheia.
- É ? Pois u pió veiu adispôis...
- Qui pió ?
- Prá impressioná ela eu num ía levá num daquelis hotelzinhu barato. Paguei um taxi i fui num motel...
- E cê tá reclamandu di que?
- I num é qui ela sabi mexê in tudu qui tinha lá dentru ? Deu certeza qui ela tá acustumada lá.
- Qui é issu ? As moça da cidadi tudu sabi mexê cum esses tróçu Qui, iscruzive, elas tem dentru dicasa ô nu serviçu. Ô se pensa Qui todas ela mora qui nem nóis in cantêro di obra ?
- Cê tá falandu sériu ?
- Craru !
- Possu confiá intão ?
Não demorou muito e Ritinha apresentou Clodoaldo para sua família. O  noivado foi coisa de pouco tempo e, como não poderia deixar de ser, logo logo bateram laje na casa dos pais de Ritinha e começaram a construção. Casa pronta, mesmo faltando o reboque no exteriior e pintura no interior, casaran-se. Móveis usados, alguns carnês mas casaram-se. E eram felizes.
Clodoaldo, já na quarta obra e  com o curso profissionalizante, era pedreiro e Ritinha conseguira emprego numa loja onde, além do salário recebia comissões. Com esse novo patamar de riqueza material e muita economia, aos poucos, foram trocando os móveis e aparelhos usados por novos. Nasceram três filhos. Com uma família tão grande Clodoaldo pegou parte de suas reservas e, querendo mais que podendo, comprou uma carrinho velho que servia muito bem para transportar a família nos passeios domingueiros e que confirmava seu novo status. O melhor é que a paixão de ambos aumentava a medida que o tempo passava.
D. Tereza, mãe de Ritinha, é que não estava nada satisfeita.
- Bastião, cê num acha Qui Ritinha i Clô divia í na igreja i si convertê di vêiz ?
- Ô mulhé, quieu achu ieu achu, mais achu também qui issu á da competença delis i além dissu elis ajuda muitu nóis i num achu certu mandá elis fazê u qui nóis qué.
- U quê qui tem ? Nóis é pai, sogru i avô i pur issu dévi querê u bem delis Qui, tu num pódi negá, vivi apartadu di Deus.
- Tá lôca ! Ritinha é uma ótima fia e Clô é mió Qui us nosso fio tudo juntu. Us dois si preocupa com nóis, faz compra prá nóis, são bão pai, honestu i trabalhadô. Achu qui tão longi du demu.
- Issu tudu num dianta si inahntis num aceitarem Jesus.
- Ih... lá véim ocê di novu...
- Jesus mandô nóis saí i pregá u evangelhu. É nossa missão salvá as alma delis i elis num vai sê salvu si num fô prá igreja.
- Elis vai na igreja delis.
- Elis vai é na casa du diachu.
- Aquilo é uma igreja mulhé.
- Lugar qui homi usa saia, adora imagi i us fiel num é probidu di fumá i bebê i qui se permíti fornicação ? Issu é igreja ? Na minha terra tem ôtru nomi...
D. Tereza, apesar de muito angustiada com o perigo real da perda das almas de sua filha, genro e netos, sempre deixava para mais tarde a conversa que pretendia ter come eles afinal, caso seu marido tivesse razão, a ajuda que recebiam poderia acabar se a conversa acabasse em conflito. Um dia, instigada por uma missionária :
- Eu quéru fazê um conviti prá ocêis .
- Tá aceito ! Mas para o que, D. Tereza ?
- Nóis vái hoji na igreja.
- Nóis quem, mãe ?
- Nóis ué ? Eu, tu e teu maridu.
- Nós fomos na igreja hoje....
- Cêis forum num templu da iniquidadi ( termo cujo significado desconhecia D. Tereza mas sabia que era utilizado para xingar os católicos e sua fé ).
- D. Tereza, nós somos cristãos e religiosos.
- Eu sei. Cêis fuma, bebi, ajunta dinhêru e...
- E o  que mãe ?
- Eu num quiria falá mais... ocês fornica u tempu todu. Inté nu domingu qui é dia du Sinhô.
- Que tem issu D. Tereza ? Nóis si casô nu papel i na igreja. Na igreja qui a sinhóra ía.
- Qui eu ía quandu num cunhecia a verdadi.
- Mãe !
- Num tem jeitu não. Cêis si comporta comu si tivéssi na amigação.
- Mãe !
- Fia, eu só queru u bem docês..
- Dizendo issu di nós ? Imagina si tivéssi metendu u fumu.
- Ritinha, sua mãe qué u bem.
- Tá certo mas...
- Mas u que fia ? Si num qué u bem, qué u mal. Cêis tá mais pertu do diacho qui imagina. Cêis num vai na cada di Deus comu divia, num lê sua palavra, um paga o dízimu  e hoje, dia do Sinhô - que ele tenha piedadi docêis – fornicaru a tardi toda. O Cêis pensa qui lá dibaixu num consigu ôvi ?
- Mâe a senhora fica escutando nóis ?
- Num iscuitava si ocês ficava rezandu e agradecendu a Deus u Qui eli deu procês invêis di ficá nessa senvergonhice .
Clodoaldo gosta muito da sogra, isso era verdade, porém desde que a velha se converteu numa das inúmeras noites de insônia passadas diante da TV assistindo programas religiosos o relacionamento de ambos sofrera um baque. D. Tereza tomou a si a tarefa de converter família e amigos, sem contar com a luta de converter seu marido, o velho e resistente Sebastião.  ( “ Prega a palavra, insiste a tempo e fora de tempo, repreende, suplica, admoesta...“ )
- Clô, sério mesmo, a mãe passou dos limites.
- Liga não. É u jeitu dela. Ela só qué nossu bem.
- Acho qui ela tá caducandu i cismô cum religião.
Clodoaldo, criado na roça sob forte influência católica, era muito resiste mas, após a morte de sua mãe adotara D. Tereza como mãe, e, por isso, não gosta da idéia de desagradá-la.
- Ritinha ?
- Hum...
- Cê durmiu ?
- Não. Só tô curtindo...
- Tô pensanu in agradá sua mãe.
- Agradá comu ?
- Indu na igreja dela, ora .
- Sei não.... I si ela insisti prá nós voltar ?
- Si arranja uma disculpa, si enrola, u tempu passa i ela isquéci.
- Se ela num si isquecê ?
- O jeitu é arriscá. “ ...a salvação que eu envio não tardará a vir, e a minha justiça se manifestará . “
O culto deixou Clodoaldo confuso. Achou que o pastor dirigia-se a ele e ficou tocado “ Convertei-vos ao Senhor, filhos e filhas de Israel, tanto quanto tenhais se afastado dele. “
- D. Tereza, a senhora contou minha vida pru pastor ?
- Fala baixu.... Cráru qui não.
- Intão purque eli sabi tantu di mim ?
- É Deus, meu filho.... é Deus que fala por ele.
- Hein ?
- Psiu !
Clodoaldo voltou para casa completamente transtornado. Não podia entender como o pastor que não o conhecia e que, jurava sua sogra,  nada contara, poderia saber tanto dele ? Como poderia falar coisas que se ajustavam tão perfeitamente à sua existência ? Como poderia saber de tudo que ele fazia com naturalidade e que, pelas citações bíblicas e explicações oferecidas pelo  pastor eram,  para seu espanto e horror, abominações perante Deus ?
- Clô, tu num sabia de teus pecadu purque sempri ôviu a palavra duas padri, tudu herégi e idólatra qui num gosta di qui u povu lê a bíblia prá num cunhecê a verdadi.
Domingo seguinte, apesar dos protestos de Ritinha, Clodoaldo foi o primeiro a falar no culto. Ritinha ficou em casa sem saber o que pensar. E assim foram domingos e domingos. Um dia, sem bem saber porque mas sentindo-se um servo ainda muito capenga, colocou muito dinheiro na sacolinha de ofertas. “Daí à Deus e ele multiplicará tua oferta “ dissera o pastor. E não é que, apesar de ser a quarta vez que fora  à igreja, arriscou uma fezinha e acertou no bicho ? Daí em diante  começou a fazer ofertas generosas e arriscar no bicho mas, para sua desilusão, nada. Chegou mesmo a falar sobre isso com o pastor quando este viera visitar sua sogra gravemente enferma.
- Essa não é a promessa de Deus meu filho.
- Na primêra vêiz qui fiz oferta ganhei nu bichu – “ Os caminhos do Senhor são misteriosos “.
- Deus lhe permitiu que você ganhasse no bicho na primeira vez permitir que você percebesse que ele está preparado para multiplicar o que lhe for ofertado mas, como pode ver, aquele foi apenas um sinal não um trato. Ele, em sua excelsa bondade, jamais permitirá que você seja recompensado com o produto do ilícito.
- Eu num sabia qui fazê uma fezinha era pecadu.
- Meu filho, como está na primeira epístola de Timóteo Deus quer que “ todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade...”
- Por que não aceita Jesus ?
- Mai eu aceito .
- Indo na igreja como um católico ? Roubando Deus ?
- Robando quem ?
- “ Vós me roubais nos dízimos e nas ofertas alçadas, disse o Senhor dos exércitos “.
- Mai iêu nunca ...
- Clodoaldo, não seja como os ímpios e escarnecedores. Aceita logo  Jesus como seu salvador. “ Sê como ele, contribui com o dízimo e sede generoso nas ofertas. Só assim conhecerás a Deus e alcançará salvação “ .
- Tem certeza, pastor ?
- Você é a própria certeza.
- Cuma ?
- O sinal que Deus te enviou homem.  Ele te permitiu ganhar no bicho, coisa do demônio, e depois impediu que você voltasse a ganhar exatamente para que você conhecesse a plenitude de sua verdade : nas coisas do mundo só se consegue uma ou outra vitória e muitas derrotas enquanto que com Deus você será sempre vencedor. Esteja ganhando ou perdendo.
- Num intendi direitu.
- Só há um meio de compreensão a aceitação da palavra. Do conhecimento e aceitação da verdade advirá a prática  piedosa e dela a salvação e, durante esse caminho para a glória do Senhor, o pleno conhecimento e vivência do bem com a conseqüente exclusão do mal.
- Essa palavrá é muitu bunita.
- Conheça a verdade e, aí sim, conhecerás a verdadeira beleza.
Com pouco tem  e muita pressão Clodoaldo fez sua profissão de fé foi batizado. Era um fiel esforçado pois devia recuperar o tempo perdido. Apesar de seus esforços tinha muitas dificuldades com o Livro Sagrado e o livrinho dos hinos. Eram letras demais e palavras estranhas para quem sequer terminara a Segunda série do estudo primário assim, estimulado pela vontade de melhor servir ao Senhor, matriculou-se num curso supletivo para, conquistado o diploma, estar capacitado para melhor entender e pregar a Palavra. Ritinha, que no início era avessa às idéias de seu marido, acabou ficando orgulhosa dos progressos de seu Clô. Não passara tempo nenhum e ele de simples fiel era obreiro reconhecido pelas dedicação. Muitos estudos e era diácono e, ao que tudo indicava, com mais estudos e esforços não tardaria o tempo de se tornar pastor. Os colegas de trabalho de Clodoaldo estavam assombrados. Nada de cachacinha para abrir o apetite ou cerveja para encerrar o expediente. Nem mais um cigarro. Nada de piadas obscenas ou mesmo comentários sobre a vida alheia. Nem mais uma olhadinha no jornal popular que sempre rodava a obra exibindo fotos de mundanas  que, desconhecendo a Palavra, procuravam garantir o pão deixando-se fotografar nuas e em poses provocantes. Recusava-se a vê-las mas orava com fervor para elas para que Deus lhes desse a salvação desde que, é claro, aceitassem Jesus e repudiassem seu passado iníquo. Rezava também pelos fotógrafos que faziam aqueles ensaios (nome moderno para safadeza) com aquelas pobre mundanas e deles tinha penas pois era com essa abominação que garantiam o sustento de seus filhos. E orava pelo dono do jornal que ao invés de veicularem a palavra do Senhor  rendiam-se às manobras do maligno e aumentavam suas fortunas com a vergonha de quem deveria ser filho do Senhor. Orava pelos donos das bancas que vendiam essas nojeiras. Orava pelos donos de cinema e Tvs que exibiam filmes indecentes. Orava pelos donos de bares que vendiam bebidas e cigarros e por todos aqueles que, direta ou indiretamente, viviam do vício e destruição alheios. Orava pelos donos de fábricas comerciantes de roupas femininas que ganhavam dinheiro desnudando as incautas. Orava  por todos apesar de, ao que parecia,  terem em suas mãos a salvação e apesar disto preferirem a danação eterna. A vida de Clodoaldo transformou-se em verdadeira tortura porque na exata medida em que via as pessoas ignorarem o chamado do Senhor ele, como servo e arauto da Palavra, sentia-se fracassar na missão de salvar os semelhantes.
Certo dia Clodoaldo viu seus colegas de trabalho se aglomerarem  num canto do andar que trabalhavam  e pressentindo que o mal rondada foi até lá ver o que acontecia. A mulher do oitavo andar do prédio em frente, aproveitando-se da ausência do marido, mantinha relações com outro e de janelas abertas. Não era possível. Nem trinta metros separavam sua janela da obra ! Nem as cortinas aquela meretriz tivera a decência de fechar ! Aos gritos clamava que seus colegas se afastassem e não se conspurcassem com aquela cena lamentável e, pedindo forças ao Senhor, chegou ao parapeito e gritou :
- Está em Romanos 6, 19 : “ Assim como ofereceis vossos membros para servirem à imundície e à iniquidade, assim oferecei os vossos membros para servirem a Justiça a fim de chegar a santificação “ !
- À puta que o pariu ! – gritou a distinta senhora enquanto batia as janelas.
- Empata foda ! – gritaram alguns colegas em meio a gargalhadas iniciando um ciclo de gozações que, daquele dia em diante,  sempre se repetiria.
- Pastor, não entendi. Vi aquelis dois na pior senvergonhici, já ardendu nu fogu du infernu. Tomadu do Ispírito ofereci salvação i a dona mi xingô !
- Ela te xingou e teus colegas riram porque vivem segundo os preceitos do maligno. Por não conhecerem o Senhor.
- Intão suas alma istão perdidas ?
- Preferiria dizer que ainda não foram salvas. É nosso dever salvá-las mesmo que tenhamos de suportar o escárnio dos ímpios.
A angústia de Clodoaldo crescia com o passar do tempo.  Há muito tempo se convertera. Trazia no coração e nos lábios a Palavra  mas apesar de seus esforços o mundo continuava um local de ignomínia e inqiquidade. – Deus, ajuda esse teu pobre servo. Fazei de mim um espelho de virtude. – repetia a todo momento.
- Tu vai nu meu aniversáriu ? Vai tá assim di mulhé !
- Num posso. Dumingu é dia di cultu. Vou pro templu cedu. Tenhu minha obrigação.
Na segunda um dia horrorizado ouvindo as histórias da festa. Da bebedeira e comilança. Da senvergonhice desenfreada. “ Ora as obras da carne são manifestas : são o adultério, a fornicação,  a impureza, a luxúria,...” como está na epístola aos Gálatas.
O maior problema de Clodoaldo era, para maior angústia,  bem outro. Melhor seria que seus problemas se resumissem nas pilhérias dos escarnecedores ou provocações do ímpios. Nunca teve problemas maior para se relacionar com aqueles que deveriam ser colegas e amigos mas que revelaram-se embaixadores do maligno. Não se agüentando mais levou o problema a um missionário muito conhecido que visitava sua igreja :
- ....
- O irmão não acha que está sendo um tanto intransigente ?
- Que Deus me perdoe se estou mas, segundo a palavra, não.
- Irmão Clodoaldo,. todos sabemos que o senhor é um exemplo...
- Aí é que está o problema.
- Eu não vejo bem assim. O senhor, como está na primeira epístola de Timóteo, reúne as virtudes de um bispo : é casado com uma só mulher, sóbrio, modesto, hospitaleiro, sabe ensinar, não é dado ao vinho, não é violento, não é litigioso, é moderado, governa bem sua casa, mantém seus filhos sob submissão, é pudico, é irrepreensível.
- Mais não há paz cum minha mulher.
- Irmão, os desejos dela são naturais...
- Não ! Também istá em 1 Timóteo; “ ...sê porém modelo para os fiéis na palavra, na fé e na castidade . “
- Ela apenas quer se satisfazer o que, com o marido, não é pecado.
- “...andai segundo e Espírito e não   satisfazeis os desejos da carne “. Istá escritu.
- O irmão não vê modo de ajustar ...
- “...essas coisas são contrárias entre si, para que não façais o que querer “. Essa é a palavra.
- Irmão, para que o senhor seja um exemplar servo de Deus não é preciso...
- Istá em Efésios 5, 5 : “ Com efeito, sabei-o bem, nenhum fornicador impudico terá por herança o reino de Cristo e de Deus " .  Está em Mateus que o próprio Cristo afirmou : “ ...há eunucos que a si mesmo fizeram, eunucos por amor ao reino dos céus. Quem pode compreender compreenda. “ Eu compreendi.
- Então a preocupação do irmão não é...
- Claru qui não ! Eu num quéru parecê melhor prá ninguém neim ser exemplo para us irmão ou atrativu para us infiel. Busco a castidadi prá  melhor servi a Deus i mais tardi tê meu lugar nu Reinu.
- Irmão, sendo assim, acho melhor conversar com sua esposa. Se o ama entenderá.
Clodoaldo há muito estava dividido entre dois amores sua mulher e seu Deus. Amava  ambos com fervor. Cada qual, a seu modo, era razão de sua vida e para cada um dava o melhor de si. A verdade é que sentia-se, a medida em que se dava mais à mulher, traindo seu Deus.
- Que foi Clô ?
- Deus Misericordioso, tem piedadi di mim !
- Tá passando mal ?
- Tem piedadi di mim Senhor !
- Num mi asussta home.
- Eu num sabia...
- Sabia u que ?
- Mi lava cum o sangui di teu filho Senhor !
- Que tá acontecendo ?
- Deus me perdoe. Deus tem piedadi di mim.
- Qué que chame alguém ?
- Disafasta Satanás !
- Clô ? – disse Ritinha encontrando-o de joelhos na sala com a bíblia na mão – Tá doente ?
- Nós tamos condenados !
- Tá louco?
- Ajoelha e ora !
- Hein ?
- Ajoelha e pedi perdão.
- Pára com isso. Vô chamar alguém.
- Leia . Está na primeira epístola aos Coríntios : “ ... o corpo não é para fornicação e sim para o Senhor .”
- Que susto ! Tô pensando qui é coisa séria...
- Ocê num entendi ?
- Entendu qui tu tá variandu.
- Está na primeira epístola de Pedro : “ ...levai vida casta e com temor “.
- Se acalma e vem deitar. Tá tudo bem.
- Não. Vô ficá aqui i orá. ( “Não sejas cioso de tua mulher para que ela não empregue contra ti a malícia que te ensinaste” ).
- Já é tarde e tu tem trabalho cedinho.
- Tô bem assim !
- Fala baixo prá não acordá us meninus.
- Ingraçadu. Tu num qué acordá us mininu i num si arrelia de afrontá o Pai Celestial. Adianta zelá pela carne di nossa carni si num zelamus pelu Ispírito di nossu ispíritu ?
- Tô no quarto. Te espero...
Não. Para cama é que Clodoaldo não iria afinal não está escrito que “ Seja honrado o matrimônio e o  leito conjungal sem mácula, porque Deus julgará os fornicadores “ ? Como conseguira estar cego por tanto tempo ? Ainda bem que Deus lhe abrira os olhos a tempo de ver o erro que incidia e, quem sabe, ainda conseguir perdão. Quanta vergonha. O sexo, consoante o Palavra, era para procriação não para satisfação do corpo. ” Tu és pó e ao pó voltarás “. Para que ver sua esposa como mulher se queria estar com ela, como espírito, por toda eternidade na glória de Deus.
- Clô vamo deitá ?
- Não. Fico por aqui mesmu.
- Home, me explica direito. Tem uma semana Qui tu num dormi em nossa cama i num mi procura mais.
- Está escrito : “ Os que são de Cristo crucificam a sua própria carne com os vícios e a concupiscência “.
- Eu sô sua mulher !
- Ocê é minha esposa ( “ Não se deixe arrastar o seu espírito pelos caminhos desta mulher, nem sigas seduzido por suas veredas “ )
Agora que conseguia compreender o que o Altíssimo queria do servo verdadeiro e dedicado não colocaria em risco sua salvação mesmo que para isso tivesse que magoar seu amor.
Um dia, entrando num mercado, reconheceu a despudorada que flagrou fazendo amor com as janelas abertas. Quis ir até ela conscitá-la à salvação mas desistiu. Ela estava acompanhada do amante. Escolhera seu caminho ( “ Toda mulher que é prostituta será pisada como esterco no caminho ” ) e, então, que sofresse as conseqüências. Angustiado saiu sem nada comprar evitando tornar a vê-la ( “ Não olhes para a mulher volúvel, para que não suceda caíres em seus laços “ ). Clodoaldo, o mais requisitado dos diáconos para aconselhamento em casos de problemas não mais  queria prestar esse serviço. Recusava-se a falar com as jovens ( “ Não detenha olhos sobre uma donzela para que a sua beleza não te seja ocasião de queda “ ), com mulheres casadas nunca ( “ Não te assentes com mulher alheia ...” ) e, para falar a verdade, nem mesmo com os homens desejava mais discutir a fé pois, sabia bem, a maioria  tão logo saiam da igreja corriam para casa para fornicar com suas esposas ou, abominação das abominações, com outras que mesmo não sendo casadas com eles consentiam no concluio carnal. Até na rua, sempre que se aproximava uma mulher, baixava os olhos (“ Afasta teus olhos da mulher enfeitada, e não olhe a formosura alheia”).
Em casa as coisas iam de mal a pior.
- Clô, eu sei qui tu teve uma revelação mais eu sô sua esposa e tu tem obrigação comigo.
- Está no Livro : “ ...é vã a vossa fé, porque ainda permaceis em seus pecados”.
- Sexo entre marido e mulher...
- “ Não sabeis que vossos membros são templos do Espírito Santo que habita entre nós “ ?
- Mas Deus criou homem e mulher...
- Para crescê e si multiplicá. Nóis tem três filhu i tu ligô.
- Então tu num mi qué mais ?
- Quero! Mas queru ocê cumigu in toda eternidadi .
- Eu digo como sua mulher !
- Eu num pricisu dissu.
- Eu preciso de sexo !
- Não ! Ocê pricisa di salvação. Pricisa cunhecê Jesus, coisa Qui, adispôis di tantu tempu, vi Qui tu num cunheci.
- Cê tá ficandu doido !
- Eu tenhu um caminhu qui cumeçô quandu fui na igreja i só vai pará quandu istivé junto di Deus na eternidadi. Issu num é locura. É salvação.
- Eu só quero seu bem.
- Cê qué minha perdição.
- Não que só quero...
- Num diz ! Num diz ! Essa palavra nunca mais vai ser ouvida na minha casa.
- A casa também é minha !
As discussões se repetiam e Ritinha costuma ir para a cama irritada mas Clodoaldo não tinha raiva dela ( “ ...cesse a sua indignação, e se esqueça da que lhe fizeste...” ). Com os filhos as coisas também iam mal. Não permitiam que os filhos assistissem televisão salvo em programas evangélicos ( “ Portanto, se ressuscitais com Cristo, buscai as coisas lá de cima...afeiçoai-vos às coisas la de cima, não as que estão sobre  a terra...” )
- Pai eu só tô vendo futebol !
- Em televisão Qui passa safadeza é Qui não .
- Pai eu só tô escutando música....
- Im programa di mulhé Qui tem filhu sem sê casada ? Não !
- Clô num fica dando duro nos garotos .
- Meus filhu num vão si perdê ( “ A sabedoria da carne é inimiga de Deus, pois não está sujeita à lei de Deus...” ).
- Clô, os meninos não podem sê o que tu qué. Elis são u que são. São o que querem não o que tu manda.
- São o que Deus quer ! ( “ Em verdade Deus não nos chamou para a imundície e sim para a santidade “ ).
- Eu entendo...
- Num entendi nada!
- O que não entendo ?
- “ Na ressurreição, pois, nem os homens terão mulheres nem as mulheres terão maridos, mas serão anjos de Deus no Céu “.
- Eu tô falando dos meninus.
- Tu usa elis prá mi questioná.
- Como questioná ? Eu nunca mais falei .
- Mas pensa ! Num fala mais pensa !
- Eu o que ?
- Eu sei qui tu tá sempri pensandu naquela imundiça.
- Cê tá louco mesmo. Aliás, eu é qui tô lôca. São cinco anos sem sexo e sem reclamar.
- Se é assim qui tu pensa...
- Eu num penso. Prá falá a verdade, nem mais me lembro direito como era.
- Quem diria ... Ritinha, minha esposa, uma escarnecedora. Quew Deus tenha piedadi di ti.
Na manhã seguinte Cloodoaldo saía um pouco atrasado e viu Ritinha no portão conversando com uma vizinha de anos e um irmão dessa que, abominação, largara da mulher ( “ O que Deus uniu o homem  não separe “ ) e que morava com ela. Notou que riam e pareciam felizes com sua conversa mundana. Pensou melhor e resolveu não trabalhar aquele dia. Seria melhor ficar em casa e orar por aquelas almas tão distantes de Deus. Depois iria para a igreja . Precisava muito de estar na casa do Senhor.

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- Irmão Clodoaldo, não estou entendendo. Estão aí uns rapazes que dizem que são da polícia e querem falar com o senhor.
- Mande elis entrá.
- Acho melhor não. Eu bem... eu disse que ía ver se o senhor estava. Não disse que o irmão estava...
- Tudu bem. Pódi deixá entrá.
- Mas eles dizem...
- O senhor é Clodoaldo Xavier da Silva ?
- Eu mesmu.
- Irmão, me diga que eles estão enganados.
- Elis istão inganadus irmão José.
- Graças ! Então o irmão não matou D. Rita ?
- “ Qualquer pecado que o homem comete é fora do corpo, mas o que comete fornicação peca contra o próprio corpo “. O corpo é habitáculo  sagrado dp Ispírito Santo, deve ser sagrado, segundo a vontade de Deus.
- O irmão quer dizer que D. Rita ?....
- Não ! É claru ! Antis qui o mal acontecessi a libertei du riscu di pecá.
- Porra meu, e o vizinho ? – perguntou outro policial.
- Zelei pur eli também porque eli seria, mais cedu ô mais tardi, causa ô conseqüência.
 
 

   

 
Dario Castellões
Enviado por Dario Castellões em 02/01/2006
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Dario Castellões
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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