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Oração à Santa das Rosas


Eis-me aqui, Santa Terezinha das Rosas, doente e alquebrado. Faz muito tempo que não vejo aquela pessoa que um dia me fez feliz. Tentei conseguir notícias dela através de amigos e telefonemas. Busquei na internet. Eu nada encontrei.

Estou triste, minha Santa Terezinha. Depois que aquela pessoa foi embora, tudo deu para trás na minha vida. De agonia em agonia, eu adoeci. Uma gripe forte me pegou, amolecendo-me o corpo, até pensei que fosse dengue. Depois, sem explicação, apanhei uma gastrite que evoluiu para úlcera.

Há dias eu vinha notando que a tal pessoa estava esquisita, dissimulada, inventando coisas, arrumando motivos para dormir fora de casa nos finais de semana. Ora dormia na casa dos pais, ora na casa de alguma amiga. Já não punha meu café na mesa de manhã, fingindo-se de cansada, adormecida. Descurava do almoço, às vezes exagerava no sal, às vezes deixava tudo insosso. Assim, ela me desmoralizava sem me dizer nada. Santa Terezinha das Rosas, aquela criatura não tinha esse direito, não podia ter feito isso comigo. Logo eu, que sou homem direito, cumpridor dos deveres, respeitado aqui na comunidade. Eu sou homem de religião. Nunca deixei faltar nada na minha casa. Não, minha santa, ela não tinha esse direito. Eu não merecia isso.

Naquela sexta-feira, quando cheguei para almoçar, não a encontrei em casa. Saiu sem nenhum aviso explícito, sem nada, nem bilhete, nem carta. Se ao menos tivéssemos um filho. Mas, não. Nem isso ficou comigo. Daquela sexta-feira em diante, minha vida tem sido apenas sofrer.

Santa Terezinha das Rosas, agora, passados alguns meses desde que ela foi embora, o médico do PSF perto da minha casa me disse para eu não me preocupar, disse para eu levar as coisas na esportiva. Aconselhou-me muito e deu-me um remédio amostra grátis chamado Valium 2, que é para eu relaxar e não pensar em besteiras. O médico me disse que evitasse emoções fortes, que aquela úlcera era de origem nervosa.

Evitar emoções fortes, mas, como, minha Santa Terezinha das Rosas? Se aquela criatura foi embora, se todos os passarinhos do meu viveiro morreram? Quem primeiro morreu foi o canário belga, que começava a cantar de manhã bem cedo, a cada amanhecer. Depois, foram morrendo os outros passarinhos, por mais que eu cuidasse deles. O pé de rosas era a planta de estimação daquela que era meu amor. Como evitar emoções fortes, minha santa, se a roseira morreu, se o pé de rosedá murchou? A grama do jardim está sem viço, parece cabelo de mulher velha ressecada, cinzenta. À noite eu tomo um valium e rezo. Valei-me Nossa Senhora.

Minha casa é a imagem do desleixo, com tudo rebentado: uma vidraça quebrada e a caixa de descarga entupida. A torneira da pia de prato não pára de vazar, aumentando mais minha solidão. Cada gota desperdiçada de água me onera, pesa-me nos ombros.

O doutor falou para eu não me emocionar sem controle. Mas, como não me emocionar, Santa Terezinha das Rosas, se ontem estive reparando nos retratos que estão na parede da sala? Lá está o retrato dela, tamanho pôster. Lá está nosso retrato colorido, eu e ela abraçados na praça. Quando aquela criatura vivia comigo, a parede do corredor era enfeitada com fotos de todos os tamanhos, numa promiscuidade alegre: fotos de meninos misturadas com fotos de cachorro, paisagens da praia misturadas com fotografias do lixão perto da nossa casa. Mas, tudo era muito alegre nessa desorganização. Hoje, está tudo desbotado, prejudicado pelas invasões indóceis do sol e da umidade.

Santa Terezinha das Rosas, já faz tempo que ela saiu sem dizer nada, sem levar nada de substancioso na bagagem, levou apenas saia, blusa, sutiã e calcinha. Dei por falta também de alguns de seus objetos pessoais: documentos, desodorante, sabonete, pasta e escova de dentes. Mesmo assim, tentei me acalmar.

Procurei me tratar tomando Valium 2 e rezando valha-me Deus. Santa Terezinha, sem aquela criatura, sem jardim, sem viveiro, minha casa toda desmantelada, eu não sei o que fazer. Tentarei arrumar outra pessoa. Minha santa, com a sua ajuda talvez,  quem sabe, eu encontre alguém que ajeite a casa, o jardim, o viveiro, as torneiras, a caixa de descarga. Quem sabe. Agora mais calmo, pode ser que eu encontre uma pessoa que me entenda, que me conserte, que enfeite meu jardim. Assim, quem sabe eu me cure da úlcera, quem sabe dispense o Valium 2. Com humildade, eu peço minha saúde e minhas coisas de volta. Peço que voltem às cores originais os retratos que estão nas paredes da sala e do corredor. Eis-me aqui diante de sua imagem, minha Santa Terezinha das Rosas. Peço humildemente que me mande nova criatura, seja Maria, Amélia ou Rosângela. Importa apenas que me alegre e que possa preencher meus dias monótonos de funcionário público aposentado.


dôra
Enviado por dôra em 04/01/2006
Código do texto: T94409
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Sobre a autora
dôra
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 71 anos
8 textos (915 leituras)
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