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Dom Caramujo



Eu nasci em 22 de fevereiro de 1969. Era uma Quarta-feira. Nunca me importei em saber a hora exata. Talvez quando eu lembrei de perguntar, meus pais tenham esquecido. Mas isso é salutar em nossa pequena história.

Minhas lembranças que aqui anoto não seguem uma seqüência lógica. Me desculpe o leitor, talvez fosse melhor anotar tudo e depois sim colocar as coisas em ordem para então pensar em escrever .A verdade então recai em meus ombros; é que eu não gosto de seguir regras. E talvez por que não tenha tempo suficiente. O leitor pode então pensar, ora mas então de que me vale ler. Caro amigo, minha vida talvez seja igual a de muitas pessoas, mas de certo que também difere de muitas outras. Meus sonhos e ilusões são só meus, apesar de que outros podem pensar igual, sonhar igual, no entanto com características próprias.

Hoje eu me lembro da senhora que me ensinou a ler e escrever. Era uma senhora de cor, uma negra. Eu, filho de Italianos e alemães, tinha como minha ama de leite, uma negra. Meus avós nunca viam com bons olhos minha aproximação para com esta senhora tão gentil. Eu devia ter então, perto de cinco anos. Ela já passava dos sessenta. Era gorda, usava um óculos velho e encardido, e um vestido todo surrado. Vivia nos fundos da enorme casa onde nós morávamos. A casa tinha um quintal, com um grande pomar, onde as mangueiras e vergamoteiras eram as minhas favoritas. Ainda tinha um grande abacateiro onde certa vez levei um tombo que quase me leva de vez. Quase oito metros de altura.

Mas voltando a velha senhora, que o nome agora não me vem, ela me ensinou os primeiros rabiscos, os primeiros riscos na folha de papel onde comprávamos o pão.
Quando eu sumia de casa, minha mãe sabia onde me encontrar. Sem titubear ela seguia direto para a velha casa, nos fundos do nosso quintal. Minha mãe a deixava morar lá, em troca de que  a negra ajudasse a cuidar de mim. Não me lembro dela ter reclamado alguma vez da vida que levava. Também não me lembro de alguém ir visitá-la. Nunca falava de parentes, filhos ou alguma outra pessoa. Sua vida era tão vazia como a que hoje levo.

Para mim foi sem dúvida uma Segunda mãe.  Muitas vezes, quando eu levava tombos das árvores era essa negra velha que me ajudava. Passava o mercúrio, ou fazia um emplasto de ervas.  Chegava mesmo a me proteger quando fazia alguma travessura. Me escondia em um porão que ela tinha na casa velha e fingia não saber onde eu estava quando minha mãe ou meu pai estavam com vontade de me dar umas palmadas, ou mesmo cintadas. Sim, pois naquele tempo os pais ainda  podiam educar os filhos, sem correr o risco de ir para a cadeia. Pois a meu ver, visão totalmente destoante dos modernos estudiosos, umas cintadas de vez em quando são o corretivo para que as crianças consigam diferenciar o certo do errado e também assimilem um pouco de disciplina. Pois hoje vejo a sociedade sem limites, onde a juventude se mostra mais doente do que outrora. Doenças como drogas, desvios de caráter, e aparecimento sem fim de jovens com problemas mentais. Será que isso não é um problema que podia ser corrigido ainda na infância? Essa é uma pergunta que cada leitor terá uma resposta diferente de outro.

Não me lembro se a negra morreu quando estávamos morando lá ou se foi depois que partimos. Mas sem dúvida, foi um fato marcante, pois não faz muito tempo atrás me acusaram de racista, coisa que tive que colocar em juízo. Eu brinco, tiro sarro, faço piadinhas, mas então, se é racismo chamar negro de preto, ou negro de negão, como deveríamos chamar os alemães? Será que eu deveria chamar negão de alemão? Não me tome o leitor por algum cara  preconceituoso, pois tenho muitos amigos de cor, de várias cores se preferirem. No entanto não admito essa coisa horrível e idiota que se transformou essa coisa de racismo. Muitas vezes são os próprios negros os racistas. Eles mesmo se discriminam entre si.  Basta olhar ao seu redor. Negro famoso não tem mulher negra. Negra famosa... dificilmente mantém laços com outros negros. Claro que para tudo existe exceção. Ainda bem.



Pois é e veio então um tempo onde fomos morar em uma fazenda onde meu tio era o capataz. Ainda pequeno, eu já andava em cima de uma colhetadeira. Me lembro daquelas plantações que iam até onde minha vista alcançava. Soja, milho e trigo. Só quem já viu, sabe que sensação gostosa é olhar ao longe e ver  aquele verde, maravilhosa visão, como se nunca tivesse fim.

Certo dia, eu estava em cima de uma colhetadeira de soja, quando meu tio gritou algo de uma outra máquina. Eu estava junto a meu pai. Na hora eu não entendi direito o que era. Mais tarde eu saberia. Vi meu pai descer correndo e junto com meu tio e outro rapaz iniciarem uma outra corrida em meio a plantação. Meu pai voltou sem óculos, meu tio todo arranhado e o rapaz trazia um bicho que parecia uma cachorro,  arrastado, morto. Depois fiquei sabendo que era um lobo. Quer dizer, a versão brasileira dos lobos americanos. Chamava-se cachorro do mato.

Tenho saudades daquele tempo.
Ah, como somos ingratos com o tempo de nossa vida. Se somos pequenos queremos crescer, quando crescidos queremos voltar a ser criança. Mas se não podemos voltar a ser pequeno pelo menos temos a lembrança do que passou. Isso ainda não precisamos pagar. Ainda! Talvez no futuro não seja assim.

Pulando ao léu do tempo, fazendo os ponteiros do relógio avançarem eu chego á minha época de escola.
Primeira série ou Segunda,  não sei ao certo, me falha a memória. Mas lá estava eu, em meio aos outros alunos, me destacando em leitura e também por causa da minha teimosia em que a escola devia deixar a gente ficar na biblioteca o dia todo. Várias vezes eu ficava lá, escondido, sentado no chão, lendo os contos de Grinn, ou então as Reinações de Narizinho.  Sete anos eu devia Ter. Foi nessa época que pela primeira vez
Senti a alegria do amor. Mas era aquele amor inocente, doce, ingênuo. Onde o simples olhar de alguma menina era capaz de fazer nós ,meninos, dizermos que era nossa namorada. Nessa época conheci Lucimara. Nunca a esqueci, talvez porque o primeiro beijo a gente nunca esquece. Ele tinha um tique. Seus olhos não paravam de piscar. Talvez até parassem, mas a impressão que ficou é que nunca paravam. Mas isso não tirava seu encanto. Fecho os olhos agora e ainda a vejo. Nós dois sentados em um banco de madeira, de mãos dadas, conversando ingenuamente sobre o futuro.  Em um dado momento eu fui mais afoito e beijei seus lábios. A supervisora da escola nos viu, afinal estávamos no pátio e nos colocou de castigo. Estudamos dois anos juntos. Foram momentos de tamanha meiguice e simplicidade que só as crianças, na santa ingenuidade dos sexos se podem permitir. Então um dia ela partiu. Sua família mudou de cidade.

Para não deixar os outros meninos falando bobagem, eu disse que tinha acabado o namoro. Desde pequeno eu sempre fui bom em inventar histórias. Histórias, mentiras não. Minha face ficava rubra e logo descobriam. E também não foi diferente desta vez. Eu não conseguia disfarçar a saudade.

Mas era época de novas descobertas, de atos sem pensamentos elaborados.  E assim quando dei por mim, já não sentia tanto a falta dela. Isso não quer dizer que a esqueci, visto que até hoje a trago na lembrança.
 Logo nós também mudamos de cidade. Meu pai era vendedor e então ficávamos morando de um canto a outro.  E isso também fazia com que tivéssemos uma vida dura, de sofrimento e abnegação por parte de minha mãe para com a vida. Ela seguia nosso pai, aonde quer que ele se enfiasse. E com ele íamos nós ,os frutos dessa união. Éramos sete irmãos. Um morrera ao nascer. Nascera antes de mim. Por isso fiquei sempre com a idéia que não fui bem aceito ao nascer.  Explicar esse sentimento nunca pude, eu apenas sentia que havia algum rancor de minha mãe para comigo. Talvez por que me visse como alguém que tomava o lugar do filho que falecera. Eu fui o Terceiro, quando devia ser o quarto.  Meus pais se foram e eu nunca me importei em descobrir se tinha razão.

Certa feita, com onze anos se bem me lembro, apareceu a chance de ir para uma cidade grande. Um compadre de meu pai, queria levar a mim e ao meu irmão, o segundo, para morar com ele. Nos colocaria em uma escola de futebol. Era tudo o que sonhávamos. Ficamos radiantes de alegria com a noticia.




Mas essa alegria durou pouco. Meu pai, homem de negócios pequenos e sem sucesso,  mas com coração cheio de emoções, disse que não conseguiria  viver longe de nós. Que éramos muito pequenos e coisas mais. Coisas estas que fizeram com que o dito compadre esquecesse de nós. Foi uma das primeiras derrotas em minha vida.
             Mas o gosto pelo futebol sempre esteve presente. Era o sonho de todos os meninos da época. Afinal não tínhamos nenhum projeto para o futuro. Qual o projeto de um menino de doze anos no Interior? E depois era a brincadeira mais em voga. Na escola a educação física era futebol ou basquete. Fazíamos os exercícios em uma quadra velha de cimento, com a trave de ferro, enferrujada, e com a tabela do cesto toda torta. O futebol era o sonho de um futuro melhor. Eu e meu mano nos destacávamos nas brincadeiras. Ele na época não era assim tão bom. Eu, sem modéstia falsa, era um dos mais procurados para jogar. Devia Ter então doze ou treze anos. Mas, talvez por influência das leituras de quadrinhos, não sei ao certo, sempre preferia defender o time mais fraco. E mesmo assim, quando não ganhávamos dávamos muito trabalho aos adversários. Acho que essa forma de comportamento me fez criar muitos amigos, até mesmo nos clubes rivais. Depois dos jogos sempre vinham me cumprimentar.
Esses jogos eram feitos em campos que nós mesmos, moleques que éramos, fazíamos.  À força de enxadadas e foices, reduzíamos matagais em campinhos de várzea.  E em pouco tempo até mesmo os rapazes maiores, ajudavam-nos a construir as traves. Na maioria das vezes não ficavam tão retas, mas não importava. O prazer de um jogo de futebol tirava de nossas vistas as tendências de perfeccionismo. O que interessava era correr atrás da bola, poder dar um bom drible e em seguida marcar um gol e correr para recebermos um abraço dos companheiros como prêmio.
Certa época, tínhamos até treinador. Um senhor que gostava das nossas brincadeiras e que resolveu organizar um clube. Vila Pontal, era esse o nome do time.
              Nosso dia era como o de qualquer outro menino de doze ou treze anos que cresce no interior desse país tão bonito. Durante a época de aula, acordava cedo, tomava o café e ia para a escola. Na escola mesmo já tramava com os amigos o que íamos fazer pela tarde.
Após o almoço saíamos de casa e nos encontrávamos no campinho. Ás vezes, com o sol muito quente, arrumávamos um jeito e fugíamos, escondidos de nossos pais, até a barranca de um rio para nos refrescarmos. Ficávamos lá umas boas horas e então ao voltarmos passávamos em alguma roça. Cana, melancia, ou manga.
Sempre chegávamos de volta ao campo, nosso ponto de encontro, tendo nos braços alguma dessas cousas. E ali mesmo, com os dentes, descascávamos as frutas. Às  vezes chegávamos em casa com os lábios cortados, na tentativa de descascar cana.
Nesse local ficamos morando uns seis anos. Sem dúvida foi o local que mais marcou minha infância, ou adolescência, como queiram.

Eu continuava a ler de tudo. Também conseguia arrumar emprestadas muitas revistas de mulher pelada e as levava, escondidas, para casa. Começava a perder a inocência.
Também nessa época brincávamos de bang-bang. Mas era diferente de todas as outras brincadeiras. Construíamos cabanas com ramos de árvores e de folhas de pinheiro.  Realmente eram muito bem feitas. Havia um menino entre nós que era como um líder. Enedino. Bravo, corajoso. Ele gostava de caçar, se embrenhar pela mata e só voltar quando começava a cair a noite. Inventou na época uns revolveres de madeira com um tubo daquelas antenas de televisão, jacaré, e amarrava um elástico. Fazia tipo uma catapulta. A munição eram as bolinhas de sinamão. Aquilo doía pra burro. Nos dividíamos em dois grupos. Vencia aquele que conseguia destruir a maloca do adversário. Uma vez chegou a dar até principio de incêndio em uma dessas cabanas. Muitas vezes chegávamos a nos arrastar no chão e no mato, sem nos importarmos com os répteis,  através de plantações de colonhão  para fugirmos dos perseguidores.

E também são incontáveis os corridões que levávamos. Certa feita entramos em um canavial. Devíamos estar em sete moleques. Voltávamos do riacho, estávamos todos de calção molhado e sem camisa. E as folhas da cana cortam, não sei se o leitor sabe desse detalhe, elas cortam dependendo do modo como se pega. Em dado momento ouvimos um grito. Era o dono da plantação. Saímos correndo em meio ao canavial. Quebrando ramas, tropeçando, caindo, tornando a levantar para então nos lançarmos em desabalada carreira.

Ao chegarmos no campinho, constatamos que estávamos todos lanhados. Alguns tinham mesmo cortes profundos. Principalmente nas mãos e nas pernas. O pior era acharmos uma desculpa para os nossos, preocupados pais. Mas a engenhosidade infantil não perde muito para a dos adultos. Isso não era problema.

Eu estava então na fase do descobrimento do sexo. Mas era muito tímido.
Conheci Sandra quando estava na sétima série, não. Acho que era oitava. Definitivamente oitava série, do antigo primeiro grau. Sandra era alegre, bonita. Muito bonita. Tinha os cabelos pretos cortados curtos, com uma pequena mecha caindo sobre os olhos. E tinha também duas covinhas maravilhosas no rosto quando sorria. Um rosto redondo, onde as bochechas ficavam rosadas quando pega em algum ato delicado. Ela já tinha corpo de mulher formada, enquanto eu apenas era um moleque como chamavam. Era franzino, pequeno, mas muito inteligente, talvez nem tanto, mas parecia que era.

No primeiro ano não prestei tanta atenção a ela. Sua irmã me parecia mais adequada a mim. Era mais nova que Sandra e esta uns dois anos mais velha que eu. Por isso a preferência pela irmã deveria ser mais óbvia. Mas não aconteceu isso.
O pai de Sandra era um dentista. O único da cidade. Talvez não tenha relevância isso constar aqui, mas é que havia também essa diferença de modo de viver como então se pode constatar por esse simples fato.

Quando comecei a estudar no ano seguinte me matriculei no único curso  de segundo grau da cidade. Magistério. Sandra também estava matriculada na mesma sala. Mas eu não gostava do curso. Em casa reclamava. Dizia que ia parar de estudar. Me sentia humilhado, inferiorizado pela minha frágil constituição física, perante alguns companheiros de sala de aula. E ainda me batia o medo do estágio. Sim, muitos me assustaram dizendo horrores sobre o comportamento dos alunos. Falaram que logo teria que ir para uma sala de aula sozinho. Era o caos para mim.

Minha cabeça dava nó sem parar. Como eu poderia fazer com que alunos maiores que eu me respeitassem? Tinha na época quatorze anos e apresentava corpo de onze. Isso até me criou barreiras psicológicas difíceis de serem rompidas. Mas tarde, muito mais tarde, quando morei sozinho pela primeira vez, eu arrebentei com essas barreiras. Mas conto isso mais na frente.
Eu ouvia os alunos da Segunda série do magistério falando da dificuldade em salas de aula para os estagiários e tremia. Logo eu teria que enfrentar um situação idêntica.
Meus pais me incentivaram a continuar a estudar, mas o incentivo mesmo veio de Sandra.
Foi em um dia de aula. Eu estava fazendo um trabalho de grupo sozinho. Todos já tinham arrumado seus pares. Como chegara atrasado, porque o caminhão dos bóia-fria atrasou na balsa, (saia de casa e ia até o estado do Mato-Grosso atravessando o rio Paraná) acabei ficando sozinho. Nem reclamei. Quando o sinal bateu, para a mudança de aula me vi sozinho na sala. O professor da matéria seguinte não viria e teríamos então uma aula vaga. A professora,  minha amiga, permitiu que entregasse o trabalho mais tarde.
Estava eu ali, sozinho com meus pensamentos quando ela chegou:

---- e então? Que houve que chegou atrasado? - ouvi aquela voz de anjo, suave e refrescante como se fosse um cantar celestial nos meus ouvidos.
----- O motorista perdeu a primeira balsa e tivemos que esperar pela Segunda. Daí foi uma correria. Ainda não comi nada desde o almoço. Só deu tempo de chegar em casa tomar  um banho e vir correndo para a escola! - falei me controlando. Eu não acreditava. Sandra estava em minha frente, mais linda do que nunca. Um sorriso nos lábios. Seu rosto redondo me pareceu ainda mais macio. Não mais sabia o que dizer, acho que gaguejei alguma coisa. Então ela sorriu novamente e sentou-se ao meu lado. Eu senti então, pela primeira vez  o perfume do seu corpo junto a mim. Inebriado, não me dei conta do que falávamos.
Quando me dei conta, estava falando  a ela do meu dilema, se continuava a estudar ou não.
---- e o que vai fazer se parar? Virar bóia-fria o tempo integral?
---- Não sei! Esse é o problema! Eu gosto de estudar, mas...sabe...eu sou tão pequeno... vou parecer mais um aluno do que um professor.
----- Ora, não sejas tolo! O que você precisa é o que você tem de sobra! Inteligência!
----  Você acha? – perguntei, maravilhado pelas palavras dela.
---- Claro! E veja o caso do professor Ernesto! O pessoal tira sarro dele, chama de bodinho e coisa e tal, mas ele é um dos melhores professores da escola. Já imaginou como seria chato a aula de geografia sem ele? – (o tal de Ernesto era um baixote que tinha um cavanhaque a lá Visconde de sabugosa).
---- Talvez você tenha razão! - disse sorrindo por dentro. Ela me achava inteligente. Isso foi uma coisa tão boa de ouvir.
---- Claro que tenho! E além do mais, eu iria sentir muito a falta sua.
Aquilo era um sonho. Será que eu tinha ouvido direito?
Timidamente eu sorri de cabeça baixa.
Antes de levantar-se ela ainda pegou na minha mão, me desejando sorte no trabalho. Claro que me deu umas dicas. Afinal éramos os melhores alunos da sala, mas não éramos inimigos. Ainda bem.

O certo é que depois daquele dia, eu não a tirava da cabeça. Intimamente acho que não foi o gosto pelo curso que me manteve na escola. Foi Sandra. A vontade, o desejo, a ânsia que eu tinha de vê-la. Se acaso meus olhos não a viam por um dia era como se houvesse um buraco dentro do peito. Os finais de semana eram um suplicio. Mas então a Segunda feira era o dia mais feliz para mim.
Nessa época já estava estudando de noite. De dia trabalhava como bóia fria catando algodão do outro lado do paranasão, no Mato Grosso. Mais tarde arrumei um emprego em uma estofaria.  Uns crentes eram os donos. Talvez não devesse nem ter citado esse fato dos donos da estofaria, mas mais na frente verá por que o fiz.
Meu pensamento variava entre Sandra e os estudos. Será que ela realmente gostava de mim? Talvez ela tivesse falado aquilo só por falar, pois era muito educada e gentil. Eu poderia estar passando por idiota. O certo é que não conseguia mais tirá-la dos meus olhos. Na sala de aula eu ansiava por um olhar dela, um sorriso, alguma palavra. E quando ela se dirigia a mim, com um sorriso ou palavras,  era como se a felicidade me fosse algo exclusivo. Como se uma chuva fina e refrescante caísse sobre mim. No entanto nunca tínhamos a oportunidade de conversarmos por um tempo, sem que alguém aparecesse.
 Assim o tempo foi passando e eu ruminando aquele sentimento que dia a dia, noite após noite me consumia. O golpe fatal veio quando um dia, uma amiga de sala chegou toda contente, gritando aos quatro ventos que Sandra estava namorando um tal de Daniel.
 Meu Deus! Como aquilo doeu! Só eu sei! Foi como uma se uma lança em brasa ardente perfurasse meu peito. Eu não sabia como agir. Os colegas de sala davam risadas, faziam brincadeiras com ela. Eu participava, timidamente, como sempre. Mas a dor era tanta, que somente os corações que amam e não são amados podem compreender. Eu olhava para ela e via seu rosto vermelho, um tanto de timidez, outro tanto de alegria pelo que diziam seus olhos e seu sorriso.
Tive que arrumar uma desculpa e pedir para ir para casa. Foi a primeira noite que dormi ao relento. Não agüentava o que acontecia. Não era justo. Por quê? E assim, com a revolta dentro do peito, eu caminhei a esmo pela pequena cidade. A lua foi testemunha de que uma cena de telenovela eu protagonizei, bem antes de o personagem de Lima Duarte se embrenhar pelo mato qual cão raivoso pelo amor da professora vivida por Maitê Proença em o Salvador da Pátria. Sim leitor, eu dormi em meio ao mato. E tinha apenas quatorze, acho que quinze anos. Não pensei em nada. Cobras, aves ou bichos noturnos, nada disso me importava. Com o coração cheio de mágoas eu sofri minha Segunda derrota.


.... critiquem e eu continuarei...
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 06/01/2006
Código do texto: T95081

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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