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Asas de Borboleta

        Já acordei com uma coisa no peito. Achei que fosse saudade. A manhã já ía alta, o sol entrava pelas venezianas da minha janela, esqueci de colocar o relógio para despertar às sete horas da manhã para ir trabalhar.

Mas depois do porre da noite passada, dificilmente eu teria forças para suportar cara de chefe e colega puxa-saco. Ainda deitada na cama, com aquele troço no peito – que não era enfarte – mas que me pressionava o coração numa angústia sem fim, rezei para que Deus tivesse piedade de mim. Rezei para que Ele me mandasse um novo amor. Rezei para que eu pudesse andar nas ruas novamente, sem ter que ficar escondendo minhas lágrimas por um amor que há muito já havia partido. Implorei para que outra vez eu pudesse escutar o som das minhas risadas, divertir-me com velhas piadas, dormir e sonhar com coisas, com qualquer coisa, que não fosse a dor da saudade dele.

E depois, sentada na cama, contemplando minha imagem amarfanhada no espelho, senti eu mesma piedade de mim, pela minha falta de reação, pela falta de emoção, por tudo aquilo que já havia deixado passar, enquanto chorava em uma sala escura por um amor que há muito já havia partido.

E meu amor que partiu com asas de borboleta, deveria agora estar viajando por outras dimensões, feito uma andorinha desgarrada, livre das garras deste mundo. E que inveja eu sentia da liberdade dele, dos vôos rasantes e da alta velocidade. Por quais terras encantadas sobrevoava meu mágico amor e tão longe será que ele estaria, que nem em meus sonhos mais aparecia?

Então eu levantei, sacudindo a cabeça para passar a enxaqueca e também a pena que eu sentia de mim mesma. A vida seguia numa torrente assim tão forte que não me deixava parar nem para chorar, arrastava-me aos trancos e barrancos, como se me suplicasse que já estava na hora de viver. E eu dizia para o meu coração que o tempo de chorar já havia acabado, que era mais do que hora de a dor passar e que Deus, por favor, também estava na hora de eu encontrar um novo amor logo ali, quando eu dobrasse a esquina.

Aí eu abri a janela e os raios de sol iluminaram meu rosto ainda amassado da noite bêbada e das minhas lágrimas noturnas. Vieram borboletas e passarinhos me saudar, cantando a primavera, cantando novos tempos, convidando-me a encarar a vida com olhos de sol. Enxuguei meus olhos de tempestade, respirando o ar nem tão puro que vinha da rua. Achei que deveria me recompor e me recompus. Procurei a roupa mais bonita que tinha, passei uma escova no cabelo e saí para a rua, buscando encontrar não somente um amor, mas um pouco da vida que eu havia perdido depois que meu amor partiu com suas asas de borboleta.
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 14/01/2006
Código do texto: T98796
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
573 textos (37915 leituras)
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Patrícia da Fonseca