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Sandra

Após 15 anos ele voltou. Esperanças e sonhos de infância. Seu lugar. Sua terra. Terra da única pessoa que amou. Seu primeiro e único amor.
As ruas estão mais movimentadas, e mais limpas. O comércio está maior. Não avista nenhuma pessoa conhecida. Gente estranha.
“Eu tenho que lembrar que agora também sou um desconhecido, um estranho para a cidade” Amigos, parentes,: nem aqui me conhecem mais.
15 anos. É tempo de sobra para mudar uma pessoa, para esquecer, seria também para perdoar? Para lembrar?
Caminha pela rua principal, o sol bate forte no rosto. Leva a mão á testa para enxugar o suor que escorre. Passa pelo local onde antes era a antiga rodoviária. Agora é apenas um salão de beleza, onde, um rapazote de uns 20 anos escova o cabelo de uma mulher.
Entra onde existia o Bar do Zeca. Senta em uma velha mesa de madeira, onde um pano enrugado, já comido pelas traças, faz as vezes de toalha. Puxa uma cadeira de palha, joga a mochila no chão.
-- Pois não Sr..? Posso ajudá-lo? -- Uma garota de rosto angelical, ovalado, morena, de cabelos negros compridos, preso em coque, no alto, se aproxima.
--- Por favor , uma cerveja!!-- Já não sabia mais que sabor tinha uma cerveja. Só se lembrava que era algo bom.
--- Sim, senhor. O senhor está viajando?
“Gostaria de conversar com alguém, com ela, mas não com essa garotinha. Preciso encontrá-la, mas não posso deixar que saibam que estou aqui, senão o inferno vai recomeçar.”
--- Senhor? Senhor!!
--- hã,hã... ha sim, sim, eu estou de viagem. Como você se chama?
---- Sandra!!
Esse nome.
---- Que foi ? O senhor está bem?
Um homem gordo se aproxima.
---- O senhor precisa descansar. O pessoal que não está acostumado, sofre com esse calorão danado que faz aqui, a gente já não sente. Tem um hotel ali na esquina. Fale com o seu Mané, fale que fui eu, o Abilio do bar, que indicou que ele te faz um precinho legal.
---- Obrigado. É to sentindo o clima. Só vou tomar a cerveja e vou pra lá.
---- Aqui está! Geladinha!! -- era a garota que voltava coma cerveja.
---- O senhor toma comigo?
---- ahh não, o balcão...
---- Deixa comigo seu Abilio, eu cuido do balcão. Pode conversar com o moço.
---- Menina educada essa sua filha!
---- Educada ela é, mas não é minha filha! Saúde!- bebeu um gole - Ela está vivendo com a gente já faz dois anos.
---- Não tem família? Pai, mãe?
---- Não. Tadinha. A mãe faleceu coisa de dois anos, desde então vive comigo.
---- E pai? Parentes?
--- O Pai ninguém sabe quem é. A menina nunca o viu. Não tem parente nenhum por aqui que se saiba. Então a minha esposa resolveu pegar a menina. Ela ajuda em casa e ainda dá uma mão aqui no bar. Parece a mãe. Pessoa de bem. Trabalhadeira. Honesta, apesar de o pessoal viver falando mal dela.
--- como assim falando mal por quê?
---- Hii, moço, é uma história cumprida, e triste.
----- Tenho muito tempo agora.
----- Então vorta depois da janta, lá pelas dez, que eu vou contar pro senhor.
----- Está bem, eu volto. Quanto é a cerveja?
----- É da casa, para vosmicê vortá depois.
---- Obrigado. Tchau moça.
A menina acenou toda sorridente do outro lado do balcão. O homem colocou a mochila nas costas e saiu para a rua. Era incrível aquela sensação. Liberdade, movimento. Aquele ar fresco o invadiu. Poder sentir o vento bater em seu rosto. Sentir o sol, abrasante, lhe castigar, lhe fazendo suar. Ver o movimento. As pessoas conversando sentadas na praça, ver os jovens andando de bicicleta, sorridentes, sentir o cheiro do óleo dos carros que passavam, o barulho da carroça puxada pelo cavalo cansado. Estava vivo de novo. Podia se movimentar sem medo de que algum oficial o parasse e o mandasse de volta para uma cela.
Foi até o hotel. Tomou um banho, trocou de roupa. Deveria dormir um pouco, mas a ansiedade o dominava. Teria muitas noites boas de sono pela frente e uma noite a mais sem dormir não faria diferença alguma para ele.
Passeou pela praça. Viu os casais de namorados nos cantos e bancos, onde a luz não incida diretamente. Antes não havia praça, eram só uns pés de manga e abacate, a fazer sombra, com uns bancos de madeira embaixo.
Não resistiu, sem perceber se viu em frente ao mercado Cajueiro, olhou ao lado, os escombros de uma casa. Foi ate o pé de sinamão. Pegou um galhinho de bolinhas. Lágrimas vieram. Prometera nunca mais chorar. Isso era coisa de frouxo. Foi o que aprendera.
Lembrou-se das noites em que ficavam até mais tarde debaixo dessa mesma árvore, depois que saiam da escola. O mato tomava conta da casa destruída. Dois Garotos de moto passaram olhando para ele. “É , devo estar chamando atenção, é melhor me cuidar.”
Voltou ao bar. Reparou na pintura velha, desbotada, onde a cal estava descascada. Ao entrar no bar viu que o velho não estava.
---- Oi!! e então? Melhorou? - a menina lhe perguntou sorrindo. Um sorriso lindo. Lembrava ela quando sorria.
----- Estou melhor. Um bom banho e a comida me animaram.
----- Iche, a comida do hotel não é nada, queria que o senhor visse minha mãe cozinhar. Ela... ...-- lágrimas correram pela sua face.
---- Oh,, me desculpe, eu não queria....
---- Tudo bem.. --- enxugou o rosto com a camiseta. --- Sabe, eu tenho que me acostumar com isso, Me acostumei sem pai, logo vou me acostumar sem minha mãe.
Aquela menina, sozinha, tão nova, sem ninguém. Encheu seu coração de tristeza vê-la falar assim. Parecia que um sopro de vida lhe fugia cada vez que ela falava, mesmo querendo parecer feliz.
---- O que aconteceu com seu pai? -
---- Não sei direito! Mamãe nunca falava dele comigo. Vivia chorando nos cantos da casa, eu ficava quieta em um canto espiando. Disse que nunca mais queria saber de outro homem.


continua...
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Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 14/01/2006
Reeditado em 14/01/2006
Código do texto: T98936

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes