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MEDUSA

Era um jardim muito amplo e muito verde, em que as plantas proliferavam e cresciam sem supervisão alguma. Ouviam-se alguns pássaros canoros irrequietos nas copas das árvores e vários insetos zumbiam em profusão. E por todos os lados, sob as árvores, entre os arbustos, era possível divisar muitas – dezenas – estátuas de pedra. Estátuas de pessoas, qual fossem gente petrificada. Homens e mulheres, com expressões, tamanhos e idades variadas, espalhavam-se pelo jardim, como se tivessem sido surpreendidos pela imobilidade em meio às suas atividades normais quotidianas.

Ele foi andando resoluto por entre os arbustos, o caminho era longo. No final dele, havia uma velha varanda em madeira, bastante maltratada pelo tempo. As tábuas muito velhas eram escurecidas, os pregos enferrujados e os vidros das janelas da sala de estar estavam embaçados de sujeira. Toda a casa na verdade era velha, mas de alguma forma quase nem se percebia a casa por trás da varanda. Era como se esta fosse um ente dissociado do resto, como se fosse o principal do conjunto. Quase como se respirasse.

No centro da varanda havia uma mulher sentada numa poltrona purpúrea bastante puída que se assemelhava a uma espécie de trono decrépito. Ela apresentava olhar vidrado e tinha os cabelos escuros e compridos desgrenhados. Usava uma túnica negra que lhe chegava aos pés e que apenas deixava ver as mãos e os pés, cuja pele ostentava tatuagens também negras de linhas finas que se entrelaçavam em misteriosas formas.

O rapaz estacou a aproximadamente dois metros da varanda e da estranha figura sentada no trono grotesco. Trazia obstinada expressão no rosto e permaneceu olhando a mulher por alguns minutos em silêncio.

Ela foi a primeira a falar, embora continuasse sem fitar o interlocutor, os olhos perdidos no vazio:

- Como ousa penetrar em meus domínios?

O rapaz continuou a fitá-la, sem dar maiores sinais de que tivesse escutado a estranha abordagem, a não ser pelos lábios que se estreitaram um pouco mais, apertados.

- Ordeno que fale! – a voz rouca da mulher se fez ouvir outra vez.

O visitante finalmente esboça reação. Fecha os olhos e respira fundo, aparentemente reunindo forças para o embate. É com voz tensa que diz:

- Mãe, sou eu.

A mulher dá uma gargalhada medonha, agitando os cabelos arrepiados.

- Está tentando enganar a quem, intruso? MÃE? E desde quando Medusa tem filhos?

- Mãe, eu vim te buscar. Desce daí, por favor, venha comigo.

A mulher se agita ainda mais, embora os olhos continuassem desfocados.

- Todos aqueles que entram no jardim de Medusa são transformados em pedra, intruso. E seu destino será o mesmo! – a voz era cada vez mais cavernosa e ameaçadora.

Ele faz um gesto cansado, quase implorando.

- Mãe, por favor. Sou eu, o Antônio, seu filho. Vem comigo, eu prometo que não vamos te levar pra clínica de novo... Eu sei que você não gosta de lá, nós vamos pra casa, pra eu cuidar de você, por favor...

A mulher fecha os olhos e sorri sardônica.

- Você não me engana, intruso! Acha que não sei que veio me matar, assim como todos os outros?

Ele dá um passo à frente, tentando demovê-la.

- Não dê mais um passo ou transformo-o já em pedra!

Ela se levanta, ainda com os olhos fechados, enfurecida.

Ele junta as mãos no peito, como se pedisse ajuda a algum ser celestial. A mãe era vítima daquele delírio já há dois anos. Antes uma mulher calma, carinhosa, culta, bibliotecária, apaixonada por mitologia, sempre às voltas com algum livro. Mas, sem que ninguém pudesse explicar, um dia deixou de ser Amélia e se transformou em Medusa. A família a internara numa clínica para tratamento que não surtira efeito algum, de onde ela fugira indo se abrigar naquele lugar estranho e abandonado. Fora trabalho árduo encontrá-la e agora precisava convencê-la a vir com ele. Apesar de tudo ainda era sua mãe!

- Mãe, eu te amo tanto. Eu nunca te faria mal nenhum. Porque não quer vir comigo?

A expressão do rosto da mulher, ainda com os olhos fechados, se torna solene. Ela diz, como se enunciasse uma sentença:

- Eu sou Medusa, a mais poderosa e mais terrível de todas as Górgonas! Você teve a chance de ir e não aproveitou. Agora é tarde!

A mulher abre os braços e os olhos, que neste momento estão finalmente em foco. Mas não são os olhos de Amélia, nem de ninguém humano. Ela emana algo maligno. Os cabelos se agitam quais estivessem vivos.

Antônio, aterrorizado, tenta recuar. Em vão. Como a Górgona previra, o jardim ganha mais uma estátua de pedra.
Livia Santana
Enviado por Livia Santana em 16/02/2006
Código do texto: T112550
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Sobre a autora
Livia Santana
Uberlândia - Minas Gerais - Brasil, 33 anos
5 textos (201 leituras)
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Livia Santana