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O Ventríloquo


            Acima da única porta que compunha o ambiente, o crucifixo já era foco de seu olhar que amanhecera antes do próprio dia.

             Como na maioria das vezes; aquela observação não levava à imagem nenhuma complexidade sendo apenas uma ação tão cotidiana quanto possuir aquele objeto. Pois sequer esboçava em pensamentos querer um dia como o de ontem que  lhe rendera o jantar, pão para o café e até  pilhas para o rádio que há muito não funcionava.

             Terminados os feitos matutinos, levava a bolsa jogada ao chão às costas e seguia sem pensar até o ônibus. Estava quente, as pessoas agitadas e os carros frenéticos tornavam o trânsito caótico, ele desfocava da imagem pela maneira com que guiava seus passos, assim como não era percebido, também nada percebia, e os fatos, jamais lhe acrescentavam algo.

             No ônibus, quem não gargalhava, dispersava-se com o caminhar das árvores e prédios através da janela. Certas crianças choravam de medo; outras, alternavam a observação curiosa com risos inocentes, o homem que cobrava os passageiros de tanta risada se enganara ao passar o troco, e o esperto ainda lhe apontou a graça como se nela deleitasse, qualificando-se demasiado  inteligente pelos centavos ganhos.

              Quanto a ele, havia tirado da bolsa e sentado na sua perna um grande boneco de madeira e tecido que contava piadas, fazia cortejo às moças bonitas, debochava de uns, agradava a  outros e se entristecia ao assustar alguma criança.O boneco era preto do cabelo amarelo, usava uma blusa xadrez surrada e uma calça de suspensório azul, seus sapatos, contava, haviam sido levados pela chuva, mas tudo bem, estava trabalhando para comprar uns novos. Levava na mão direita uma caneca amassada e a estendia para as pessoas que iam saltar do ônibus dizendo. E o meu almoço? Todos entendiam e largavam ali algumas moedas. O agradecimento era equivalente a quantia deixada e sempre seguia-se  de riso dos  que  ali continuavam. Depois do almoço gozava da comida para os passageiros de um outro ônibus; alguns até o cumprimentavam, já tinham se cruzado antes, então o boneco repetia as piadas contadas.Quando escurecia, dizia ser sua hora de descansar, este durando até o amanhecer.

  Ele, faminto, comprara apenas biscoitos e café para jantar, desejou cigarros, mas o pouco dinheiro lhe levou a incerteza de ainda saber fumar, até concluir que esquecera, como se antes daquele hábito não viesse o querer. Seguiu cabisbaixo como de costume  passou por pessoas, e nada observou, assim como não havia sido observado. Sua solidão   cegara-lhe e emudecera-lhe. Demorou até chegar no quarto em que morava onde largava a bolsa no mesmo lugar, jogava-se na rede gasta e entregava-se a um estado de morte que lhe tomava desde esquecera quando.

    Chegada a manhã as mesmices do boneco já ecoavam provocando graça, ora num banco de calçada, ora dentro dos ônibus. E onde quer que fosse, lhe conheciam, acenavam-lhe, retribuíam pilhérias.  E desse modo passavam-se as horas, o tempo.

    Num daquelas dias depois das tantas do boneco, ele, voltando para casa com o objeto na mão foi interrompido por alguém, talvez um menino de rua, que lhe perguntou o nome.O boneco prontamente ergueu a cabeça e pronunciou. Mas não fora aquele o  indagado.

Ele, perdeu-se num olhar fixo e nos pensamentos vagos, há muito não pronunciava ou ouvia aquela palavra; talvez não tivesse certeza de qual fosse.

Domanny de Lima
Enviado por Domanny de Lima em 02/03/2006
Reeditado em 02/03/2006
Código do texto: T117766
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Sobre a autora
Domanny de Lima
Portugal
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