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Meirol e a Pedra Sácer - II

5. A comitiva Chega até os Asnarlahals

A preocupação de que os manvatopias delatariam a situação aos dole-mundii fez que a comitiva liderada por Meirol apressasse o galope.
“Quem mora ao norte dessas terras?” Perguntou Meirol, e Greiteli respondeu:
“São os tassu-assus. Como vocês puderam ouvir anteriormente, ele são hostis aos eromês.”
 “Não sabemos que outros perigos nos esperam deste lado do Vantaás-Eás. Vive que tribo do outro lado do rio?”
Greiteli não soube responder, e Aduneius disse que passou por ali, mas não vira viva alma nem residência naquelas terras.
“Atravessaremos o rio e pernoitaremos no outro lado, e evitaremos o território dos tassu-assus” disse Meirol, “Porém recomeçaremos a cavalgada antes da alvorada.”
Procuraram uma parte do rio que pudesse ser atravessada a galope e encontraram. Em certo momento os cavalos hesitaram, pois o rio começou a afundar, mas logo as águas estavam rasas novamente.
Chegaram no outro lado e escolheram novamente o local para armar as barracas, e os quatro carregadores novamente ficaram ocupados. Os demais integrantes discutiam o acontecido e as conseqüências. Quin-Néser e Caldiens foram bater a região.
Logo a noite caiu, e os homens sentaram-se ao redor de uma fogueira e Quin-Néser começou a contar o relato da batalha contra os achis. O Grande Líder dos dimbols solicitara ajuda de Handaf, e este enviou algum auxílio contra os achis, e Quin-Néser fora enviado à batalha. Detalhes interessantes da luta foram relatados com sentimento e exatidão. A história de 300 dimbols que perderam uma batalha para 63 achis, que encurralados subiram uma elevação de mata densa e armaram armadilhas atrás de si, envenenando muitos dos dimbols, fazendo outros cair em buracos e serem perfurados por lanças lá colocadas e ainda outros cortando gravemente o pé, sendo depois carregados por seus companheiros atrasando-os. Os maztenas sentiram-se orgulhosos em saber que seus arcadãs viraram a guerra, quando os dimbols foram a campo aberto para uma última batalha. Estavam já na proporção de 1 para 3 achis, e os achis aparentemente estavam pressionando Daverás para os ajudar na batalha, o que aumentaria ainda mais o poder deles.
Estavam naquela hora em campo aberto, e os dimbols desejavam ir à batalha e morrer honradamente, numa corrida ao suicídio, numa luta sem esperança.
Nesse ponto, um líder de exército maztena organizou arqueiros de tal forma que vários achis foram alvejados muito antes atingirem os dimbols, e a vantagem numérica mudou de lado ... os maztenas ajudaram os dimbols a alcançar a vitória.
A noite já estava avançada quando Quin-Néser terminou o relato. Meirol disse à Caldiens que ele ficaria de guarda um pouco, para que os dois guerreiros tivessem, dessa vez, uma noite bem dormida. Enquanto todos os outros dormiam, porém, Meirol percebeu que Servensaus permanecia acordado. “Estou sem sono” disse ele, respondendo à um aceno de Meirol.
“Sente-se aqui comigo então, vamos conversar em tom baixo”
Servensaus foi. E iniciou-se uma agradável conversa a respeito de lendas inventadas por Servensaus.
“Uma delas” disse ele “é a minha preferida. Estou inventando um novo planeta.”
“Ah é, e como é o nome ... Panol?”
“Não ... Como chamamos o solo de terra ... as terras da tribo tal, as terras da família tal, chamei de planeta Terra.”
“Criativo ... o que eles fazem lá?”
“Ainda estou bolando tudo, e muito pode ser alterado. Já inventei mais de 2000 anos de história para a gente de lá. Várias nações, várias guerras. Mas pretendo escrever sobre grandes navegações que os terranos farão e numa dessas navegações encontrarão um país chamado Brasil. Este país trará paz ao mundo, mas fará isso através das armas.”
Servensaus continuou a contar sobre suas idéias, e quando ele falou do esboço mental que tinha para um jovem chamado Alexandre, o grande, Meirol disse:
“Isso tira o senso de história real para sua lenda, imaginar que um único homem conquistaria tantas nações e venceria tantas batalhas. Também, essa história de Brasil e paz não combinam com a realidade, ... veja a nossa realidade Servensaus. Ninguém quer a guerra, mas ela existe.”
“Se ela existe, dizer que ninguém a quer é tolice. Mas talvez você tenha razão ... vou reinventar esse futuro nas minhas invenções. Mas não mexerei no que penso para Alexandre. Os maztenas provaram que façanhas militares podem virar uma batalha que, numericamente, está contra você.”
“Sei.”
“Um jovem terrano que inventei é um criador de histórias também.”
“Quer dizer que você inventou um criador de história? Então você terá que inventar uma história que para ele é realidade, e depois as histórias que ele criaria .. mas na verdade tudo é lenda. Curioso!”
“Mais curioso ainda é o fato de que ele inventou uma Panol. Igual a nossa ... tem maztenas, Handaf, dunos, eromês, asnarlahals e tudo mais.”
“Quer dizer, você inventou um cara e um outro mundo para ele, daí ele inventa um mundo que é o nosso mundo. Para ele, a Panol é imaginária e a Terra é real. Mas na verdade Panol é real e o planeta Terra é imaginário. Se ele inventasse um Servensaus na Panol dele, para aquele homem a Panol era real, e a Terra que esse Servensaus inventou seria imaginária. Daí, se isso fosse um ciclo contínuo, seríamos imaginário e reais alternadamente.”
“É” disse Servensaus rindo, “mas não esqueça que a Terra é que é imaginária, e a Panol é real”
“Agora não sei mais nada” disse Meirol, em tom de brincadeira.
A noite se passava e Servensaus e Meirol iam dando contornos mais bem-definidos à este lugar imaginário. Logo, Aduneius acordou e pôs-se a vigiar o acampamento no lugar de Meirol, e ambos foram dormir.
Ao amanhecer, se foram. Como o comerciante Le-in ia à frente deles com a pedra Sácer em passo de caravana, eles teriam quase o alcançado, não fosse os contratempos com os eromês. Agora, cavalgavam com alguma pressa e iam contornando as terras dos tassu-assus. O terreno possuía um vale úmido, apesar de lá não correr rio algum. Subiram, desceram, atravessaram o vale, subiram novamente e desceram ... aí já estavam a meio caminho da tribo sul dos Asnarlahals. Continuaram cavalgando por terras onde o silêncio é o Grande Líder. Ao seu lado esquerdo podiam divisar as matas altas que impedem que vejam a vegetação rasteira da Amandii. Ao lado direito estava o Vantaás-Eás.
Cavalgadas depois, chegaram até os primeiros habitantes asnarlahals. Estes viviam deste lado do rio, mas a tribo propriamente dita ficava do outro lado. Conversaram com os asnarlahals, que os interrogaram muito, tentando saber quem eram e para onde iam.
“Os asnarlahals vigiam os acontecimentos por aqui e se mantém informados sobre quem passa por essas terras. Esse interrogatório todo provavelmente é reportado aos líderes do outro lado do rio. Greices também interrogava forasteiros, para depois informar Handaf das movimentações nas fronteiras. Se os levinotes passaram por aqui, os asnarlahals devem ter percebido. Precisamos conversar com a liderança deles. Como atravessaremos esse rio?” Disse Meirol.
“Ora Meirol, pergunte a estes sobre os levinotes, pois se estes são os que reportam tudo, estão em melhores condições de dizer algo.” Sugeriu Greiteli.
“Não, Greiteli, É possível que outros asnarlahals, em outro ponto, tenham avistados os levinotes, enquanto estes talvez nem os tenham vistos. É para onde aflui toda informação que devo ir.”
 Os asnarlahals não queriam atravessá-los sem pagamento em moedas de pratas. Nenhum maztena, porém as possuía. Fora um descuido de Handaf não providenciar-lhes isso. Um dos asnarlahals apontou para o cavalo de Handaf e balbuciou algumas palavras que Meirol não pôde entender.
“Querem o crina dourada!” Disse Aduneius.
Meirol desesperou-se. Desejava entregar o cavalo a Handaf, se pudesse ter sucesso em sua jornada. Ele pensou muito, franziu a testa, coçou os olhos, pôs as mãos atrás, na nuca, e estava se acostumando com a idéia de desfazer-se do cavalo.
Ora, aconteceu que um outro homem que possuía um pequeno barco era também comerciante de cenouras. A espécie de cenoura asnarlahal era fina e comprida, mas de bom aspecto. Aduneius aproximou-se e percebeu que este cometia um grande erro em suas vendas. O comerciante cobrava as cenouras por ráshnaki. Um ráshnaki  era a quantidade de cenouras que dava para amarrar em um cordão de 30cm. Cada ráshnaki era tanto, mas certos homens traziam um cordão de 60cm e pagavam pelas cenouras o dobro do que pagariam por um cordão de 30cm. Chamavam o cordão de 60cm de ráshnaki duplo.
Na língua comum, Aduneius conversou com o comerciante, e dizendo:
“Ora asnarlahal, tu estás perdendo dinheiro e não te apercebes?”
O homem o olhou espantado tanto pela forma direta que este estranho lhe dirigia a palavra, como pelo que dizia.
“Eis que tenho comigo nove colegas, e nós dez temos que atravessar o rio. Te mostrarei que estão te enganando, e tu, da tua parte, providenciará para nós uma travessia segura”
O comerciante concordou e Aduneius passou a explicar-lhe através de desenhos e contas, que um ráshnaki duplo tinha quatro vezes mais cenouras que um ráshnaki simples. Depois, amarrou as cenouras das duas maneiras e contou as cenouras contidas nos dois diferentes ráshnakis. O asnarlahal ficou estarrecido. Os compradores já deviam ter se dado conta da vantagem do ráshnaki duplo, por isso cada vez mais esse último era mais solicitado. O homem curvou-se até o chão em gratidão à Aduneius (e ele, cheio de pose, gostou da bajulação). Depois, o homem chamou seu servo mais experiente e ordenou que transportasse os maztenas. Torna-se desnecessário dizer que os demais ficaram curiosos; e Meirol, orgulhoso de sua escolha (de tê-lo trazido junto). Durante a travessia do rio Vantaás-Eás, Aduneius teve de explicar aos demais por que todos estavam sendo transportados “de graça”.
Do outro lado do rio, agradeceram a travessia e por indagações descobriram onde se ubicava o Grande Líder dos asnarlahals. Muitos deles sabiam  falar à maneira dos maztenas. O comércio fazia algumas imposições que os asnarlahals não se importavam em obedecer. Os maztenas estavam a pé, porque os cavalos não puderam ser transportados e Meirol deixou Bafor-Nul cuidando deles na margem oeste do rio. Caldiens e Quin-Néser estavam apreensivos, pois eram responsáveis em garantir a vida dos membros da comitiva, e lembravam que da vez anterior em que entraram em solo dominado (as terras eromês) a morte fez-se quase certa.
Com certa dificuldade em caminhar pelas muitas e bem povoadas ruelas (para eles, um tanto incomuns), Meirol e seus companheiros encontraram a edificação onde estava o Grande Líder asnarlahal. Pediram aos guardas permissão de ir até ele e perceberam que os mesmos não entenderam nada e ficaram com um aspecto agressivo por verem forasteiros às portas daquele edifício. Aduneius já estava prestes a conversar com eles na língua comum, quando Greiteli tomou a frente e falou algumas palavras aos guardas. Incrivelmente, um deles curvou-se perante Greiteli e saiu.
“Não esqueçamos que temos entre nós um homem de alta graduação” – Disse Servensaus.
O guarda retornou e disse a Greiteli que outros assuntos urgentes ocupavam o Grande Líder dos asnarlahals e que eles seriam bem acolhidos em outro aposento, se desejassem esperar um pouco. Sentaram-se, foram bem servidos, e os corações deles passaram-se a alegrar-se com o bom vinho asnarlahal. Um asnarlahal com brincos de ouro estava por perto, sozinho, também esperando uma audiência com o Grande Líder. Vez por outra o olhar dele se encontrava com o de Meirol, e Meirol abaixava ou desviava o olho. O homem parecia curioso.
“Bafor-Nul se deu mal” disse Alaicha. Lembrado disso, Servensaus recolheu um pouco da boa comida e pôs vinho numa bilha e guardou para o companheiro. Meirol então pôs-se a pensar alto:
“Que missão mais desorientada ... estamos perseguindo uma suposição, não sabemos com certeza para onde a Pedra foi, se estamos seguindo seus rastros corretamente, nem se os que estão no caminho podem nos dar boas informações. Dependemos de nossa própria esperteza coletiva, somos constantemente atrasados e um ataque dole-mundii logo será formado. Não vou mais esperar aqui.”
Levantou-se como se aquela pequena espera o atormentasse mais do que a longa demora nas terras eromês. Nesse mesmo momento, pensando que os maztenas se iam, o homem se levantou bruscamente e estendendo a mão na direção de Meirol, ia dizer alguma coisa. Quin-Néser atirou-lhe um punhal que o prendeu pela túnica na parede, mas não o feriu. Ao mesmo tempo perplexo pela habilidade do maztena e assustado pela rapidez do ataque, o homem livrou-se da túnica presa na parede, só para ser preso nos fortes braços de Caldiens, que visivelmente irritado, perguntou o que ele ia fazer.
“Vá com calma grandalhão ... você está em solo asnarlahal. Sabes por acaso minha posição? Sabes quem sou? ... Você, o que faz aqui?” Perguntou apontando para Meirol.
“O que venho fazer aqui é problema meu. Há algo em que eu possa ser útil? Porque estás prestando atenção a nossos assuntos?”
“Digamos que assisti muitas negociações neste mesmo aposento. Muitas das quais pude tirar lucro, algumas nem tanto. Sou um rico comerciante asnarlahal e estou esperando para entrar perante o Grande Líder Djeiko-Bihel. Sabe, homens, vocês não são dos mais educados, e minha conversa com vocês não existiria se ela não interessasse a mim também.”
“Peço que nos perdoe. Estamos sob intensa pressão, numa situação delicada” – disse Meirol.
“Entendo ... vocês são maztenas? Se são, sei o que procuram ... a Pedra Sácer.”
Um assombro tomou conta do grupo. Meirol arregalou os olhos no mesmo instante em que Greiteli botou a mão no peito e Servensaus na boca”
“Como sabe disso asnarlahal? Diga rápido!” – disse Caldiens, em tom ameaçador.
“Vá com calma grandalhão ... você está em solo asnarlahal. Sabes por ...”
“Por Handaf, vais começar com tua ladainha novamente? Qual é teu nome asnarlahal?” Perguntou Greiteli.
“Sendedcol é o meu nome.”
“Sendedcol? Mil desculpas senhor. Não sabíamos que estávamos diante de tão importante pessoa” Disse Greiteli, levemente curvando-se, e olhando para os demais continuou: “Ele é o senhor de alguns dos asnarlahals que nos visitam e compram, e vendem mercadorias para nós. Handaf aprecia muito as visitas asnarlahals.”
“Sendedcol – disse Meirol – Greiteli te respeita muito, pois ele é homem de alto escalão, e entende muito mais do que eu sobre muitos assuntos importantes. Eu, porém, entendo agora somente duas coisas. Tenho pressa, e o sumiço da Pedra Sácer era um segredo maztena. Como sabes algo sobre isso? Algum manvatopia passou por aqui?”
“Não diga que os manvas sabem sobre o assunto! Se sabem, é hora de Handaf se preparar para a batalha. É uma pena. Os maztenas são um povo interessante de se conhecer ... para mim em particular, significa um malogro inacreditável. Meus melhores negócios são realizados com os maztenas.
“Tenho uma esposa, uma pessoa inocente de todas as tolices dos homens que pisam no solo. Ela pode morrer nas mãos dos dole-mundii, e com ela milhares de outras mulheres e crianças, e você se preocupa com seu dinheiro?”
“Maztena, que tenho eu a ver com os erros de vossas tribos? Se tu não pode corrigi-los, posso eu? Mas eis que vos darei uma valiosa informação. Aqui, nesse aposento, como eu falava, levinotes receberam informações de como receberiam a Pedra Sácer. Contaram com a colaboração de um maztena desconhecido, um tal Tarastir (falava isso em tom de ironia, uma vez que Sendedcol sabia que Tarastir era filho de Handaf).”
Os maztenas todos ficaram muito espantados com o que ouviram .. Greiteli mais que todos.
“Nossa sagacidade mostrou-se brumosa. Os homens de Tarastir não viram quem pegou a pedra? Como não, se foram eles mesmos que a tomaram! Teria sido justo se Handaf os matasse, ... a todos! – Disse Meirol.”
“Por isso Tarastir implorou pela vida de seus guardas! Ao encarar a morte alguém entre eles poderia implorar por sua vida delatando o mentor do roubo.” – Completou Servensaus.
“Deixem-me continuar” – clamou Sendedcol “éramos poucos nessa reunião. Parece que o organizador dela, que por prudência me pouparei de pronunciar o nome, desejou o mínimo possível de pessoas na reunião. Daí, sentaram-se conosco levinotes. Disseram que precisavam de uma informação, e que pagariam bem por ela. Queriam saber como obter a Pedra Sácer.
Os levinotes são inteligentes. Sabem que os asnarlahals conhecem bem os maztenas, e que alguns asnarlahals venderiam até sua família para ganhar algum dinheiro. E de fato, por uma simples informação, os levinotes pagaram muito bem. Por um desses grandes infortúnios dos acontecimentos, solicitaram informações justamente para aquele comerciante que há tempos eu percebia que era visitado por Tarastir. Nunca soube porque Tarastir o visitava com freqüência, nem sobre o que falava, mas me pareciam lamúrias. Vim a saber numa reunião posterior, de sua própria boca, que Tarastir ambicionava o poder, mas seu pai estava propenso a escolher como sucessor um dos dois filhos mais velhos, ou um de seus conselheiros.
Eu estava por aqui para falar com o Grande Líder sobre um problema meu. Ao me ver, porém, nosso amigo asnarlahal ficou feliz e de maneira um tanto apressada me chamou para a reunião, pois eu conhecia muito bem os maztenas. Me foi imposta duas opções ao participar da reunião: silenciar-me sobre o assunto fora dela, e participar dos lucros, ou denunciar tudo e pôr em risco a vida de minha família. Este comerciante era homem influente e poderoso, mais rico do que eu, capaz de comprar muitas testemunhas entre os grandes, para falarem falsamente contra mim. Participei da reunião, ouvi tudo, e não fui de ajuda. O comerciante sozinho verificou que ele sabia quem podia ajudar a roubar a pedra. O descontente Tarastir.
O comerciante asnarlahal disse que os levinotes poderiam vir até as fronteiras maztenas em certo dia, em exato lugar e apanhariam das mãos de maztenas a prometida pedra. Fiquei pensando em como tal comerciante poderia dar tal garantia. Mas numa outra reunião nessa sala, fui novamente convidado a participar. Dessa vez Tarastir estava aqui. Foi quando soube de seu descontentamento. Fiquei surpreso quando ouvi que ele venderia a pedra aos levinotes. Ele venderia toda a sua tribo à guerra contra os dole-mundii, por relativamente pouco dinheiro! Não pude acreditar. Como Tarastir retirou a pedra tão bem vigiada do seu lugar eu não sei, mas sei por vocês que ele foi eficiente.”
“Foi fácil, ele era responsável pela segurança da pedra em alguns dias” – explicou Greiteli.
“O filho traiu a confiança de seu pai. Mas talvez vocês se perguntem porque fui convidado a ouvir o que Tarastir dizia. Pode parecer que Ojina correu um risco desnecessário, mas já que ele de maneira apressada me convidara para participar da primeira reunião, agora queria que eu participasse dessa segunda reunião também para que me sentisse cúmplice de tudo, e me calasse. Passei todos esses dias angustiado, desejando informações sobre a Pedra Sácer. Passei a ser vigiado por onde ia, e achei melhor andar escoltado por servos robustos. Queria informar o Grande Líder, mas temia a vingança desse influente comerciante. Ontem tentei entrar aqui e pedir audiência ao Grande Líder. Mas quando estava para passar pelos guarda na entrada um punhal foi cravado no chão, como um lembrete. Me desencorajei e fui para casa. À noite avaliei tudo. Sei de vossa história. Sei que os dole-mundii virão atacá-los e provavelmente arrasarão vossa tribo. Valeria a minha vida mais do que as de milhares de maztenas? De que valor seria me calar e viver com o peso de tantas mortes em minha alma, e ver minha casa definhar? (dizia isso porque os maztenas eram fonte de lucro para ele, através do comércio). Eis que hoje me propus a vir aqui e falar com o Grande Líder sobre o assunto, e para o meu espanto, estranhos me agarraram, lançaram um punhal contra mim e me trataram com desrespeito. E é aqui que nos encontramos.”
Os maztenas entenderam que Sendedcol agora falava deles. Meirol arrependeu-se muito no seu coração e implorou perdão.
“Então é assim que tudo aconteceu ... esse comerciante asnarlahal combinou com Tarastir e com os levinotes o local da entrega da Pedra ... nossas fronteiras. Por isso a caravana levinote estava lá no norte das terras maztenas.” Disse Meirol. “Peço-te Sendedcol que leves essa informação até o Grande Líder Asnarlahal, para que ele decida se nossa amizade forjada pelo comércio terá valia como uma aliança militar. Nossa missão falhou num aspecto ... era para ser secreta e rápida, para interceptarmos a caravana que, imaginávamos (e não estávamos errados), estava com a Pedra Sácer. Deixamos de ser rápidos ao sermos aprisionados pelo eromês. Deixamos de estar em segredo quando revelamos o objetivo de nossa comitiva ao Grande Líder dos Manvatopias. Agora, revela por favor também ao seu Grande Líder todo o assunto, pois creio que ele poderá nos ajudar. Que ele troque mensagens com Handaf, se desejar.”
“Meirol, com sua permissão desejaria permanecer aqui, para cuidar de que esses assuntos sejam devidamente tratados, pois isso exige relações diplomáticas.” solicitou Greiteli.
“Acho excelente idéia” disse Meirol, fitando Greiteli. Parece que Greiteli estava retirando o véu de soberba que usava.
Foi uma triste despedida. Greiteli estava com o semblante carregado, como se algo o perturbasse profundamente. Os que partiram sentiram que a companhia de Greiteli foi uma perda necessária, mas dolorida. Eram só dez, e sentiriam falta de qualquer um que deixasse o séquito. Agora, deixando Greiteli nas terras dos asnarlahals, atravessaram novamente o rio, com o auxílio provido por Sendedcol.

6. Ninfa chega até Assai

A cadeia de montanhas Andeias era o lar da tribo levinote do nascente. Apesar disso, do pico Andeias até a tribo propriamente dita havia ainda cerca de 80 quilômetros, já vencidos por Ninfa.
A tribo estava estranhamente agitada e quando Ninfa penetrou no interior dela, passou por algumas aldeias com suas mercadorias, indo ter com outro comerciante conhecido. Numa dessas aldeias, porém, um homem a pé aproximou-se de Ninfa, e este rapidamente puxou uma adaga, e tremendo apontou-a ao homem.
“Fique onde está, se zela pela sua vida”
O homem sorriu. O chapéu fazia sombra e seus olhos mal podiam ser vistos. Mascava algo, “alguma erva talvez” lembraria depois Ninfa. Com um golpe rápido, o homem desarmou Ninfa, imobilizou-o e soltando-o devolveu a faca.
“Perdoe-me, meu caro senhor” disse ele a Ninfa, “mas poucos entre os vivos podem realmente ser uma ameaça para mim. Estou aqui, aguardando uma caravana que viria do nascente. Espero por muitos homens, mas somente vejo esta caravana de um homem só. Tu, que vens, do nascente, não sabes de um homem chamado Le-In?”
Ninfa esmoreceu. O nome de seu amigo mencionado por esse estranho! O que acontecia?
“Le-In era meu sócio nessa empreitada. O que querias com ele?”
“Não convém que saibas a resposta”
“Tampouco me convém que tu saibas algo sobre mim ou Le-In”
“Há algo a ser revelado? Seu sócio prometeu algo ao Grande Assai, meu senhor! Alguns dizem que Assai é mais poderoso que o próprio Grande Líder de nossa tribo das montanhas. Eu, se fosse você, não ousaria esconder nada dele. Você disse que ele ‘era’ seu sócio e perguntou não o que eu quero, mas o que ‘queria’ com ele! Parece que algo aconteceu com vossa sociedade.”
Ninfa continuou calado e foi sendo escoltado por esse desconhecido tagarela até a casa de Assai. O homem falava muito sobre a grandeza desse tal Assai, mas Ninfa não prestava muita atenção. Estava agora num estado de espírito de desmotivação, e parecia que não fazia diferença quem era esse Assai, nem o que ele desejava comprar da caravana de Le-In. “Estranhos mesmo esses levinotes das montanhas. Parece que não conversam abertamente como os outros levinotes, mas preferem os leves cochichos” pensava Ninfa. Ele começou a perceber as idas e vindas de todos, as pessoas pareciam muito ocupadas com seus afazeres, homens vendendo nas feiras e alguns senhores bem vestidos ostentavam suas riquezas. “Essas pessoas, indo de um lado para o outro, será que sabem o que estão fazendo?” – pensou – “tanta atividade, tantos interesses, mas daí simplesmente morrem e nada disso as ajudará, nem será necessário ...”
Entraram numa ruela e havia cavalos à espera deles. Não pareciam de raça. Ambos agora foram cavalgando (Ninfa estava com seu cavalo, mas andara a pé, puxando seu cavalo para acompanhar o estranho) até que se depararam com um grande portão de uma propriedade bem cercada.  Era a casa de Assai.
Foram introduzidos a um belo aposento e logo entrou Assai. Ninfa esperava ver um homem mais bem cuidado e mais alto. Assai, depois dos cumprimentos, mandou trazer bebida e foi logo perguntando:
 “É você Le-In?”
“Você deveria saber, se fez negócios com ele”
“Fiz por intermediários. Tenho muitos homens a minha disposição. Os mesmos que negociaram com o maztena foram os mesmos que trataram do assunto com Le-In. Se você não é Le-In, o que faz aqui?”
Essa pergunta, fazia a Ninfa, mas olhando para seu servo.
“Meu senhor, ele é ou era sócio de Le-In. Parece que esteve na caravana deste. Como sei de vossa ansiedade nesse caso, resolvi trazê-lo até meu senhor. Segui suas instruções não o indagando muito no caminho, mas sei que fiz a coisa certa trazendo-o aqui. Deixei meu braço-direito espionando a estrada que vem do nascente. Se a caravana de Le-In aparecer, saberemos.”
“Ótimo, Mágobas!”
Ninfa voltou a dar atenção ao assunto todo! Porque tanto interesse em Le-In e o que esse homem rico queria tanto dele? Seus pensamentos foram interrompidos quando Assai perguntou-lhe:
“Onde está Le-In, seu sócio ... você sabe?”
“O que quer dele?”
“Ainda não sei quem és, como posso saber se é conveniente que saibas de algo?”
“Não a sua conveniência que me interessa, montanhês. Sou o único num raio de muitos quilômetros que sabe do paradeiro de Le-In. Obterás sua informação, se te preocupares em sanar as minhas dúvidas, ouviste? As minhas primeiro!” Falou isso num tom ameaçador!
Assai riu brevemente e mencionou: “Há muitas maneiras de se obter uma informação Ninfa.” Era uma ameaça, mas ele não a continuou, pois desejava cooperação de Ninfa. “Mas somente diga se tu eras mesmo sócio de Le-In, depois te responderei suas indagações.”
“Sim, eu era. E me sinto traído por Le-In por sua negociação paralela.”
“De modos que encerrou a parceria ...”
“Não ... não foi assim! Para que saibais que deves me dar o devido tratamento se desejas saber algo sobre meu ex-sócio, te informo o seguinte: Nossa missão era pegar mercadorias cedidas por um maztena chamado Tarastir. Também, tínhamos mercadorias dos asnarlahals conosco, mas creio que essa do maztena é de seu interesse, porque foi incomum um levinote negociar diretamente com um maztena, uma vez que o fazemos através doas asnarlahals. Mais tarde, na altura do Pico Andeias, Le-In evitou um necessário desvio porque tinha prazo de entrega para uma das mercadorias. Por acaso é a sua? (Nesse momento, Assai balançou a cabeça positivamente) Diga-me, rico montanhês, como saberia desses detalhes sobre o maztena, e o prazo de entrega se não fosse de fato sócio de Le-In?”
Ninfa continuou falando sobre a sociedade deles, as caravanas que juntos empreenderam, até que foi surpreendido por Assai, dizendo que bastava.
“O que quer saber de mim, meu amigo Ninfa?”
“Quero saber o queres de Le-In”
Assai coçou a cabeça, colocou a mão de modo a cobrir o queixo e passou a narrar a história:
“Fomos contatados por um dole que desejava possuir o Amuleto do Ancianato, ou Pedra Sácer, como chamam os maztenas” – Assai estudou a reação de Ninfa, e percebeu que este não conhecia esses nomes – “Sabe Ninfa, é uma Pedra importante para os Dole-Mundii e eles desejavam obtê-la de volta. Digo ‘de volta’ por que os maztenas roubaram a pedra dos mundii há um século, e não a devolveram mais. Seríamos bem recompensados se ajudássemos os mundii a reaver seu amuleto. Mas como fazê-lo? Ora, é sabido por mim que os Asnarlahals conhecem bem as tribos entrerrienses, de modo que enviei um representante para negociar com eles qualquer informação útil. Para minha surpresa, meu enviado descobriu tudo o que eu precisava para obter tal amuleto. Aconteceu que meu enviado adoeceu e veio a falecer dias atrás. A quem poderia eu enviar para apanhar a Pedra no local e dia combinado, se o homem que conhecia o trajeto não existia mais? “Ninguém melhor que Le-in”, sugeriu um dos meus servos, primo de um cunhado dele. Ele me explicou que Le-In e seu Sócio, que agora tenho o privilégio de conhecer, eram, dentre todos os levinotes, os que melhor conheciam o trajeto. Houve negociação entre mim e Le-In, e apesar de eu ter ouvido que ele tinha sócio, Le-In não mencionou você, e disse-me que traria o Amuleto, um trabalho pelo qual ele seria muito bem pago.”
“Le-In não me contou nada! Meu sócio ... meu amigo Le-In! Por que me enganaste? Talvez ele soubesse que eu jamais concordaria em trazer tal amuleto, se soubesse dos fatos.”
“Agora diga-me Ninfa,” Assai realinhou-se no assento e tentou controlar a expectativa gerada por essa pergunta que agora fazia, “tens entre as mercadorias, esta que preciso? Se a tiveres, dá-me-a, e o dinheiro que obterás será suficiente para fazer dessa, de muito longe a tua mais lucrativa expedição de toda a tua vida.”
Isso aguçou o interesse de Ninfa pelo mundo terreno novamente. Afinal, ele era um mercador nato.
“Há algo que preciso mencionar” – disse Ninfa com um ar pesado. Seu rosto tornou-se pesaroso e um súbito silêncio apoderou-se dos arredores. Assai ficou meio imóvel prevendo que o amuleto do Ancianato não estava com Ninfa. E antes que Ninfa terminasse sua frase Assai lembrou-se de que Le-In prometera voltar com uma grande caravana, e agora nem ele mesmo retornava, mas seu sócio vinha só.
“Quase esqueci-me de Le-In. Onde está ele? Onde estão os outros membros da caravana?” – perguntou Assai.
Nesse momento, um de seus servos mensageiros apareceu com ar de urgência. Assai era homem de muitos assuntos, mas com um aceno fez seu servo recuar e esperar. Estava mais interessado no relato de Ninfa, que passou a narrar:
“Estávamos na altura do pico Andeias quando fomos atacados. Nunca em minha vida fomos surpreendidos por ladrões nesse trajeto. Eles mataram todos, impiedosamente ...” Ninfa continuou dando detalhes da história, da impiedade dos atacantes, do modo como se salvou, e das mercadorias que levaram. Assai compreendera rapidamente o que acontecera.
“Que ato pérfido! Possivelmente os asnarlahals venderam a informação para mim e armaram uma emboscada para obter a pedra novamente, pois sabiam de seu acentuado valor. Malditos sejam os enganadores entrerrienses. Foram eles, pois eles sabiam de tudo ... eles e aquele maztena imprestável que vendeu seus semelhantes, chamado Tarastir. Não duvido de que este último também esteja envolvido nessa trapaça! Onde está a honra nesse mundo atual?”
Ninfa sentiu-se no meio de um jogo sujo de ganância e pouca lealdade. Este Assai que estava em sua frente vociferando aquelas palavras de boa moral nem lamentava as vidas perdidas no caminho, nem se preocupava com as complicações que poderiam vir de sua intromissão nos assuntos de duas tribos e agora queria parecer um bastião da moralidade.
“Como sabes que não são simplesmente ladrões?” – Ninfa formulou tal dúvida, sabendo ele mesmo que para ladrões, aqueles agressores levaram pouca coisa.
“Não disseste tu que pouca coisa levaram? Quando acharam a Pedra Sácer, deram-se por satisfeitos na sua busca e tomaram mais algum despojo provavelmente por ganância. Mas era a Pedra que procuravam.”
“Pedra Sácer ... Pedra ... eu tenho algo comigo. Espere um pouco aqui, pois já retorno!”
Ninfa saiu e logo voltou com uma Pedra nas mãos, em formato triangular que continha uma inscrição estranha.
Uma gargalhada breve, seguida por uma menos breve e outra demorada e ruidosa puderam ser ouvidas no aposento. Era Assai, plenamente satisfeito.
“Mas como ...”
“Le-In sabia que era um artefato importante, e o escondeu num bolso, na cela do seu cavalo. Por sorte, não estava entre os cavalos roubados. Quando o montei senti a perna bater nesse objeto e percebi que se Le-In havia o depositado em lugar mais secreto, deveria ter alguma importância para ele.”
Assai chegou até mesmo a cogitar se esse Onarai não era mesmo um espírito verdadeiro, e se não havia conduzido a situação para que a Pedra Sácer retornasse ao seu lugar, mas esse pensamento evaporou-se em seguida! Assai não era um homem lá muito espiritual. Ao atender o servo que o interrompera a pouco, recebeu a notícia de que o dole que viria apanhar a pedra estava já em território levinote, e enviara um servo para avisar da sua iminente chegada. Assai começou a organizar uma grande festa de recepção e pediu que Ninfa ficasse para participar em tal. Ele agradeceu o convite, aceitando-o. Ninfa não sabia, mas a verdade é que Assai não queria pagá-lo sem antes receber a devida quantia dos doles. Por isso, nada melhor que Ninfa ficar ali com ele até a negociação com o dole estar efetuada.

 
7. “Você vendeu nossas vidas por este preço?”

Bafor-Nul sentia-se revigorado enquanto alimentava-se e saboreava o bom vinho asnarlahal, trazido a ele por Servensaus.
“O que faremos com este” – falou de boca cheia apontando para o cavalo de Greiteli.
Meirol ainda não havia pensado no cavalo, e enquanto pensava em vendê-lo, Quénsel sugeriu que o cavalo fosse levado ao proprietário pelos mesmos homens que os atravessaram ... os servos de Sendedcol.
Logo a comitiva cavalgava rapidamente em direção ao pico Andeias. Meirol calculou que a caravana levinote dificilmente teria partido para outro lugar, senão para suas próprias terras.
“Suponha que encontremos a tal caravana. E então?” perguntou Aduneius.
“Então o quê?” respondeu perguntando Meirol.
“O que você fará?” Colocará um punhal na mão de nós todos e atacaremos como loucos desvairados a caravana levinote?”
Meirol nem tinha pensado nisso. “Que aventura mais maluca. ... (fez um longo silêncio) ... Aduneius, você percebe a falta de orientação nisso tudo?” – Aduneius balançou a cabeça positivamente – “Handaf fez testes para saber qual dos chamados sábios enviaria nessa missão. Mas Handaf não tinha a menor idéia de nada sobre o paradeiro da Pedra Sácer. Não fosse a denúncia dos levinotes no norte, não faríamos a menor idéia de onde a pedra poderia estar. Além disso, nem pensamos nisso que você acabou de perguntar. Descobrir para onde a Pedra Sácer foi é uma coisa; poder resgatá-la é outra.”
Continuaram em direção ao oeste e avistaram de longe o pico Andeias.
“As Montanhas Andeias” – disse admirado Meirol. Meirol nunca ouvira falar delas antes, mas Aduneius e Servensaus descreveram-lhe detalhadamente o Pico, o mais alto de todo o território Silvo. A admiração dos narradores aguçou a curiosidade de Meirol, e ele sentiu-se honrado em conhecer aquele lugar.
Caldiens, que ia à frente, parou. Olhando com seriedade para Meirol, pediu que a comitiva tentasse se ocultar atrás de alguma árvore ou rochedo. Levando Quin-Néser consigo, Caldiens foi bater a região.
Os carregadores estavam visualmente nervosos com aquilo. Mas o quê estava acontecendo? Nenhum dos que ficaram para trás sabiam.
Logo voltavam os dois guerreiros, com olhar triste.
“Parece que a caravana Levinote foi atacada. Há sinais de luta, flechas ao chão e muito sangue. Há indícios de cavaleiros vindo das montanhas e do Grande Rio. Algumas mercadorias de não muito valor foram deixadas para trás.”
O grupo sentiu-se nervoso com a notícia. Enquanto cavalgava, Bafor-Nul olhava para o pico, com a sensação de que logo uma nuvem de poeira se ergueria vindo na direção deles. O vento batendo no rosto parecia frio, mas o vento era quente. Ouviu-se um relincho alto e uma galopada; Caldiens assustou-se e disse que batera a região o suficiente para afirmar que não havia ninguém lá. Logo aparecera um cavalo selvagem, cortando a frente da comitiva e se dirigindo ao rio. Caldiens deu um breve sorriso, como se pensasse “cavalo travesso”.
Ao chegar no exato local do ataque, a comitiva parou. Passaram a procurar cautelosamente algum artefato que pudesse ser a Pedra Sácer.
“Imaginem que a caravana foi atacada por ladrões inescrupulosos. Será que uma pedra teria algum valor para gente gananciosa?” Perguntou Aduneius.
“Bem, se for para vender ...” – arrematou Meirol
“Não Meirol. Olhe esses objetos simples ... foram deixados para trás. Parece que os ladrões estavam interessados nos objetos mais bem elaborados, os de valor. Se deixaram esses para trás, porque levariam uma pedra ... a menos que ... é ... a menos que soubessem de seu alto valor venal!”
Meirol caiu de joelhos, desanimado.
“Você está sugerindo que alguém sabia que essa caravana levava a Pedra Sácer e a atacou para obtê-la?”
“É uma hipótese, não um fato confirmado”
“Por Handaf ... que direção tomaremos agora?”
Meirol reuniu o grupo para se aconselhar. Pediu que todos prestassem atenção na hipótese de Aduneius e perguntou qual direção cada um sugeria que a comitiva deveria tomar.
“Das montanhas” disse Bafor-Nul, “eles vieram de lá,segundo Caldiens, então foram para lá”.
“Eu acho que o Bafor-Nul está certo” disse Quénsel.
“Devemos ir adiante, pois que direção eles tomaram se a pedra está com eles? Não sabemos. Mas se a pedra não estiver? Então ela foi para o poente, com alguém que talvez fugiu do pesaroso fado que envolveu os demais.” Sugeriu Quin-Néser.
“É” disse Esmálforas
“Concordo com Quin-Néser” disse Servensaus
“Porque ainda temos dúvida ... não é nem preciso colher mais opiniões, está claro que Quin-Néser tem razão” declarou Alaicha.
Ao ser apontado pelo olhar de Meirol, Aduneius disse:
“Melhor nos nortear pela opinião de um esquadrinhador de terrenos.” Disse isso olhando para Caldiens, que se expressou:
“Se os agressores obtiveram ou não a  Pedra não sei, mas sei que foram para o nascente. Como não nos deparamos com ninguém no caminho, devem ter saído da rota principal, ou passado por nós enquanto estávamos em terras asnarlahals ou eromês. Mas acho que a primeira opção é a mais provável, uma vez que os rastros deles vão até perto de onde parei o grupo lá trás e desviam para o sudeste.”
Meirol ficou confuso, e falou em voltar para o leste. Alaicha disse que ainda achava que o grupo deveria ir para o poente. Enquanto havia conselho entre eles viram lá diante um homem montado, parado. A neblina que desceu naquele momento permitiu que se percebesse pouco mais que uma silhueta. O homem ficou lá, parado, enquanto uma ansiedade conjugada com silêncio bateu sobre o grupo.
“Deve ser um batedor, talvez do mesmo grupo que dizimou os levinotes mercadores.” Disse Quin-Néser. “Ele não pode avisar os demais sobre nós.”
Quando Quin-Néser terminou sua frase, o homem manuseou as rédeas e insinuou que ia dar meia-volta; então Caldiens e Quin-Néser pularam sobre os velozes adejantes e foram no encalço deles. O cavalo do homem não era dos mais velozes, e mesmo que fosse, não seria páreo para adejantes. Logo os mesmos voltaram com o homem amarrado sendo trazido a pé por Quin-Néser, enquanto Caldiens trazia o cavalo do estranho.
“Assassinos” ouviu o grupo de longe! “Podem me matar, pois desejo encontrar-me com meu irmão Le-In”. Obviamente, não irmão de sangue.
Quando o prisioneiro olhou para o grupo que acompanhava seus dois captores, reconheceu a semelhança nos modos com o grupo que matou os integrantes de sua caravana. Puxou uma adaga que estava engenhosamente escondida sob sua vestimenta, mas foi rendido por Quin-Néser imediatamente.
“Assassinos” sussurrou novamente.
“Quem és?” perguntou Meirol.
“Sou este homem que estás vendo. Que diferença faz o nome que me designaram ao nascer?” Era Ninfa!
Meirol riu da resposta inesperada. “Por que nos chamas de assassino? És tu um dos eromês?”
“Eromês? Não tenho tratos com aqueles bárbaros entrerrienses.”
“Então por que nos acusas de assassinato? Os únicos homens que matamos foram eromês, e o fizemos em legítima defesa!”
Ninfa parou, pensou e desculpou-se.
“Julguei que fossem os assassinos de meus amigos. Foram mortos por ladrões. Parece que estavam interessados numa Pedra que nossa caravana trazia.”
“Uma Pedra ele disse?” pensou Meirol. A menção disso fez todos pararem e olharem para o estranho: deixaram de se coçar, olhar para o Pico Andeias, reajustar a cela do cavalo ou verificar pequenos ferimentos.
“Por tudo que é mais sagrado, precisamos saber mais dessa Pedra” disse Meirol.
“Parece que o mundo enlouqueceu ... ninguém mais procura pedras preciosas, só esta Pedra infame sem valor.”
“Amigo, (“então agora virei amigo”, pensou o Ninfa) meu batedor já constatou que houve luta nesse local. Deve ser o ataque a sua caravana, conforme você comentou. Não fomos nós. O último lugar em que encontramos homens foi na tribo asnarlahal, lá atrás. Acabo de ver pela primeira vez na minha vida o majestoso Pico Andeias, e procuramos qualquer notícia sobre uma Pedra específica.
Perdoe nossa captura. Julgamos que você fosse integrante do grupo dos homens que causaram o infortúnio aos mercadores nesse lugar. Parece que você julgou também que nós fôssemos tais homens. Minhas consternações por sua perda!”
“Por que queres tu a Pedra?”
“Meu nome é Meirol, sou um maztena. Parece que você sente um certo desprezo por nós, entrerrienses! (disse isso, com um sorriso de canto da boca e olhando fixamente para Ninfa) Bem, se permite dizer, ainda não estou certo se devo contar a ...”
“um estranho que vocês perderam a Pedra Sácer e agora sua tribo espera sucesso da parte de uma pequena e desesperada comitiva. Por tudo que foi consagrado no mundo, por que não nos alcançaram ao notar o desaparecimento da Pedra Sácer? Se tivésseis sido mais ágeis talvez Le-In ainda estivesse vivo!”
“Sabes o que busco?”
“Me contaram sobre o roubo maztena do Amuleto do Ancianato. Quando você mencionou que era maztena, soube o que você buscava! Me chamo Ninfa. Sou levinote, um dos cabeças da caravana que levava vossa Pedra.”
“Ninfa, muita coisa está em risco. Não sei se tínhamos motivo no passado para roubar essa Pedra Sácer ou não, mas o que sei é que os mundii são guerreiros bárbaros e numerosos. Não nos atacam por respeito ao seu deus Onarai. Mas logo saberão da perda da Pedra, e não temerão nos atacar. Pense em nossas crianças Ninfa. Pense nas mulheres maztenas, inocentes da insanidade dos homens, que pagariam com sofrimento e morte por algo que não cometeram; pois nossa tribo, pelo bem ou pelo mal, é governada pelas decisões dos homens!”
Ninfa ficou terrivelmente preocupado: “Por todos os levinotes do mundo, o que foi que eu fiz?”
Ele sentou-se desolado! “Eu vendi a Pedra Sácer por um alto valor” Ninfa mencionou seu encontro com Assai e a transação comercial entre os dois. Respondendo a perguntas de Aduneius e Servensaus, ele recuou no tempo e comentou sobre como achara estranho a ida da caravana até a tribo dos maztenas, e a entrega de uma mercadoria por um homem maztena chamado Tarastir. Seguiu falando do ataque de homens semelhantes ao grupo de Meirol atacando a caravana, e causando a morte de seus colegas e levando algumas mercadorias, deixando outras para trás, bem como alguns cavalos que podiam ser vendidos a bom preço. Não demorou muito e sua narração chegou ao ponto em que encontrou Mágobas, o servo de Assai ... quando Le-In mencionou sem querer o valor pelo qual vendera a Padra Sácer, Meirol não pôde segurar a indignação e protestou:
“Você vendeu nossas vidas por este preço?”
A frase reverberou. Houve um silêncio, cortado por pássaros que voavam nas redondezas. Ninfa continuou:
“Pouco, se pensares do modo como pensas. Muito, se pensares na venda de uma Pedra que para mim não tinha nenhum valor! Porém maztena, não estava satisfeito em ficar bem na vida e não saber exatamente por que Le-In morreu. Fora um simples roubo? Decidi vir para o nascente para investigar, pois Assai, o homem que comprou a Pedra Sácer de mim parecia esperto, e sugeriu que o ataque era uma tentativa dos vendedores asnarlahals de reaver a Pedra que venderam.”
Quénsel e Bafor-Nul estavam espantados, olhando para Alaicha.
“Por que descaiu teu semblante dessa maneira, meu amigo Alaicha. Ainda há esperança. Vede! A Pedra Sácer está indo para os dole-mundii em passo de caravana. Ainda podemos alcançá-la.”
“Eu sei Quénsel. Deixe-me em paz!”
Quénsel e Bafor-Nul estranharam a rudeza do colega. Ele parecia agora mais preocupado do que Meirol ... ou ainda, mais preocupado do que Handaf estava nas horas que seguiram à descoberta da ausência da Pedra. Alaicha sentiu-se observado pelos colegas.
“Desculpe meu desespero, amigos.”
Ao voltarem suas atenções para Meirol e o levinote ouviram-nos dizer que iam cruzar o Grande Rio com a ajuda dos asnarlahals, e ir ao encalço da caravana dole, antes que a Pedra Sácer chegasse a Caruanã.


8. Uma Notícia Boa e Ruim

Uma notícia pode ser boa ou ruim, dizia uma frase do livro “Ditos”, por Madegal, escrito cerca de 200 anos depois desse episódio. Para Caruanã, isso era verdade. Era bom não ter notícia, por que o teor dela poderia ser negativo. “Será que  os sábios d´além das montanhas Andeias poderiam mesmo obter o amuleto para mim?” Ele ainda não sabia, mas os “sábios” levinotes já o haviam obtido.
Caruanã também achava ruim não ter notícia, pois ela poderia ser boa ... e sua ansiedade, desnecessária.
Naquela tarde, porém, algo ia tirar-lhe a monotonia! Veio a ele um servo do Grande Líder dos manvatopias dizendo que seu senhor estava a caminho dos manvas do sul, e desejava encontrar-se com ele.
Caruanã ficou irado. “Esse líder menor de uma tribo decadente, sempre me importunando e desejando uma aliança com a poderosa tribo dos dole-mundii.” – pensou!
Antes mesmo de dizer palavras ásperas ao servo manvatopia, seus pensamentos foram rebatidos pelas palavras deste: “Grande Líder dole-mundii, meu senhor tem uma informação valiosa para vossas pretensões. Disse que se o ouvisse, não se arrependeria”
Caruanã mudou a feição, de uma carranca fechada para uma cara de espanto. “Saberia esse manva algo sobre o amuleto do Ancianato?” – raciocinava ele, dizendo depois ao homem postado à sua frente: “Ide, e dizei a teu senhor que ele será bem vindo aqui!” O servo manvatopia despediu-se de Caruanã, feliz por poder dar uma notícia que sabia que deixaria seu Grande Líder feliz.
Horas depois e o Grande Líder manvatopia aparecia no horizonte. Logo os internúncios dole-mundii e manvatopia anunciaram a chegada do Grande Líder. Caruanã não havia feito muitos preparativos, primeiro porque foi uma visita de surpresa, e segundo porque ele sentia um certo desprezo pelos manvas, tanto a tribo manva do norte, bem como a do sul e  a dos manvatopias. Feitos os devidos cumprimentos, ambos os líderes foram para um cômodo mais interior da moradia de Caruanã. Como a desconfiança era abundante e recíproca, uma pequena guarda pessoal acompanhou os dois.
“Serei breve, pois meu irmão, o líder dos manvas do sul, me espera (não eram irmãos de sangue, os manvas consideravam-se uma fraternidade). Tenho uma informação para ti, Grande Líder.”
“Prossiga!”
“Mas é uma informação que acharás valiosa, Grande Líder dos dole e dos mundii”
“Entendo ... terás minha gratidão Grande Líder manvatopia, se tua informação puder comprá-la!”
“Bem sabes dos meus problemas com os tassu-assus, que eles atacam os eromês e acabam algumas vezes por nos atacar. São guerreiros bárbaros e destemidos, à maneira dos mundii. Sabes ainda que enfrento oposição à minha liderança no sul manvatopia, num território onde quase encontramos os maztenas do norte, e que as terras ao leste do rio Silivratas estão desabitadas, mas os ununaios (membros da tribo dos achis) não permitem que ninguém as habite. E também ...”
“Que é isso? Acaso estás salvando os dole-mundii de sua exterminação, para achar que podes fazer tantos pedidos a mim? Diga o que tens a dizer, e julgarei até que ponto a informação valerá uma aliança.”
Os manvatopias consideravam o Grande Líder dos dole-mundii um grande arrogante. Mal o suportavam, mas o consideravam um excelente aliado pois, numa batalha, talvez só os achis poderiam fazer-lhe frente em toda aquela vasta região. Pensando nisso, o Grande Líder manvatopia pôs-se a dizer:
“Estive visitando os eromês para selar nossa amizade e discutir sobre um problema comum: os tassu-assus. Enquanto uma festividade era preparada, eis que apareceu em terras eromês um pequeno grupo de maztenas, uns dez talvez. Maztenas fora de seu território é algo incomum, por isso fiquei surpreso e curioso; o que faria um grupo de maztena em solo eromê? Teriam sido expulsos e enviados ao exílio? De repente, minha mente lembrou do amuleto do Ancianato. Suspeitei que perderam a pedra e, para não levantar suspeitas de tal perda, enviaram um pequeno grupo para procurá-la. Descobri tudo da melhor forma possível, perguntando, e um homem, aparentemente servo do principal, confirmou minha suspeita. Caruanã ... eles estão sem o amuleto! Essa é, portanto, uma notícia boa e ruim. É boa, pois sabe-se que estão sem a pedra. É ruim, pois estão no encalço dela.”
Caruanã quase explodia de satisfação. “Afinal, parece que os sábios de longe conseguiram-na para mim.” A confirmação de que a tribo maztena, que por um século jamais permitiu que a Pedra Sácer sumisse, a perdesse agora era um indício excitante de que seus planos iam bem.
“Ide aos manvas do sul, meu amigo. Adiantarei a investigação anual referente ao amuleto, e se os maztenas não puderem mostrá-lo a mim, saberei que não te enganastes no que se refere a isso. Quando voltareis de tua visita?”
“Passarei alguns dias lá ... não planejei o número exato”
“Vá em paz, meu amigo manva. A notícia que me trouxeste é valiosa. Ganhaste minha amizade”
Algumas formalidades depois e o séquito manvatopia passou a tomar seu rumo, com muitos soldados e um assento sendo carregado por alguns homens. Caruanã achou graça disso. Nunca levara seu assento junto com ele. Mas seus pensamentos rapidamente se voltaram para os maztenas.
Os dole-mundii passaram a organizar uma pequena comitiva para investigar de maneira adiantada ao previsto se os maztenas possuíam ainda o Amuleto ou não. Enquanto a comitiva organizava sua partida, Caruanã já ia reunindo-se com os chefes de sua força militar, enviando chamados por toda a tribo, convocando todo “apto a segurar uma lança ou um machado.”
Os dole-mundii, em especial os mundii, gostavam do combate corpo-a-corpo e eram hábeis e vigorosos para este tipo de luta. Havia entre alguns doles e mundii homens de boa pontaria que causavam um dano considerável no inimigo com suas lanças. Mas iam enfrentar um povo que sabia manejar o arco e flecha como ninguém, usando-o constantemente na caça e pesca.
Caruanã estava agitado e satisfeito. Sabia que os mundii seriam subservientes aos doles por muito tempo, se houvesse sucesso nessa empreitada. Na sua inquietação, passou a organizar o povo que ia afluindo a ele obedecendo a convocação militar. Mas os dole-mundii se espalhavam por uma grande região, e reuni-los não seria uma tarefa a ser cumprida brevemente!
Êferos Masopias
Enviado por Êferos Masopias em 08/03/2006
Código do texto: T120423
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Sobre o autor
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